12: 17/01/2006
FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005
1. A segunda seção, “Dasein e temporalidade”, abriu-se com a questão da possibilidade de aceder à totalidade do Dasein, aparentemente contraditória com a existência como ser-adiante-de-si, mas exigida por um acesso inteiramente transparente a seu ser, e respondida pela compreensão do Dasein como todo a partir de seu poder-ser mais próprio, o poder-morrer, entendido como antecipação na possibilidade e possibilização da possibilidade, restando mostrar, no capítulo 2, que esse poder-ser é atestado pelo próprio Dasein, de modo conforme ao Dasein (daseinsmässig), mostrando que ele pode apreendê-lo, que o apreende e de que maneira, sem o que a análise anterior flutuaria no ar.
2. Autêntico e próprio significam o mesmo, e a questão é saber se o Dasein pode ser propriamente si mesmo, poder-ser enraizado em sua ipseidade (Selbstheit), mais ampla que a egoidade, que é apenas uma de suas versões, e, sendo o Dasein de início e na maior parte das vezes impessoal, o si-mesmo não é dado, mas conquista, só atingível como modificação do impessoal, uma retomada de si a partir dele, que tem a estrutura de escolher a escolha, pois a omissão de si foi também uma escolha, estrutura análoga ao eterno retorno de Nietzsche e que prefigura a resolução como forma existencial da liberdade, pressupondo, porém, que o poder-ser próprio se anuncie de algum modo ao Dasein disperso no impessoal.
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Torna-te quem tu és.
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Quanto mais se diz “eu, eu, eu”, menos segura é a ipseidade, pois o discurso em primeira pessoa é emitido pelo impessoal.
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O retorno a si, termo que Heidegger evita por boas razões, assemelha-se à expressão “recobrar os sentidos”.
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Nietzsche recusa o meio-querer: se és preguiçoso, sê-o pela eternidade, quer o que queres de modo a querer seu eterno retorno.
3. O poder-ser próprio anuncia-se no fenômeno da consciência, e singularmente em sua voz, sendo necessário distinguir, em alemão, a consciência teórica (Bewusstsein) e a consciência moral (Gewissen), o “sentimento interior” de Rousseau no Emílio, tema antigo analisado por Kant, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche, em cuja linha Heidegger se inscreve para desteologizá-lo e sobretudo desmoralizá-lo completamente, fenômeno ordinário, que nada tem de ouvir vozes, no qual se apresenta ao Dasein uma possibilidade de ser diferente daquela em que se perde no impessoal.
4. A consciência sempre dá algo a compreender, caráter formal cujo quê e como devem ser determinados eideticamente, pertencendo assim aos fenômenos existenciais do aí, e, compreendendo-se o Dasein de início a partir do impessoal por ser ser-com que escuta suas vozes, e compreendendo-se mal nessa escuta, o retorno a si exige a interrupção do alarido da ambiguidade e do falatório sempre novo, interrupção operada pela consciência, que chama o Dasein a si mesmo, sendo o chamado um modo do discurso, que articula a compreensão, e por isso dá algo a compreender, chamado que ressoa do longe para o longe, emitido a partir da estranheza (Unheimlichkeit) do ser-no-mundo e reconduzindo a ela, contra a interpretação kantiana da consciência como tribunal, análise construída em torno de Ruf e rufen (§ 56) e das questões de quem chama, quem é chamado, qual o conteúdo e como se realiza o chamado.
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O Dasein está sempre “ligado” ao ser-com, como em “segundo uma pesquisa, os franceses pensam que…”.
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Todos já se perguntaram, no meio de um grupo, “o que estou fazendo aqui?”.
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Não há primeiro a consciência e depois sua voz (p. 271), e é tocado pelo chamado quem quer ser trazido de volta.
5. O chamado é o próprio Dasein, único que pode ouvi-lo, enquanto impessoal, disperso, decaído junto às coisas e aos outros, e é chamado a seu poder-ser próprio, a seu si-mesmo próprio, pois todo chamado é chamado a alguém e para algo, passando por cima (übergangen) da dispersão no impessoal e abrindo outra coisa, restando saber quem chama.
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A expressão “Was ist im Ruf des Gewissens das Geredete” deve ser traduzida por “o que é, no chamado da consciência, o dito”, e não por “l'advoqué”, como Martineau, que traduz o alemão em alemão.
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Übergangen significa passar de uma margem a outra, mas também omitido e ultrapassado.
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Um chamado a uma manifestação dirige-se a pessoas, mas é sempre manifestação por algo.
6. O chamado nada diz, não fornece informação sobre os acontecimentos do mundo nem visa um exame de consciência, sendo uma convocação essencialmente silenciosa, pois a consciência fala no modo do calar, possibilidade mais alta da fala, reservada a quem tem algo a dizer, silêncio mantido e dirigido a alguém determinado, concentrado no Dasein interpelado, e não silêncio em geral.
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A voz da consciência é, segundo o Novo Testamento, uma voz de fino silêncio, voz sem palavra que cada um pode reencontrar em si.
7. O chamante dá-se de início em completa indeterminação, pois não se sabe por quem se é tomado, mantendo afastada toda familiaridade cotidiana, alheio ao horizonte do impessoal, fora do qual pode ser identificado como o próprio Dasein (p. 275), não a mesmo título que o chamado, mas enquanto Dasein em seu poder-ser mais próprio que chama o Dasein perdido no impessoal, duplo regime de identidade sem o qual a análise não se sustentaria, estrutura desteologizada mas de origem teológica, e chamado do qual nunca se tem a iniciativa, pois a voz da consciência fala quando quer, vindo de mim sem mim e excedendo-me.
