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estudos:flusser:1977:start

Comunicologia

FLUSSER, Vilém. Natural:Mind. In French/Portuguese manuscripts, 1970s. (Primeira edição alemã: Standpunkte: Texte zur Situation. Göttingen: European Photography, 1998).

Tópicos da apresentação Rodrigo Maltez Novaes

1. Apresentar ao público anglófono esta obra de Vilém Flusser, mais de quarenta anos após sua redação, é motivo de satisfação, pois, na era pós-internet, suas ideias e conceitos soam surpreendentemente familiares a qualquer leitor de teoria da mídia, e, sobretudo se lida ao lado dos livros que Flusser escreveu nos anos 1980, Comunicologia revela-se uma verdadeira obra do nosso tempo.

2. Poliglota, Flusser escrevia e autotraduzia a maioria de seus livros entre português, alemão, inglês e francês, usando a tradução como meio de obter novas perspectivas sobre a própria obra, e de Comunicologia redigiu três versões completas, em inglês, alemão e francês, no inverno de 1977-78 na França, pouco depois de retornar à Europa após trinta e dois anos no Brasil, tendo destinado o livro inicialmente à MIT Press, que publicara seu artigo sobre duas abordagens do fenômeno televisão, mas que o recusou em 1979, alegando que, apesar do interesse despertado pelos conceitos, problemas de estilo e de língua impediam a publicação, recusa contra a qual Flusser defendeu seu estilo em correspondência com os editores.

3. A terminologia empregada não coincide com a usada nos Estados Unidos, de modo que termos como discurso e símbolo precisariam ser explicados ou ajustados para o leitor americano, embora termos cunhados especificamente, como imaginação técnica, devam ser mantidos, assim como a abstenção deliberada de citar literatura e a apresentação das ideias como hipóteses e sugestões, e não como afirmações definitivas, que não devem ser muito manipuladas.

4. Em carta de 26 de abril de 1979, a defesa do manuscrito prossegue com novos argumentos.

5. O obstáculo à publicação do manuscrito, então intitulado Mutação nas relações humanas, reside mais no estilo do que na língua, pois o inglês, embora careça de polimento, já bastou para publicar diversos artigos, ao passo que o estilo diz respeito antes ao modo de pensar e de viver do que ao de falar e é incomum em todas as línguas utilizadas, inclusive no português e no alemão, valendo a Flusser o epíteto de pensador barroco numa enciclopédia brasileira, estilo que resulta tanto de uma inclinação natural quanto do esforço deliberado de acentuá-la.

6. Uma última nota da MIT, em outubro de 1979, relatou a dificuldade de obter pareceres suficientes sobre Comunicologia, e, malograda essa tentativa de publicação, Flusser simplesmente arquivou o livro.

7. A obra acabou sendo publicada postumamente em alemão por Stefan Bollmann, numa edição acrescida de ensaios avulsos sobre imagens técnicas escritos nos anos 1980, mas esta primeira edição inglesa busca restaurar o manuscrito original, seguindo o critério adotado na série de obras completas em português, sem acompanhar as decisões editoriais da edição alemã e honrando as intenções originais de Flusser para o projeto.

8. Hoje o mundo parece habituado ao estilo peculiar de Flusser e a obra já não exige as explicações necessárias nos anos 1970, mas convém examinar aspectos do desenvolvimento de sua teoria da comunicação e do surgimento dos conceitos de imagem técnica e imaginação técnica, a fim de contextualizar Comunicologia para o leitor contemporâneo.

9. Em 1974, ao viajar aos Estados Unidos para apresentar sua conferência sobre a televisão, Flusser conheceu artistas e intelectuais da cena nova-iorquina, entre os quais Nam June Paik, então diretor do Kitchen e dedicado à videoarte, que o impressionou fortemente e talvez tenha semeado os conceitos ainda não formulados de imagem técnica e imaginação técnica, ausentes também de sua obra publicada até então, embora ele já houvesse desenvolvido, nos anos 1960, um curso de teoria da comunicação para a Faculdade de Comunicação e Humanidades da Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo, e sua teoria do aparelho, explorada em O último juízo: gerações, de 1966, momento seminal de seu projeto filosófico que só se completaria com o surgimento daqueles conceitos em meados dos anos 1970.

10. O termo imaginação técnica provavelmente aparece pela primeira vez em 1976, numa proposta de conferência intitulada A irrupção do tecnoimaginário para a Escola Nacional de Belas-Artes de Dijon, proferida em Paris em 1977 e ampliada no mesmo ano num curso de teoria da comunicação na Escola Superior de Arte e Arquitetura de Marselha-Luminy, que por sua vez se converteu em Comunicologia, datação reforçada pelo fato de que, nas doze conferências sobre os fenômenos da comunicação proferidas na França em 1975, esses termos ainda não figuravam, de modo que ambos surgem por volta de 1976 como formulações complementares à teoria do aparelho, ainda que os fundamentos do livro remontem ao curso de teoria da comunicação na FAAP durante os anos mais duros da ditadura militar brasileira, como mostram trechos da autobiografia Bodenlos.

11. O programa da teoria da comunicação é aberto porque nem seu âmbito, nem seus métodos, nem a práxis de manipulação dos fenômenos são preestabelecidos, e tem como premissas que o âmbito seja um campo já pertencente a outras disciplinas estabelecidas, que os métodos sejam delas emprestados e que a práxis de manipulação seja original, de modo que a teoria se torne o metadiscurso de todas as formas de comunicação humana, tornando evidente sua estrutura para poder modificá-la, e o comunicólogo seja aquele que dispõe dos instrumentos fornecidos pela teoria para transformar a comunicação humana, programa concebido para a cátedra pretendida.

