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Homem-Ser

HAAR, Michel. Heidegger et l’essence de l’homme. Grenoble, Jérôme Millon, 1990 / Heidegger e a Essência do Homem. Lisboa: Instituto Piaget, 1997 / Heidegger and the Essence of Man. Translated by Tr William McNeill. State University of New York Press, 1993.

A falsa simetria da dupla relação entre o homem e o ser

  • A relação entre o homem e o ser possui duplo sentido, indo do homem ao ser e do ser ao homem, sendo o pensamento da Ereignis fundado no princípio de uma coopertença mútua e recíproca entre ambos, ainda que a preponderância originária do ser sobre o homem torne impossível o menor equilíbrio entre os dois aspectos dessa relação
    • O homem não recebe do ser senão a capacidade de recordar-se dele, inscrevendo-se todas as suas qualidades mais altas numa receptividade radical que abrange a escuta, a obediência, a submissão e a resposta apropriada
    • A essência humana consiste em corresponder fielmente à relação do ser com ela, o que sugere que essa essência se esvaneceria inteiramente no próprio ser
  • O ser configura-se como lugar fictício e utópico onde se projetam e reúnem, fora do homem, as faculdades transcendentais das quais o sujeito perdeu a propriedade
  • O próprio ser não quer, não age, não pensa nem raciocina, mas chama, dispõe e determina o homem a querer, a agir e a pensar, de modo que na época do Gestell a vontade humana é apenas executante de uma vontade de vontade inscrita no ser
    • O ser constitui uma condição transcendental de possibilidade colocada de maneira neutra fora do homem, manifestando uma intenção e imprimindo uma direção à qual o homem não pode se subtrair
    • O ser utiliza o homem, não apenas o mantendo mas o manipulando no sentido literal, relação nomeada Brauch que traduz o Chréon de Anaximandro
    • Não há aqui o retomar transposto de um tema religioso, como na fórmula de que o homem está na mão de Deus ou de que Deus necessita dos homens
  • Entre as perguntas sobre o que quer dizer o ser e sobre quem é o homem, o balanço não pode ser igual, pois a resposta à segunda pressupõe sempre a resposta à primeira, sendo o homem exclusivamente espaço livre para a presença do ser, definição que Heidegger não considera restritiva
    • Segundo a citação heideggeriana referida, o traço distintivo do homem está em, na sua qualidade de ser pensante, manter-se aberto e em relação de correspondência com o ser, pertença que é escuta transapropriada pelo ser
  • A essência do homem é a de depender do ser, de lhe corresponder e de lhe pertencer como seu próprio, ainda que o texto da Identidade e diferença pareça introduzir em seguida uma reserva ao fazer aparecer uma dependência igual do ser em relação ao homem
    • Segundo a passagem citada, o ser só é e dura na medida em que, dirigindo-se ao homem e reivindicando-o, o toca, sendo o homem quem, aberto ao ser, o deixa vir primeiro a ele como presença
    • Segue-se imediatamente a correção de que isso não significa que o ser seja posto primeiro pelo homem e apenas por ele, notando-se a desigualdade na relação: o homem é posto no mundo pelo ser, e o ser nunca é uma fabricação do homem
  • O ser também não é o em-face, o frente-a-frente do homem, não estando perante nós mas antes de nós, distinção que se opõe à ideia de subjectividade fundada na autoposição do homem e na posição do fora como objeto
    • Questiona-se se o pensamento do ser não seria apenas o inverso da metafísica da subjectividade, caso regressasse à autoposição do sujeito transposta para a autoposição do ser, e se o fato de o ser retomar as funções do sujeito não seria índice dessa inversão
  • Para responder à objeção segundo a qual a relação sujeito-objeto apenas se teria invertido, com o ser tornando-se o verdadeiro sujeito e o homem seu objeto, Heidegger desenvolve a difícil noção de Ereignis, que pensa o laço entre homem e ser não como relação entre termos originariamente separados, mas como Identidade inicial, copertença plena e ilimitada, constelação ou entrelaçamento
