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Barbárie
HENRY, Michel. La Barbarie. Paris: Livre de Poche, 1987.
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Constata-se o ingresso na barbárie, fenômeno que, embora não seja o primeiro mergulho da humanidade na noite, distinguia-se antes por ser sempre seguido de novo florescimento, com novos templos erguidos sobre ruínas antigas e campos alagados sendo drenados para dar lugar a agricultura mais próspera, concebendo-se assim a história sob forma cíclica de expansão e declínio seguido de novo impulso
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Esse desenvolvimento da vida aparecia sempre global, unindo simultaneamente as atividades econômica, artesanal, artística, intelectual, moral e religiosa, cuja eclosão conjunta produziu Suméria, Assíria, Pérsia, Egito, Grécia, Roma, Bizâncio, a Idade Média e o Renascimento, espaços onde floresciam ao mesmo tempo todos os valores constitutivos da humanidade
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O que ocorre hoje é bem diferente: desde o início da era moderna assiste-se a um desenvolvimento sem precedentes dos saberes que reivindicam o título de “ciência”, conhecimento rigoroso e objetivo que se distingue pela potência de suas evidências e provas, e pelos resultados extraordinários que transformam a face da terra
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Esse bulversamento atinge também o próprio homem, colocando-se a questão de por que o conhecimento cada vez mais compreensivo do universo caminha junto ao desmoronamento de todos os demais valores, desmoronamento tão grave que compromete a própria existência
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a face da terra transformada torna-se tão hedionda que a vida já não é suportável nela, revelando-se a beleza, conquista paciente da humanidade, não apenas ligada ao aspecto das coisas mas condição interior dessa vida, secretada e querida por ela
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por ser a própria vida atingida, todos os seus valores vacilam, não só o estético mas também o ético e o sagrado, e com eles a própria possibilidade de viver cada dia
A crise da cultura, hoje dificilmente dissimulável, recebeu explicações mais ou menos suspeitas, sendo a mais admitida aquela segundo a qual o saber, para progredir com a ciência moderna, teve de se fragmentar numa proliferação de pesquisas cada qual com suas metodologias, aparatos conceituais e objetos próprios, tornando-se impossível a qualquer indivíduo dominar todas elas, comprometendo-se assim a unidade do saber e o princípio capaz de assegurar a concordância das condutas e pensamentos em todos os domínios-
o comportamento cotidiano de recorrer ao especialista para cada problema, eficaz para uma dor de dente ou o conserto de uma máquina, não fornece nenhuma visão de conjunto sobre a existência humana e seu destino, visão sem a qual é impossível decidir o que fazer quando está em jogo a própria existência
Permanece despercebida, nessa interpretação da crise como multiplicação necessária de saberes rigorosos e objetivos, a pressuposição de que esses saberes constituiriam o único fundamento possível de um comportamento racional em todas as esferas da experiência, o que não explica por que se observa, em vez de comportamento adaptado, a mesma incerteza e o mesmo desnorteio em todas as ordens da vida sensível, afetiva e espiritual, configurando não uma crise mas uma verdadeira destruição da culturaO hiperdesenvolvimento de um hipersaber, em ruptura completa com os conhecimentos tradicionais da humanidade, tem por efeito abater não apenas esses conhecimentos, tidos por ilusórios, mas a própria humanidade, contrastando com o passado em que saber, bem, belo e sagrado subiam e desciam juntos como a maré do oceano, apresentando-se agora, pela primeira vez, a explosão científica acompanhada da ruína do homem, nova barbárie de cuja superação não se tem mais certezaCompreende-se plenamente por que um certo tipo de saber, surgido na época de Galileu e desde então tomado como o único saber, produz necessariamente a subversão de todos os demais valores, da cultura e da humanidade do homem, desde que se disponha de uma teoria da essência de todo saber possível e de seu fundamento último, fundamento que é também o das próprias valores, da cultura e da humanidade, e que, por ser extraordinariamente descartado pela ciência moderna, precipita sem que ela o saiba nosso mundo no abismo, restando ainda, à beira desse abismo, lançar nele os últimos clarões de uma luz estranha que acompanha a humanidade desde suas origens, capaz de revelar a ameaça, as grandes rupturas e os desmoronamentosestudos/henry/b/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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