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SER
DERRIDA, Jacques. Heidegger–la question de l’être et l’histoire: cours de l’ENS-Ulm, 1964-1965. Paris: Éditions Galilée, 2013.
A Questão do Ser e a História
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O título do curso é “A Questão do Ser” e não “Ontologia” porque a palavra ontologia se revela cada vez mais inadequada para designar o que está em jogo na obra de Heidegger, na medida em que o projeto heideggeriano não é a fundação de nenhuma ontologia, mas antes uma Destruição (Destruktion) da história da ontologia.
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A tarefa central é a destruição do conteúdo tradicional da ontologia antiga, tomando a questão do ser como fio condutor, a partir das experiências originárias nas quais as primeiras determinações do ser foram obtidas.
A Destruição não significa aniquilação, rejeição nem crítica ou refutação no sentido corrente, e tampouco implica que os pensadores da tradição cometeram erros a serem corrigidos, pois o que superficialmente parece erro ou esquecimento do ser tem sua base numa errância necessária ao próprio pensamento do ser.O conceito de refutação pertence implicitamente a uma metafísica anti-histórica da verdade, segundo a qual a verdade pode ser estabelecida de uma vez por todas como objeto, restando à história apenas o erro, o afastamento em relação a essa verdade a-histórica.Hegel meditou profundamente sobre a dificuldade da refutação (Widerlegung) na filosofia, sendo levado a isso por seu conceito plenamente histórico da verdade, e nas Lições sobre a História da Filosofia afirma que filosofia e história da filosofia são imagens especulares uma da outra.Como para Hegel a filosofia é em sentido profundo uma lógica, ele não pode abandonar simplesmente a noção de refutação e acaba por estendê-la até fazê-la significar o momento da negatividade em geral, que é essencial à produção histórica.-
Segundo as Lições, o conteúdo dos princípios filosóficos não é refutado, mas apenas seu estatuto de etapa mais elevada e definitiva, pois o que se rebaixa a um papel subordinado permanece como elemento necessário para o estágio seguinte.
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O exemplo natural da árvore – em que a flor é refutação das folhas e o fruto é refutação da flor – vale apenas por analogia, pois na natureza os estágios ocorrem separadamente, ao passo que no espírito a refutação é conservada em presença, naquilo que se pode chamar de sedimentação.
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A filosofia mais recente deve ser a mais elevada, contendo em si todos os princípios filosóficos anteriores, e a refutação é apenas o lado negativo desse processo, enquanto a justificação – reconhecer o lado afirmativo de uma determinação – é o que verdadeiramente funda.
A “última filosofia” em sentido hegeliano autêntico não é a mais recente em data, mas a que compreende em si a totalidade de seu passado e busca incessantemente sua origem, sendo que a filosofia de Hegel foi a primeira a pensar como tal o ser-último da última filosofia.A lógica escatológica de Hegel é uma ontologia, e Heidegger, em “A Sentença de Anaximandro” (Holzwege, 1946), escreve que o ser, como ser-destinal (geschicklich), é em si mesmo escatológico, devendo a escatologia do ser ser pensada a partir da história do ser.-
A Fenomenologia do Espírito representa apenas uma fase na escatologia do ser, na medida em que o ser se reúne, na extremidade de sua essência até então marcada pelo selo da metafísica, como subjetividade absoluta da vontade de vontade incondicionada.
Apesar do imenso progresso marcado pelo conceito hegeliano de refutação, resta uma diferença decisiva entre a relação hegeliana e a relação heideggeriana com a história da filosofia, diferença na qual se situa o problema central deste curso.A Destruição heideggeriana da história da ontologia não é uma refutação nem mesmo no sentido hegeliano, porque a filosofia hegeliana da refutação está ditada por uma lógica e uma filosofia da Ideia ou do Conceito que Heidegger vê como o último momento na história da ontologia – momento de síntese, mas ainda de dissimulação do ser sob o ente.-
Em Ser e Tempo, parágrafo 1, a Lógica de Hegel é invocada como último momento de uma tradição de ontologia clássica que remonta a Platão e Aristóteles, tradição que Hegel recompreende e sintetiza, mas sem dar o passo além dela que Heidegger quer dar.
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No parágrafo 6 de Ser e Tempo, Heidegger insiste no pertencimento do hegelianismo à tradição ontológica a ser destruída, afirmando que a ontologia oriunda da ontologia grega deteriorou-se numa tradição que a rebaixou ao nível do óbvio e a tornou mero material de reelaboração, como ocorreu em Hegel.
