estudos:fabris:2009:ontologia
Ontologia
FABRIS, Adriano; CIMINO, Antonio. Heidegger. Roma: Carocci, 2009.
Fenomenologia e ontologia
-
1. O envio do chamado Natorp-Bericht produz o efeito desejado, sendo Heidegger nomeado, por intercessão de Paul Natorp, professor na Universidade de Marburg, onde inicia a docência a partir do semestre de inverno de 1923-24 e permanece até 1928, período que ele próprio considera o mais fecundo de sua vida, preferindo, entre os colegas de Marburg, o diálogo com o teólogo Rudolf Bultmann e a atividade docente propriamente dita.
-
2. Nesse período, paralelamente à intensa atividade didática, redige-se e publica-se Ser e Tempo, projeto filosófico decisivamente orientado à elaboração de uma ontologia entendida não como disciplina setorial dependente da fenomenologia, como pretendia Husserl, mas como ciência fundamental relativa a tudo aquilo de que se pode dizer que é, devendo tal projeto realizar-se mediante abordagem fenomenológica declinada em forma hermenêutica.
-
3. Amadurece nesse período distanciamento explícito da doutrina fenomenológica do mestre, expresso claramente nos cursos de Marburg, definindo-se a questão decisiva: a relação, em plano ontológico, entre o ser daquele que investiga o problema do ser e o modo pelo qual esse problema se configurou historicamente, isto é, o vínculo entre o eu sou de quem realiza a experiência filosófica e o ser é nos diferentes modos em que se manifesta.
-
Trata-se da relação entre o homem, único ente que emprega no discurso o verbo ser, e este mesmo verbo, permanecendo a oscilação heideggeriana quanto à chave de acesso adequada para tratá-la uma constante de todo o pensamento.
-
4. Nos primeiros cursos de Friburgo o acento recai sobre o modo como o homem realiza o próprio ser no contexto histórico em que vive, emergindo, com o estudo de Aristóteles, a exigência ulterior de investigação sobre o ser em geral, elaborando-se doutrina geral do ser dentro de tratamento sistemático, intenção que anima os cursos de Marburg e o projeto conjunto de Ser e Tempo.
-
5. Pode-se chamar temático, em certa medida direto, o atitude heideggeriana perante o problema do ser, atitude construtiva que visa tematizar o ser em geral apoiando-se no modo como cada homem compreende e vive o próprio ser, denominado ser-aí (Dasein) o ente que somos e que é capaz de relacionar-se com essa dimensão ontológica mais geral.
-
6. Ao lado dessa impostação subsiste outro enfoque, indireto ou oblíquo, animado pela intenção de apreender o ser em geral a partir do modo como o tema foi implícita ou explicitamente discutido por outros autores, enfoque predominantemente crítico mediante o qual se examinam os pressupostos ontológicos de escolhas teóricas passadas e se evidencia sua inadequação, retomando-se e teorizando-se o projeto de destruição da história da ontologia (Destruktion der Geschichte der Ontologie).
-
7. Atitude construtiva e enfoque destrutivo caracterizam o método heideggeriano na trata da problemática ontológica, distinguindo-se em Marburg dois tipos de curso ou duas modalidades de investigação num mesmo curso — os voltados a desenvolver a questão do ser em geral mediante análise do eu sou concreto, e os caracterizados por reconstrução histórica de corte crítico —, dupla impostação que deveria caracterizar também Ser e Tempo, conforme índice do § 8, projeto que, como se verá, não encontrará realização completa.
-
8. Sintetizam-se três direções da pesquisa heideggeriana nesse período: o afastamento definitivo da fenomenologia husserliana; a intenção de tratamento sistemático do problema do ser em geral segundo o fio condutor da interpretação do ser-aí; e o reforço da exigência de confronto com a história da filosofia, repensada como história em que se enfrenta, implícita ou explicitamente, a problemática ontológica.
O confronto com a história da ontologia nos cursos de Marburg
-
1. Chamado a Marburg como estudioso de Aristóteles, Heidegger dedica a este autor seus primeiros cursos, inserindo-o como interlocutor privilegiado tanto da atividade de corte histórico-filosófico quanto da de caráter mais explicitamente teórico, andando sempre juntos, em seu método, confronto crítico com o passado e desenvolvimento autônomo do problema do ser, destruição e construção.
-
2. Delineia-se claramente o método seguido no confronto com a tradição, presente nos cursos sobre Aristóteles, nas lições sobre o Sofista de Platão, sobre a ontologia medieval e Tomás de Aquino, e sobre as origens da filosofia moderna com Descartes, configurando-se o projeto de destruição da história da ontologia como confronto crítico com filósofos considerados particularmente significativos, cujo objetivo não é destrutivo em sentido comum, mas visa evidenciar o pressuposto, a concepção do ser, que orienta a interpretação do mundo proposta por esses autores.
