estudos:guest:wittgenstein
Wittgenstein, Ludwig (1889-1951)
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Nome de Wittgenstein evocado duas vezes por Heidegger como figura distante, sem esforço de engajamento direto.
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Duas vezes bem atestadas em textos de Heidegger, além de alusões em conversas com membros do Círculo de Viena.
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Pensamento de Heidegger, por sua vez, é evocado com certa precisão em escritos de Wittgenstein.
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Situação constitui simetria na assimetria, marcada por distância aparentemente intransponível entre dois pensadores estranhos um ao outro.
Um dos mal-entendidos mais profundos e obscuros do nosso tempo reside na clivagem não questonada entre os caminhos de pensamento de Wittgenstein e Heidegger.-
Poucos trabalhos contemporâneos se deram ao trabalho de medir verdadeiramente o intervalo entre essas duas empresas decisivas do pensamento.
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Nesse intervalo jogam-se, talvez ainda a nossa revelia, alguns dos enjeux maiores da genealogia da modernidade.
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O mais perigoso contrassenso poderia ser o que concerne à profunda mutação ocorrida, em nosso tempo, na própria essência ou aître da verdade.
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Ambos os pensadores sentiram os sobressaltos do nihilismo consumado, mas de maneiras distintas e em estilos incomparáveis.
Heidegger, em um dos Seminários do Thor, evoca Wittgenstein como paradigma da ontologia moderna da objetividade.-
Objetivo é contrastar a experiência grega da verdade como aletheia (desocultamento) com a perda dessa experiência na modernidade.
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Para ilustrar essa perda, Heidegger atribui a Wittgenstein uma tese ontológica: Wirklich ist, was der Fall ist (É real o que é o caso).
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Frase é referência ao aforismo inicial do Tractatus Logico-Philosophicus: Die Welt ist alles, was der Fall ist.
Heidegger interpreta esta frase como expressão máxima da objectividade factual, da Vorhandenheit, onde o real se esgota na pura factualidade.Julga este princípio fantasmagórico, como pretensão quase alucinatória da subjetividade transcendental moderna.-
Pretensão de um sujeito metafísico que reduz o sentido de ser do ente em seu conjunto ao que pode ser fixado e determinado a priori e a posteriori.
O objetivo heideggeriano é mostrar o abismo entre a parousia grega do ente em sua plenitude mundana e a comparência e designação do ente moderno à objetividade do objeto.-
Objetividade esta essencialmente determinável por uma subjetividade que é a da ciência natural moderna e da metafísica da subjetividade que a sustenta.
Wittgenstein é assim apresentado como assinatura histórica desse empobrecimento ontológico e dessa pretensão espectral.Questão crucial: Wittgenstein merece essa atribuição e esse papel sem maiores considerações?-
Papel conviria melhor a um Carnap ou à ideologia científica do Círculo de Viena, a qual o próprio Wittgenstein combatia.
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A verdade dos aforismos do Tractatus é de ordem totalmente diversa da verdade das proposições das ciências naturais.
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A verdade que interessa a Wittgenstein é da ordem do que não pode ser dito, mas apenas mostrado no seu próprio mostrar-se silencioso.
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Pertence ao laconismo de uma verdadeira sigética, a do elemento místico (Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen).
Se a figura de Wittgenstein tem lugar na história do Ser, não é no lugar que Heidegger lhe pensou poder designar.Posição de Wittgenstein em relação a Heidegger emerge em contextos de discussão com membros do Círculo de Viena.-
Wittgenstein tomou posição sobre aspectos do pensamento de Heidegger, como a conferência Que é Metafísica? (1929) e seus temas (Ser, Nada, angústia).
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Discordava da polêmica de Carnap contra as pseudo-proposições metafísicas, que programava sua eliminação.
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Wittgenstein, longe de condenar Heidegger, parece reconhecer-lhe um mérito paradoxal, partilhado com Kierkegaard.
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Mérito de ter tentado fazer sinal em direção ao que não pode ser dito, mas apenas tacitamente mostrado: o elemento místico.
Em nota de entrevista com Moritz Schlick (30 dez. 1929), Wittgenstein declara:-
Compreende o que Heidegger quer dizer com Ser e Angústia.
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Identifica no homem um impulso (Trieb) de lançar-se contra os limites da linguagem.
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Exemplifica com o espanto de que algo exista (em vez de nada), espanto inexprimível como pergunta e sem resposta.
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Tudo o que podemos dizer a priori é não-sentido, mas não deixamos de nos lançar contra esses limites.
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Este ímpeto é também o visado por Kierkegaard (como tendência a lançar-se contra o paradoxo).
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Define: Este ímpeto de lançar-se contra os limites da linguagem é a Ética.
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Na Ética, tenta-se sempre dizer algo que não toca a essência da coisa e não pode alcançá-la.
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Quanto à tendência, ao ímpeto, isso faz sinal para algo.
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Cita santo Agostinho: Então, miserável verme, não queres dizer não-sentido? Diz então, vamos, não faz mal!
Crítica fundamental de Wittgenstein a Heidegger é, portanto, de fundo e de estilo.-
Crítica: Heidegger também cedeu à tendência de lançar-se contra os limites da linguagem.
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Ou seja, cedeu à tentação de falar da Ética, ou do que é ético, falando do Ser ou da angústia.
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Sua empresa (Ser e Tempo) teria sucumbido, à sua maneira, à mesma tentação a que o autor do Tractatus sucumbira.
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Tentação de tentar dizer o que não se pode dizer, o que deveria permanecer calado, o que só pode ser mostrado em silêncio.
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Refere-se ao que está nos limites da linguagem: algo do limite interno do mundo, do que é ao mesmo tempo Ético e Místico.
Discussão específica sobre expressões como Es nichtet ou Das Nichts nichtet aparece em ditados a Waismann.Em outro contexto, no seminário sobre Heráclito com Eugen Fink, Heidegger evoca um pensamento de Wittgenstein em forma de parábola.-
Contexto é a dificuldade da implicação irremissível na circularidade do círculo hermenêutico.
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Questão: deve-se sair dele ou entrar nele resolutamente, com um salto originário e sem reservas (como preconiza Ser e Tempo)?
Respondendo à sugestão de um participante (Não deveríamos antes entrar no círculo?), Heidegger recorda inopinadamente a posição de Wittgenstein.-
Parábola de Wittgenstein: A dificuldade em que se encontra o pensamento assemelha-se à de um homem numa sala, de onde quer sair. Tenta primeiro pela janela, mas é alta demais. Tenta então pela chaminé, mas é estreita demais. Ele só teria que se virar para ver que a porta nunca deixou de estar aberta.
Posição de Wittgenstein parece inversa à de Heidegger, mas apenas em aparência, suscitando reflexão sobre a natureza do acesso ao que já está aberto.estudos/guest/wittgenstein.txt · Last modified: by mccastro
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