12. O âmbito do campo classifica-se em categorias como nervos, abrangendo comunicação auditiva, visual, tátil e olfativa, estudadas pela fisiologia e pelo behaviorismo, função, abrangendo comunicação de massa, de elite e em circuito fechado, estudadas pela sociologia e pela psicologia social, dinâmica, abrangendo discurso, diálogo, irradiação, árvore e elipse, estudadas pela cibernética e pela teoria dos jogos, símbolo, abrangendo comunicação denotativa, conotativa, imaginativa e conceitual, estudadas pela crítica literária e pela estética, informação, abrangendo comunicação original, banal e kitsch, estudada pela teoria da informação, mensagem, abrangendo comunicação imperativa, indicativa, exclamativa e interrogativa, estudada pela análise lógica, canais, abrangendo comunicação unidimensional, multidimensional, diacrônica e sincrônica, estudados pela psicologia da Gestalt, e social, abrangendo comunicação de trabalho, consumo e entretenimento, estudada pela economia e pela sociologia, entre outras.

13. Essa descrição constitui o embrião da comunicologia plenamente desenvolvida de Flusser, termo cunhado para distinguir sua teoria da disciplina geral da teoria da mídia de então.

14. Embora Flusser seja geralmente chamado de teórico da mídia, a teoria da mídia convencional concentra-se na transmissão, nos canais e redes que difundem informação, como exprime a fórmula de McLuhan de que o meio é a mensagem, ao passo que sua teoria ultrapassa a transmissão e inclui na crítica a produção e o armazenamento da informação, abrangendo cultura, memória e transmissão, isto é, produção, armazenamento e distribuição, como afirma a sinopse de Comunicologia.

15. A ênfase na transmissão, naquilo que se convencionou chamar mídia, é lamentável porque encobre o aspecto essencial da comunicação, que é transformar os humanos em acumuladores de informação adquirida.

16. A tríade de produção, armazenamento e distribuição é central em toda a obra posterior a Comunicologia, explorada sob vários ângulos nos trabalhos dos anos 1980 geralmente chamados de teoria da mídia, como Pós-história, de 1979, Vampyroteuthis infernalis, de 1981, Filosofia da caixa preta, de 1982, O universo das imagens técnicas, de 1983, e A escrita: há futuro para a escrita?, de 1987, todos ampliações da teoria do aparelho.

17. Estabelecer esses vínculos entre as obras de Flusser serve para desfazer a visão equivocada de que suas ideias surgem do nada, que lhe vale o rótulo de visionário e acaba por desvalorizar seu trabalho de filósofo, quando na verdade se trata de um pensador holístico, rigoroso e metódico, cuja aparente descontinuidade se deve à maneira errática como seus livros foram publicados em vida e postumamente, enquanto o percurso de seus escritos inéditos revela consistência e continuidade sem rupturas, num desenvolvimento gradual em que as ideias se expandem, crescem e se transformam, razão pela qual importa referir o ano de redação de cada texto, e não o de sua publicação, que raramente coincidem.

18. A produção de Flusser foi contínua, com um manuscrito a cada inverno, fosse como monografia, fosse como resultado de uma série de conferências, de modo que, após Comunicologia, ele passou a planejar as conferências que dariam origem a Pós-história, publicado pela primeira vez no Brasil em 1983, e, quando um livro era recusado, outro já estava em andamento, e o manuscrito rejeitado era simplesmente arquivado à medida que seu pensamento avançava.

19. Foi o que ocorreu, por exemplo, com O último juízo: gerações, abandonado pelos editores brasileiros em 1968 e arquivado até 2017, peculiaridade da obra flusseriana que precisa ser compreendida para desfazer a imagem de uma escrita errática, sendo provável que, se todos os seus livros tivessem sido publicados logo após a redação, Flusser fosse hoje um autor muito mais lido.

20. O trabalho de edição e tradução da obra de Flusser busca situá-la numa linha cronológica correta de produção para que seja estudada segundo sua lógica interna de desenvolvimento, e com esse propósito a lista bibliográfica do projeto online monoskop.org foi organizada de acordo com essa cronologia, recurso útil a quem queira ler Flusser cronologicamente e prosseguir no estudo de seu pensamento.

21. Diante de tudo o que ocorreu tecnologicamente nas últimas décadas, o fato de expressões como diálogo em rede, aparelho totalitário e sincronização entre discurso de elite e diálogo em rede já não soarem estranhas atesta o caráter antecipador da crítica flusseriana aos sistemas de comunicação humana e a seus efeitos sobre a situação sociopolítica, e, em última instância, o frescor e a contemporaneidade de Comunicologia.

22. A publicação desta obra contou com o apoio de Soraya Guimarães Hoepfner, Márcia Cavalcante e Michael Marder, que incentivaram o projeto e estabeleceram a ponte com Erica Wetter, da Stanford University Press, de Miguel Flusser, pelo apoio contínuo e pelas longas conversas excentricamente desafiadoras que oferecem indiretamente uma compreensão valiosa da mente de seu pai, do gato Federico, pela companhia incansável durante o duro período da covid-19, e de Erica Wetter e da equipe da SUP, por todo o apoio e pela confiança no potencial da obra de Flusser.

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