-
3. Aristóteles é aquele que fornece leitura particular da relação entre ser e tempo — vinculando o ser ao estar em presença — e que, sobre essa base, modela também lógica, entendida como teoria da enunciação do que está presente, e ética, concebida como descrição das formas de vida e indicação de como praticar establemente vida boa, sendo também o autor que evidencia o caráter performativo do ser humano e conserva a concepção grega originária da verdade como desvelamento.
-
4. A crítica heideggeriana dirige-se a todos os filósofos que identificaram na estaticidade e estabilidade do ser a condição de imagem eterna do cosmo e, em relação a ela, perspectiva de salvação para o homem, funcional à qual está ética que ancora o agir humano, caracterizado por historicidade e contingência, em dimensão supra-histórica, como mostra a doutrina cristã enxertada, no processo de helenização, em determinada interpretação do platonismo.
-
5. A investigação aristotélica sobre o logos transforma-se de prática de relação em teoria, privilegiando o logos apophantikós, a asserção sobre um estado de coisas capaz de corresponder a ele, associando-se a esse tipo de discurso ideia precisa de verdadeiro como correspondência a algo estável, dado, formulada por Tomás de Aquino na conhecida fórmula veritas est adaequatio intellectus et rei.
-
6. A interpretação heideggeriana ressalta outra valência do logos apophantikós, aquela pela qual o discurso tem a função não de registrar o dado, mas de fazer emergir o que pode se manifestar, podendo-se rastrear, no próprio termo grego alétheia, significado diverso do consolidado na tradição, indicando originariamente ato: o manifestar-se, o retirar-se do ocultamento e o aparecer no desvelamento.
-
7. Tal interpretação revela-se produtiva para aprofundamento ontológico da noção de fenômeno e elaboração de perspectiva filosófica original, permitindo repensar tanto a lógica quanto o próprio conceito de ser, configurado, desvinculado da leitura estática predominante na tradição ocidental, como elemento de manifestatividade de tudo o que é e como fenômeno primário.
-
8. Explica-se assim o interesse heideggeriano pelo pensamento medieval, sobretudo por Francisco Suárez, mantendo-se dupla atitude interpretativa, crítica e revalorizadora, e voltando-se, como fonte de inspiração privilegiada, à tradição mística, particularmente a Mestre Eckhart, estendendo-se paralelo interesse a Descartes, Leibniz e sobretudo Kant, evidenciando-se a continuidade do suposto novo início do pensar moderno em relação às problemáticas ontológicas do medievo tardio.
-
9. A verificação dessa hipótese ocorre na leitura kantiana e no confronto, à maneira de acerto de contas definitivo, com Husserl, interpretando-se o pensamento kantiano em termos ontológicos e não como doutrina do conhecimento, evidenciando-se a tese de que o ser é posição, e considerando-se Kant expoente ante litteram de verdadeira metafísica da finitude.
-
10. Quanto a Husserl, a fenomenologia caracteriza-se não como modo mais fundamental de entender a pesquisa filosófica, mas, quando muito, como método da ontologia, não tendo mais a tarefa de interrogar sobre o que é algo, mas sobre o como ele é, permanecendo Husserl, na perspectiva heideggeriana, prisioneiro da ontologia da presença.
-
11. Deve o ser, enquanto manifestar-se dinâmico e condição de toda possível manifestação, permanecer distinto do ente, do dado, configurando-se a diferença ontológica (ontologische Differenz), impondo-se tematizar diretamente o movimento próprio do ser, aprofundando a conexão entre movimento e tempo já indicada por Aristóteles na Física, embora presa a abordagem quantitativa, retomada de modo diverso por Bergson.
-
12. Ajuda decisiva vem da leitura, em 1923, da correspondência entre Wilhelm Dilthey e o conde Yorck von Wartenburg, comentada no § 77 de Ser e Tempo, oferecendo Dilthey não instrumentos para hermenêutica da faticidade, mas a evidenciação do caráter intrinsecamente histórico da vida humana, permitindo libertar-se de concepção da história como contexto e fixar a estrutura temporal própria de tudo o que é.
-
13. Mantém-se também frente a Dilthey atitude ambígua, contaminando-o com pressupostos da tradição cristã, cuja teologia teria feito radical experiência da temporalidade da existência humana e de sua finitude constitutiva, ainda que pensada no horizonte de relação com dimensão estável e eterna, oferecendo ocasião preciosa para aprofundar tanto a temporalidade da existência crente quanto a do próprio ser como evento de revelação.