    • A Ereignis, como entre-pertença do ser e do homem, seria a copertença do Apelo e da obediência, mais original do que a relação considerada nos seus dois momentos separados
    • Apenas um salto de pensamento, que nos afasta do ser, permitiria compreender essa apropriação totalmente recíproca e ver que o ser nos pertence enquanto lhe pertencemos, já que o ser só pode desapossar-se como ser, isto é, ser presente, ao pé de nós
    • Conforme a citação referida, o salto é a chegada súbita ao domínio a partir do qual o homem e o ser sempre se alcançaram um ao outro em sua essência, sendo transapropriados em virtude de uma só e mesma extensão
  • Se o princípio da Ereignis é uma copertença verdadeiramente mútua entre o homem e o ser, tal mutualidade só é admissível ao preço de uma falsa simetria, pois a essência do homem consiste apenas em pertencer e corresponder ao ser, sem que o ser jamais possa verdadeiramente pertencer ao homem do mesmo modo, já que o ser não depende do homem como o homem depende dele
    • Heidegger não alcança a simplicidade que deveria caracterizar a Ereignis como singulare tantum, pois a co-apropriação se desdobra novamente em dois modos de apropriação que repetem os aspectos dissimétricos da relação: o homem depende do ser naquilo que tem de específico, enquanto o ser é voltado para a essência do homem naquilo que tem de específico
  • O salto para a Ereignis, entendida como Identidade em que os termos fundidos perderiam as determinações que a metafísica lhes havia conferido, não é conseguido, pois o ser não é afastado, e o homem mantém sempre uma essência distinta, já que ser chamado mortal supõe sempre diferenciar-se do ser, do mundo ou dos deuses
    • A prioridade do ser torna estritamente impensável uma reciprocidade verdadeira de sua relação com o homem
  • Não há como imaginar que no Gestell se manifeste uma interpelação recíproca entre o homem e o ser, havendo antes, precisamente na Técnica, uma desigualdade e uma não reciprocidade flagrantes
    • O homem é interpelado pelo Gestell no sentido de ser intimado a calcular, produzir, acumular energia e curvar-se ao modo de descoberta específico dessa configuração técnica, mas não é capaz de interpelar o Gestell nem de o pôr em questão, já que a questão do ser do ente está resolvida à partida
    • Conforme citação referida, somos surdos ao apelo do ser que nos fala através da essência da Técnica, sendo o Gestell, ao interpelar o homem, aquilo que se interpela a si próprio
    • Não se pode afirmar, como o faz Heidegger, que o homem seja posto à espera na mesma medida que o ser, pois a Ereignis enquanto ser, mesmo como Gestell, possui uma liberdade infinitamente superior à do homem
  • O homem só pode esperar a Ereignis como Viragem que já é e ainda não é, visto que o Gestell é dela apenas o prelúdio, sendo a Ereignis o nome dado por antecipação a uma identificação possível entre o homem e o ser, para além da metafísica
    • Ao esperar um novo começo, uma nova História, a Ereignis dispõe do homem nas mesmas proporções e com a mesma completa soberania do ser, revelando que o homem é utilizado e que só fala enquanto escuta a língua e lhe pertence
    • Conforme citação referida, a Ereignis apropria-se do homem na utilização que faz dele
    • Todos os esquemas de liberdade, de atividade e de poder que eram próprios do ser são transferidos para a Ereignis, perante a qual o homem conserva as mesmas determinações de quase passividade e de dependência
    • O pensamento da Ereignis não modifica fundamentalmente a definição de essência do homem, que continua resultando de sua relação com o ser e da relação do ser consigo mesmo
  • O homem encontra-se situado na encruzilhada de dois movimentos, o seu próprio que o transporta para o ser e o movimento pelo qual o ser retoma nele a transcendência humana, sendo necessário analisar sucessivamente os dois aspectos dessa dupla relação, que a Ereignis não suprime e que permanece tema central em todos os escritos posteriores à Viragem
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