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Hoje se vê a identidade de quem telefona, mas na voz da consciência nunca se sabe.
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A expressão “tenho a consciência a meu favor” interrompe toda discussão, pois só cada um pode ouvir a voz de sua consciência.
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Teologicamente, o homem criado e livre voltou-se contra o criador e, do estado de pecado, ouve um chamado à reconciliação, estrutura formalmente idêntica ao retorno à essência própria, sem que se decida aqui qual precede a outra.
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A distinção husserliana entre sujeito transcendental e sujeito psicológico-mundano, que a filosofia sempre confundiu, apresenta igualmente duas situações fenomenais com direito próprio e hierarquia.
8. A aula é retomada após interrupção.
9. O chamado da consciência enraíza-se inteiramente no ser do Dasein, pois se dirige a um Dasein decaído e, portanto, lançado, cuja disposição é a fuga diante da angústia e da estranheza do ser-no-mundo, de modo que só pode ser lançado a partir da estranheza revelada na angústia, sendo o chamante o Dasein angustiado, como mostram o fato de o chamado ser sempre ouvido como voz estranha, nada sendo mais estranho ao impessoal que o si-mesmo próprio, e o fato de falar calando, modalidade discursiva da angústia, e, sendo o Dasein angustiado em seu poder-ser mais próprio o Dasein em seu ser verdadeiro, o cuidado, a consciência manifesta-se como chamado do cuidado, que convoca o Dasein a sair do impessoal e da ocupação.
10. A interpretação ainda não é satisfatória, pois deixa de fora um traço do fenômeno, a voz da consciência falar sempre de “culpa” (Schuld), e nenhuma nova interpretação é possível sem dar conta de todos os traços tradicionalmente reconhecidos, restando também compreender como o que a consciência dá a compreender é efetivamente compreendido, o que ocorre na resposta, inseparável da compreensão do apelo, pois compreender, sendo estrutura da existência, é fazer.
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Schuld significa culpa e também dívida, e Martineau traduz por “dette”, escolha compreensível que torna menos visível a desteologização, preferindo-se aqui “culpabilidade”.
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Na forma fundamental do pensamento de Jean-Louis Chrétien, a fala é sempre endereçamento, só compreendido na resposta.
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“Compreendi, mas isso não muda nada” revela que nada foi compreendido, pois quem não faz nada não compreendeu nada, e, se uma compreensão filosófica nada transforma, nada é.
11. A análise da culpa deve afastar toda determinação que remeta a algo não conforme ao Dasein, como a relação com a lei moral, compreendendo-a exclusivamente a partir de seu ser, como predicado do “eu sou”, formulação hábil e econômica que exclui todo o resto e marca a desteologização, examinando os sentidos correntes, ter dívidas, derivado, e ser responsável por algo ou alguém, modalidade do ser-com, da qual se retém o conceito formal de ser fundamento de uma falta no Dasein de outro, modo de ser e não qualidade, pois só há qualidades de uma substância e o Dasein é verbo cujas modalidades são advérbios, e, suprimindo o “em relação a outrem”, obtém-se por formalização a questão de como o Dasein pode ser fundamento de uma falta.
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Ter uma conta pendurada no bar é ter dívidas no sentido derivado.
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Heidegger afirma que a culpa não advém pela violação do direito enquanto tal, mas por ser responsável pelo perigo em que o outro é posto.
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“O Dasein é mau” significa que o Dasein existe maldosamente.
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A formalização coloca um problema de método, pois a fenomenologia recusa separar a significação de sua concretização nos exemplos, resto de kantismo e momento não fenomenológico da análise.
12. O conceito formal de ser-em-dívida, ser fundamento de uma falta, abandona tudo o que se refere ao ser ocupado com outrem e à lei ou ao dever, desmoralização e desteologização totais operadas pela formalização, pois nos casos correntes a dívida é determinada no horizonte de algo que falta como não-simplesmente-dado, devendo a culpabilidade ser compreendida exclusivamente a partir da existência, cuja ideia contém o caráter do “não” (p. 283), cuja negatividade ontológica deve ser esclarecida, contra a frente explícita da ontologia da Vorhandenheit e a frente implícita do cristianismo, embora seja insustentável que a compreensão do pecado resida na ontologia da subsistência, pois teologicamente a negação tem um conteúdo, a negação de Deus, sem o qual nada resta.
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Ser culpado ou pecador contém a ideia de uma negação.
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Só se avança contra várias frentes ao mesmo tempo, como a Crítica da razão pura contra Leibniz e contra os empiristas.
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A formalização extrema compreende o ser-culpado sem relação com aquilo diante do que haveria culpa, esvaziando seu conteúdo, e é o instrumento da desteologização, mas é propriamente não fenomenológica.
13. A formalização não se livra do ser, pois formalizar e ontologizar coincidem aqui, e ser culpado é ser fundamento de uma nulidade (Grundsein einer Nichtigkeit), passagem do “não” à nulidade que revela o trabalho fino aprendido com Husserl, restando mostrar que a existência é fundamento de uma nulidade, o que ocorre porque o Dasein, fundamento de seus poderes-ser, é lançado na existência e não é fundamento de seu ser, sendo seu próprio fundamento enquanto lançado, sem jamais ter poder sobre o fundamento de seu ser (p. 284), estrutura própria da existência lançada, a ser retomada na aula seguinte.
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A ideia de que o homem não é fundamento de seu ser não é nova, pois ele é fundado em Deus, mas em Heidegger tem outro sentido.
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Martineau traduz “ser fundamento significa nunca estar de posse de seu ser mais próprio”, quando o sentido é nunca ter poder sobre o fundamento de seu ser.