A diferença entre a refutação interiorizante hegeliana – refutação como Erinnerung – e a Destruição heideggeriana é tão próxima do nada quanto possível, sendo ambas não a crítica de algum erro nem a exclusão simplesmente negativa de um passado da filosofia, mas uma desconstrução, uma de-estruturação, o abalo necessário para fazer aparecer as estruturas, os estratos, o sistema de depósitos e sedimentações da tradição ontológica.No parágrafo 6 de Ser e Tempo, Heidegger previne contra uma má interpretação de seu projeto de Destruição, afirmando que ela nada tem a ver com um relativismo vicioso dos pontos de vista ontológicos nem com a demolição (Abschüttelung) da tradição, mas visa antes a delimitar as possibilidades positivas dessa tradição e seus limites.-
A Destruição não se relaciona de modo negativo com o passado; sua crítica concerne ao “hoje” e ao modo dominante de tratar a história da ontologia, seja como história de opiniões, ideias ou problemas, e tem uma intenção positiva, permanecendo sua função negativa tácita e indireta.
O título “A Questão do Ser e a História” – e não “Ontologia e História” – começa a ser justificado pelo que foi dito, mas essa justificativa é apenas inicial, pois a Destruição invocada é a da história da ontologia, não da ontologia ela mesma, e poder-se-ia supor que Heidegger quisesse fundar uma ontologia autêntica além da tradição.Não é esse o caso: a destruição da história da ontologia é uma destruição da própria ontologia em sua totalidade, embora em Ser e Tempo Heidegger ainda use o termo positivamente, querendo despertar uma ontologia fundamental adormecida sob a metafísica especial ou geral.Primeiro ponto de referência: a abertura de Ser e Tempo (1927). No parágrafo 3, Heidegger define a primazia da questão do sentido do ser em relação às disciplinas regionais, cada uma das quais pressupõe uma pré-compreensão do sentido do ser de seu objeto, pré-compreensão que deve ser trazida à luz do explícito.-
O movimento é análogo ao de Husserl, que também definiu a necessidade de fixar o sentido dos objetos correspondentes a cada ontologia regional ou material, com a diferença decisiva de que para Husserl os entes são objetos determinados por uma consciência transcendental, ao passo que para Heidegger o objeto em geral é apenas um tipo determinado de ente.
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A questão do sentido do ser em geral – que não é uma generalidade construída – é o que Ser e Tempo chama de ontologia fundamental, e toda ontologia, por mais rico que seja o sistema de categorias de que dispõe, permanece cega e perverte sua intenção mais íntima se não clarificou previamente o sentido do ser.
Segundo ponto de referência: a Einführung in die Metaphysik (1935). Nesse curso, considerado por Heidegger como complemento de Ser e Tempo, ele restringe a extensão da palavra ontologia à sua significação e uso de fato na tradição e propõe abandoná-la, pois dois modos de questionamento radicalmente diferentes não devem levar o mesmo nome.-
O conceito de ser como o conceito mais universal – aquele cujo alcance se estende a tudo, inclusive ao nada – leva à conclusão de que o ser é um derradeiro indeterminado e vazio, mas isso não alcança a essência do ser e o interpreta mal desde o início, tornando sem esperança o questionamento.
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A palavra “ontologia” foi cunhada no século XVII para designar o desenvolvimento da doutrina tradicional dos entes em disciplina filosófica e ramo do sistema filosófico, mas pode também ser tomada em sentido amplo como o esforço de colocar o ser em palavras – e é porque esses dois modos de questionamento são mundos à parte que se deve renunciar ao termo.
Terceiro ponto de referência: a conferência “A Palavra de Nietzsche: 'Deus está Morto'” (1943). Heidegger considera que o próprio conceito de ontologia só pode ser inadequado por razões de essência e não de fato, pois o termo concerne ao on – ao ente – e não ao einai, sendo a ontologia portanto solidária da metafísica.-
Mesmo Nietzsche, que quis demolir a metafísica clássica, permanece preso a uma metafísica do ser como valor – com o ser como essência na “vontade de poder” e como existência no “Eterno Retorno do Mesmo” – sem ter meditado sobre a origem da distinção entre essentia e existentia.
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Todo pensamento metafísico é onto-logia – escrito com hífen – ou não é nada, e Heidegger não se contentou com o projeto de “destruir” a história da ontologia; ele quis destruir a própria ontologia, que é uma com sua história.
O que vem de ser mostrado justifica a primeira parte do título do curso – “a questão do ser” e não “ontologia” – mas a justificativa é apenas inicial, pois da próxima vez será preciso falar de história, e antes do “e” que liga ser e história, esse “e” que constitui o próprio lugar do problema e sobre o qual ainda não está decidido se se deve escrever et ou est.estudos/derrida/ser/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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