estudos:fabris:2009:tecnica
Técnica
FABRIS, Adriano; CIMINO, Antonio. Heidegger. Roma: Carocci, 2009.
A questão da técnica
-
1. A questão da técnica constitui um dos temas sobre os quais se concentra particularmente a atenção heideggeriana a partir do segundo pós-guerra, tendo suscitado, apesar da originalidade e profundidade da análise, alguns mal-entendidos, sobretudo a impressão de que Heidegger enxergaria na técnica fenômeno negativo e de que sua análise estaria condicionada por atitude conservadora, senão mesmo antitécnica, impondo-se assim fornecer elementos para a adequada compreensão dessa peculiar perspectiva.
-
2. A abordagem heideggeriana da técnica situa-se, com forte coerência de fundo, no interior das coordenadas do pensamento do evento (Ereignis), recusando-se conscientemente a reduzir a reflexão a diagnóstico genérico da contemporaneidade ou a profecia sobre o destino último das sociedades pós-industriais, e igualmente afastando-se de mera descrição ou crônica dos inúmeros fenômenos remissíveis à técnica moderna, interessando antes trazer à luz a essência da técnica, mostrando-a remissível a dinâmica mais profunda, aquela que caracteriza o dar-se histórico-epocal do ser, importando assim, antes de qualquer avaliação apressada do fenômeno ou de suas consequências práticas ou éticas, sua adequada colocação, isto é, o contexto, o lugar, em que ela se constitui em sua essência.
-
3. Sob essa perspectiva, revela-se substancialmente superficial a determinação antropológica e instrumental (anthropologisch-instrumentelle Bestimmung) da técnica, aquela que a reduz a meio em vista de um fim ou a resultado do agir humano, interpretação que vê na técnica o complexo de fenômenos dados na manipulação, produção e uso de máquinas ou instrumentos pelo próprio homem, representação que Heidegger não pretende contestar, por evidente a todos, mas à qual nega a capacidade de identificar as razões mais profundas de tais fenômenos, por permanecer em perspectiva parcial.
-
4. Os limites dessa representação esclarecem-se recorrendo à distinção entre verdade como correspondência (correção) e verdade como desvelamento (Unverborgenheit), sendo a representação antropológica e instrumental da técnica sem dúvida verdadeira, no sentido de reportar corretamente suas manifestações mais superficiais, mas incapaz de alcançar o nível da verdade como desvelamento, a partir do qual se chega a compreensão mais radical, e menos óbvia, da essência desse fenômeno, sendo esse justamente o caminho trilhado ao interpretar a técnica à luz do evento.
-
5. O problema da técnica conecta-se à questão da verdade a partir de intuições extraídas do pensamento grego, particularmente da filosofia prática de Aristóteles, assumindo a técnica — ou melhor, a téchne — valência bem mais ampla do que teria se entendida como mero instrumento ou complexo de fatores determinantes da sociedade moderna, envolvendo a téchne não apenas o fazer artesanal e manipulativo, mas também as belas-artes, quase se sobrepondo, em sentido grego, à própria ciência, apresentando-se como atitude ou forma de vida estruturada segundo determinado saber, podendo dizer-se, na terminologia da analítica do ser-aí, que a téchne constitui uma possibilidade da existência humana, entrando em jogo a verdade na medida em que essa forma de vida remete a experiência do ente que pressupõe específico desvelamento do ser.
-
6. O nexo com a verdade não vale apenas para a téchne grega, reapresentando-se de modo novo e substancial também para a técnica moderna, igualmente modo específico de desvelar ou interpretar, ainda que assumindo contornos bem distintos das formas de vida prático-poiéticas da antiguidade, evidenciando-se como aspecto fundamental dessa interpretação a consideração da natureza como jazida de energia (Energiequelle) a extrair, armazenar e explorar, envolvendo todo elemento presente no globo, do vento à água, até o próprio homem, reconduzindo-se os diversos comportamentos que partilham essa interpretação a um fundamental: o do pôr (stellen), pelo qual tudo é posto e organizado num quadro de relações funcionais voltadas à exploração dos recursos disponibilizados pela natureza.
-
7. Refinando a chave de leitura da técnica moderna à luz da verdade, elabora-se o conceito de disponibilidade ou fundo de reserva (Bestand), correlato do pôr técnico, isto é, modo pelo qual o pôr experimenta aquilo que recai em seu horizonte de ação, sendo possível, a partir desse conceito, evidenciar a originalidade da interpretação heideggeriana da técnica, precisamente o ponto em que a questão é recolocada à luz das coordenadas do pensamento do evento.
-
8. Colocada a questão decisiva de se o pôr, atitude própria da era da técnica, e o correspondente modo de apresentar-se (ou desvelar-se) dos entes como disponibilidade, representariam mera criação humana, ou modo pervasivo mas afinal subjetivo de experimentar a natureza e o mundo circundante, a resposta é decisivamente negativa, porquanto a dinâmica da verdade não é propriedade do homem, isto é, não é este quem a põe ou decide, valendo isso também para os diversos modos como a verdade historicamente se deu, inclusive seu modo técnico de dar-se, não sendo o desvelar-se como disponibilidade fruto de ação ou decisão humana, mas remissível ao movimento que caracteriza a verdade no acontecer histórico-epocal do evento.
-
9. Radicaliza-se, assim, o alcance alético ou veritativo da questão da técnica, na medida em que esta é relida à luz da determinação grega — a téchne como desvelar — e reconduzida à dinâmica mais profunda da própria verdade, o evento de apropriação (Ereignis) entre ser e homem, recusando-se por isso a caracterização antropológica ou instrumental da técnica, que a reduz a mero resultado do agir e decidir humanos, entrevendo-se antes, em sua essência, elemento que se subtrai inteiramente ao homem e que se rastreia no desvelamento daquilo que é experimentado tecnicamente, elemento para o qual se cunha o conceito de Ge-stell (impositura, armação), designando a estrutura de fundo subjacente aos fenômenos remissíveis ao pôr técnico e denotando o modo específico pelo qual o ser-evento acontece, ou se dá, na era da técnica.
estudos/fabris/2009/tecnica.txt · Last modified: by 127.0.0.1