-
14. Em julho de 1924, na conferência O conceito de tempo perante os teólogos de Marburg, confrontam-se as concepções de Aristóteles e Agostinho, esboçando-se primeira análise da temporalidade própria do ser do homem, ponta de iceberg de pesquisas que confluiriam num livro projetado, jamais publicado, sendo as partes de análise da existência retomadas nas lições do semestre de verão de 1925.
-
15. Tornando-se urgente publicar para concorrer à cátedra deixada por Nicolai Hartmann, os temas principais — retomada do problema do ser, análise do homem enquanto único ente capaz de dizer eu sou, aprofundamento temporal da problemática ontológica, repensamento radical da fenomenologia e da hermenêutica — encontram-se já delineados e articulados sistematicamente, amadurecendo a redação de Ser e Tempo a partir de março de 1926.
O pano de fundo da investigação de Ser e Tempo
-
1. Publicada em 1927, a obra mais conhecida caracteriza-se por dois aspectos: tentativa sistemática de elaboração da problemática ontológica e caráter inacabado em relação ao projeto inicial.
-
2. O ente que somos, o ser-aí, só pode relacionar-se com tudo o que é porque tal relação já se encontra mediada por determinada compreensão do ser, substituindo-se na hermenêutica heideggeriana o modelo diádico entre conhecente e conhecido por relação a três termos em que o ser constitui a condição de possibilidade da compreensão de todo ente.
-
3. Identificam-se quatro sentidos de ser que orientam outros tantos tipos de relação: a disponibilidade (Zuhandenheit) dos utensílios manuseáveis; a simples presença (Vorhandenheit) dos objetos de consideração teórica; a vida (Leben) dos seres viventes; e a existência (Existenz) na relação do ser-aí consigo mesmo.
-
4. Para além da análise da compreensão dos entes pelo ser-aí, pretende-se tematizar o próprio ser como tal, complicando-se o modelo a três termos com um quarto termo capaz de configurar o sentido daquilo que possibilita toda relação: o tempo, senso absoluto do ser, condição de sua compreensibilidade e elemento que exprime sua dinamicidade, sendo o ser temporal, isto é, devir, contrariando toda tradição que, desde Parmênides, o pensou em termos de estabilidade.
-
5. Segundo o esquema do § 8, a obra deveria compreender duas partes de três seções cada, dedicando-se a primeira à análise do ser-aí (preparatória e depois na temporalidade constitutiva) e a uma terceira seção projetada, Tempo e ser, e a segunda a confronto destrutivo com Kant, Descartes e Aristóteles quanto ao tempo, mas a obra publicada interrompe-se na segunda seção da primeira parte, permanecendo apenas posta, não desenvolvida, a questão da relação entre tempo e ser em geral, confirmando seu caráter de obra inacabada e aberta.
Ser e Tempo: a análise da existência do ser-aí e a evidenciação da temporalidade da existência
-
1. As duas seções publicadas dedicam-se, respectivamente, à análise fundamental do ser-aí em seu momento preparatório e ao nexo entre ser-aí e temporalidade, articulando-se a primeira em seis capítulos que delimitam a analítica existencial, evidenciam a estrutura do ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), distinguem os momentos do mundo em sua mundidade (Weltlichkeit), analisam o ser-com (Mitsein) e o ser-si-mesmo (Selbstsein), aprofundam o ser-em (In-sein) como tal e indicam, provisoriamente, o ser articulado do ser-aí.
-
2. Três noções desempenham papel decisivo: o ser-no-mundo, fenômeno unitário em que o mundo constitui contexto significativo, não uma coisa entre coisas, mas dimensão de sentido que orienta o agir, culminando toda cadeia de remissões — do martelo ao martelar, do martelar ao prego, do prego ao quadro — no ser-aí que efetivamente habita.
-
3. O ser-em não deve ser entendido espacialmente, mas em analogia com a experiência do habitar (ethos), compreendendo-se o contexto a partir de pressupostos que orientam a interpretação e o comportamento, articulados discursivamente, sempre emocionalmente situados pela disposição afetiva (Befindlichkeit), a par da compreensão (Verstehen) e do discurso (Rede).
-
4. A definição do ser desse ente expressa-se pela noção de cuidado (Sorge), abrangendo ocupação e preocupação, cuidar de algo (Besorgen) e cuidar de alguém (Fürsorge), consistindo em ser-adiante-de-si-já-em-um-mundo-enquanto-ser-junto-a entes intramundanos, indicando o ser-aí sempre projetado a possibilidades e sempre já lançado (geworfen) num mundo.
-
5. A segunda seção enfrenta se a interpretação existencial conduzida é de fato radical e originária, exigindo colocar em evidência o novo sentido de totalidade ou inteireza próprio do ser-aí mediante a análise do ser-para-a-morte (Sein zum Tode), individuar a forma da apropriação mais própria do ser mediante a voz da consciência e a resolução (Entschlossenheit), interpretar temporalmente as estruturas do cuidado, confirmar o horizonte temporal frente às estruturas existenciais e aprofundar o vínculo entre temporalidade e historicidade.
