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Analítica Existencial de Martin Heidegger
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A importância da analítica existencial de Martin Heidegger para a autocompreensão da psiquiatria
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A analítica existencial possui uma dupla relevância para a psiquiatria, pois, por um lado, fornece um novo fundamento material e metodológico à pesquisa psicopatológica empírica, superando seus limites tradicionais, e, por outro, permite à psiquiatria compreender a si mesma enquanto ciência, isto é, reconhecer as possibilidades e os limites do seu projeto científico de mundo enquanto horizonte transcendental de compreensão.
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Essa dupla relevância deriva principalmente de duas obras fundamentais de Martin Heidegger, a saber, Sein und Zeit (1927) e Vom Wesen des Grundes (1929), nas quais a questão do sentido do ser é recolocada a partir da análise concreta da presença como ser-no-mundo.
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O objetivo central de Sein und Zeit consiste em interpretar o tempo como horizonte de toda compreensão do ser, sendo que essa interpretação só se torna possível mediante a análise da presença humana em sua estrutura fundamental de transcendência.
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O significado metodológico da analítica existencial para a psiquiatria
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A analítica existencial oferece à psiquiatria um critério metodológico que permite descrever os fenômenos psicopatológicos em sua totalidade fenomenológica, sem reduzi-los previamente a teorias naturalistas, biológicas ou psicologizantes.
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A fenomenologia husserliana já havia ampliado decisivamente o campo da psicopatologia ao deslocar a análise do sujeito psicológico para a consciência intencional, porém permanecia ainda presa à esfera do eu transcendental.
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A contribuição decisiva de Heidegger consiste em reconduzir a intencionalidade à presença concreta como ser-no-mundo, mostrando que a intencionalidade se funda na transcendência temporal da existência humana.
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Somente a partir dessa recondução torna-se possível formular de modo rigoroso a questão do ser do ente que nós mesmos somos, superando a oposição abstrata entre sujeito e objeto.
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A autocompreensão da psiquiatria enquanto ciência
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Uma ciência não se compreende plenamente apenas pela delimitação do seu objeto, dos seus conceitos fundamentais e dos seus métodos, mas somente quando é capaz de prestar contas da interpretação do ser que está implícita nesses conceitos.
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Essa autocompreensão não pode ser alcançada por meios estritamente científicos, exigindo necessariamente o recurso à filosofia enquanto investigação do fundamento.
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A psiquiatria encontra-se estruturalmente ligada à filosofia na medida em que seus conceitos pressupõem sempre uma determinada compreensão do ser humano, ainda que essa compreensão permaneça implícita ou não tematizada.
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A analítica existencial possibilita à psiquiatria explicitar essa compreensão subjacente, revelando o caráter histórico, limitado e provisório dos seus projetos científicos de mundo.
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A duplicidade dos horizontes de compreensão na psiquiatria
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A psiquiatria clínica observa o homem mentalmente doente a partir do horizonte das ciências naturais, concebendo-o como organismo doente e privilegiando a causalidade biológica.
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A psiquiatria psicoterapêutica, por sua vez, observa o mesmo homem enquanto semelhante, isto é, enquanto parceiro de comunicação inserido numa comunidade humana.
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Esses dois horizontes de compreensão são inconciliáveis no interior da ciência e dão origem a controvérsias teóricas persistentes e à divisão interna da própria psiquiatria.
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O chamado problema psicofísico surge precisamente dessa duplicidade mal formulada, não sendo um problema do ser, mas um problema epistemológico insolúvel no plano teórico.
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A superação do problema psicofísico pela analítica existencial
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A analítica existencial mostra que o problema psicofísico nasce da cisão científica da totalidade da existência humana em esferas independentes, como corpo e mente.
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Ao reconduzir essas esferas à presença como ser-no-mundo, torna-se possível compreender tanto a potência quanto a impotência das concepções científicas da realidade.
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A presença humana é sempre corpórea, histórica e situada, sendo impossível compreendê-la adequadamente por meio da objetivação naturalista ou da subjetivação psicologizante.
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A psiquiatria pode, assim, reconhecer os limites internos de seus conceitos sem abandonar sua legitimidade científica.
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A presença como ser-getado e finito
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A analítica existencial revela que a presença humana é caracterizada fundamentalmente pelo ser-getado, isto é, pelo fato de existir sem ter escolhido o fundamento do seu próprio ser.
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Essa efetividade do ser-getado constitui o horizonte transcendental tanto das determinações biológicas quanto das formas psicopatológicas da existência.
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A impotência decorrente da facticidade não elimina a liberdade, mas a funda, delimitando as possibilidades efetivamente realizáveis do poder-ser.
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A finitude da presença manifesta-se, assim, como condição de possibilidade tanto da normalidade quanto da patologia.
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Temporalidade, existência e psicopatologia
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A estrutura temporal da presença, articulada nas dimensões do passado, do futuro e do presente, constitui o fundamento último da compreensão psicopatológica.
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As formas patológicas da existência correspondem a modalidades específicas de distorção dessa articulação temporal.
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A psiquiatria, ao projetar a presença exclusivamente no plano do presente objetivado, perde de vista o caráter temporal que torna possível a própria compreensão do adoecimento psíquico.
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A analítica existencial permite compreender a provisoriedade dos conceitos psiquiátricos e a necessidade permanente de sua revisão crítica.
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Corpo, mente e koinonía
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A cisão entre corpo e mente não corresponde à realidade originária da existência humana, sendo apenas uma abstração metodológica.
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A noção de koinonía designa a unidade dinâmica das possibilidades de ser da presença, na qual corpo e mente se pertencem mutuamente.
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As doenças mentais e as neuroses devem ser compreendidas como perturbações dessa unidade, e não como disfunções isoladas de uma esfera particular.
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A melancolia, por exemplo, manifesta-se simultaneamente como distúrbio corporal e como forma existencial de culpa amplificada, revelando a totalidade afetada da presença.
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Psicoterapia e apropriação da existência
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A psicoterapia tem como tarefa fundamental ajudar o ser humano a apropriar-se da sua existência finita, reconhecendo seus limites e possibilidades.
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A neurose surge quando a presença se recusa a aceitar sua própria finitude, discordando das condições fundamentais da existência.
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A cura não consiste na eliminação técnica de sintomas, mas na restauração da unidade existencial da presença enquanto ser-no-mundo.
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A analítica existencial não prescreve métodos terapêuticos específicos, mas fornece o horizonte ontológico no qual a ação terapêutica pode adquirir sentido.
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A condição existencial do psiquiatra
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A condição do psiquiatra não se reduz à do clínico especializado, pois envolve necessariamente o encontro e a comunicação com o outro enquanto existência.
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O diagnóstico psiquiátrico funda-se menos na observação objetiva e mais no estar-com o paciente enquanto co-presença.
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A prática psiquiátrica implica uma dimensão ética e existencial que ultrapassa os limites da ciência empírica.
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A autêntica compreensão psiquiátrica exige que o próprio psiquiatra reconheça sua inserção existencial no horizonte da transcendência.
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Transcendência, ciência e limites do saber psiquiátrico
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A analítica existencial mostra que nenhuma ciência é capaz de apreender a totalidade do ser humano.
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Questões relativas à liberdade, ao tempo, à arte, à religião e ao sentido último da existência excedem o alcance da psiquiatria enquanto ciência.
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Reconhecer esses limites não empobrece a psiquiatria, mas a liberta de pretensões indevidas.
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A psiquiatria encontra seu progresso não na rigidez conceitual, mas na interação viva entre pesquisa empírica e reflexão transcendental.
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