-
6. A morte é pensada não como fato, mas como possibilidade mais própria do ser, não conclusão de um percurso, mas possibilidade iminente que se pode ou não assumir, falando-se de precorrimento (Vorlaufen) da morte, mediante o qual o ser-aí inscreve todo seu ser-no-mundo em dimensão geral de finitude, experimentando-se como possibilidade de ser um todo.
-
7. Para tanto, exige-se escolha determinante, a resolução, configurando aspecto eticamente relevante de Ser e Tempo não por descrever conteúdos do agir, mas por indicar o comportamento próprio, autêntico, adequado, em contraste com os modos impróprios em que o ser-aí se interpreta a partir do que se diz e se faz, tratando-se de ética performativa em sentido distinto do da teoria analítica da linguagem.
-
8. O §65 mostra que a temporalidade (Zeitlichkeit) constitui o sentido do ser do ser-aí, exigindo libertar-se da concepção quotidiana e cronológica do tempo, evidenciando-se o primado do porvir (Zukunft), no qual se funda o deixar-vir-a-si próprio da resolução e do precorrimento da morte, do ser-já-sido (Gewesenheit), que dá sentido ao ser-lançado, e do presentificar (Gegenwärtigen), que possibilita o ser-junto aos entes intramundanos em sua presença (Anwesenheit).
-
O tempo originário configura-se assim como temporalização (Zeitigung) da temporalidade, que não é, mas se temporaliza (sich zeitigt).
-
9. Permanece incompleta a promessa do título da primeira parte, restando determinar o sentido temporal não apenas da existência, mas do ser em geral e dos demais modos de ser — disponibilidade, simples presença, vida — não tratados na obra publicada, confirmando-se seu caráter de obra aberta.
A relação entre tempo e ser
-
1. O curso Os problemas fundamentais da fenomenologia, do semestre de verão de 1927, definido como nova elaboração da terceira seção não publicada da primeira parte de Ser e Tempo, oferece, em sua primeira parte, discussão fenomenológico-crítica de teses tradicionais sobre o ser em confronto com Kant, o pensamento medieval, Descartes, Aristóteles e teorias lógicas modernas, mostrando como se desenvolveria a destruição da história da ontologia projetada para a segunda parte inacabada da obra maior.
-
2. O curso aborda o tema da Temporalidade do ser (Temporalität, distinta de Zeitlichkeit, temporalidade existencial), mas apenas quanto ao vir-à-presença dos entes disponíveis e simplesmente subsistentes, interrompendo-se antes de tratar os demais aspectos vinculados a passado ou futuro essenciais e o tempo próprio dos seres viventes.
-
3. Fala-se de êxtases (Ekstasen) temporais para indicar a estrutura dinamicamente aberta da temporalidade existencial, orientação denominada, com termo kantiano, esquema, ao qual corresponde um vir-ao-encontro do próprio ser, também temporalmente caracterizado, não mais como Zeitlichkeit, mas como Temporalität, articulada nos diferentes modos em que o ser se diz, analisando-se aqui apenas a dimensão da presença (Präsenz).
-
4. A presença, enquanto horizonte temporal parcial do ser dos entes que vêm ao encontro do projeto do ser-aí, constitui ulterior interpretação da verdade como desvelamento, denominando-se diferença ontológica (ontologische Differenz) a separação entre ser e entes.
-
5. Ressalta-se o multiplicar-se dos níveis de investigação, possibilitado pelo caráter aberto e transcendente não só do ser-aí, mas do próprio ser, radicando-se a transcendência na temporalidade e, portanto, na Temporalidade do ser, sendo o tempo o horizonte primário da ontologia, o horizonte transcendental, tornando-se a filosofia, em sentido corretamente entendido, filosofia transcendental.
-
6. Configura-se assim ampliação, ou antes ressemantização, da noção tradicional de metafísica, devendo esta abranger não apenas o ser do ser-aí, ente metafísico por excelência, mas também e sobretudo o ser como tal em sua diferença de todo ente, e estender-se à dimensão temporal, conduzindo, nas lições do semestre de verão de 1928, Princípios metafísicos da lógica a partir de Leibniz, último curso em Marburg, à introdução da expressão meta-ontologia, para distinguir a própria filosofia das ontologias do passado.
-
7. Conclui-se que o inacabamento de Ser e Tempo corresponde ao inacabamento de seu próprio objeto — o ser como tal —, impossível de ser propriamente definido em razão de sua estrutura dinâmica e temporal, exigindo-se outros caminhos e perspectivas para aproximar-se de fenômeno que, enquanto tal, não pode ser determinado.
-
estudos/fabris/2009/ontologia.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
