estudos:cassin:gnomon
Gnômôn, metron, kanôn
CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014
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Campo lexical de gignôskô e a formação de uma semântica do discernimento
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O verbo gignôskô designa um processo ativo e esforçado de aprendizagem e reconhecimento.
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No aoristo, o verbo concentra-se no ato de discernir, reconhecer e compreender.
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A partir desse verbo forma-se uma constelação de substantivos que articulam conhecimento, julgamento e critério.
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Gnôsis refere-se à investigação e ao conhecimento enquanto processo e resultado.
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Gnômê designa inteligência prática, juízo, decisão e intenção, estendendo-se até máximas normativas.
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Gnôma indica um sinal de reconhecimento, isto é, um índice que permite identificar algo como tal.
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Essa família lexical articula desde o esforço cognitivo até a normatividade prática.
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Gnômôn como figura do discernimento e da regulação
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Como adjetivo, gnômôn qualifica aquele que discerne, compreende e julga corretamente.
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Como substantivo, gnômôn designa aquilo que regula, governa ou orienta.
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O termo aplica-se tanto a pessoas investidas de função normativa quanto a instrumentos técnicos.
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Os gnômones humanos exercem funções de vigilância e inspeção, inclusive em contextos sagrados.
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O deslocamento semântico mostra a passagem do julgamento intelectual à regulação objetiva.
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Gnômôn como instrumento de medida do tempo e do espaço
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O gnômôn designa a agulha e o mostrador do relógio solar.
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Refere-se também à clepsidra, instrumento de medição do tempo por meio da água.
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Pode indicar elementos espaciais como a aresta de uma floresta ou limites cortantes.
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A carpintaria fornece um uso central do gnômôn como esquadro.
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Esse instrumento permite aumentar uma figura sem alterar sua forma, segundo a leitura pitagórica e aristotélica.
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O gnômôn torna-se, assim, operador de crescimento ordenado e de identidade formal.
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Função matemática do gnômôn
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Na geometria euclidiana, o gnômôn é o paralelogramo complementar que completa outra figura.
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Na aritmética antiga, designa o fator ímpar que estrutura um número par.
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O gnômôn opera como mediador entre aritmética e geometria.
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Ele exemplifica a co-constituição dessas duas disciplinas na matemática antiga.
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O mesmo termo cobre operações abstratas e objetos concretos.
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Continuidade entre intelecto e instrumento
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O gnômôn liga as operações mentais aos meios materiais de inscrição no mundo.
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O mesmo termo nomeia o discernimento intelectual e os dentes usados para avaliar a idade de um animal.
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Essa continuidade revela uma concepção não dualista entre pensamento e técnica.
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O conhecimento manifesta-se como capacidade de medir, distinguir e ordenar.
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Metron como instrumento e como medida
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Metron designa tanto o instrumento de medição quanto o resultado medido.
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O termo pertence à mesma família semântica de mêtis, ligando medida e inteligência prática.
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Pode referir-se a bastões de agrimensura e a recipientes de medida.
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Designa também fatores numéricos em produtos aritméticos.
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Aplica-se a extensões espaciais e temporais, como mar, juventude e duração.
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No campo poético, metron designa o verso e a estrutura métrica.
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Metron como medida justa
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Metron não significa apenas quantidade, mas medida adequada.
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A noção de medida justa articula-se com kairos, o momento oportuno.
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Aristóteles afirma que toda realidade possui um metron próprio.
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O exemplo da cidade mostra que a medida justa é definida por uma função, não por abstração.
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Metron e metriotês vinculam-se ao meson e à mesotês, o meio exato.
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Essa estrutura fundamenta a definição ética da virtude como medida correta.
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Articulação entre matemática, ética e estética
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A noção de medida une matemática e moralidade.
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A poesia e a música operam como campos intermediários dessa articulação.
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O sistema métrico não é separado da ideia de justiça e moderação.
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A técnica de medir torna-se paradigma de avaliação ética.
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Essa ligação estrutura profundamente a cultura grega.
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Protagoras e a radicalização do metron
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A célebre fórmula segundo a qual o homem é a medida de todas as coisas desloca o metron para o humano.
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A afirmação inclui tanto o ser quanto o não-ser.
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Essa tese suscita reinterpretações violentas no interior da tradição filosófica.
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Para Platão, Deus ocupa o lugar da medida.
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Para Aristóteles, a medida é o homem bom, o spoudaios.
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O critério não é abstrato, mas encarnado em uma forma de vida.
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Kanôn como haste, régua e princípio
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Kanôn designa originariamente o talo de uma cana ou junco.
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Por extensão, refere-se a qualquer barra longa e reta de madeira.
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O termo aplica-se a objetos variados, desde partes de armas até instrumentos musicais.
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Na carpintaria, kanôn é a régua e a linha que orientam a construção.
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A partir daí, passa a significar regra, modelo e princípio.
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Kanôn como norma em diferentes domínios
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Na música, o kanôn funciona como instrumento de afinação.
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Na história, pode designar divisões de idade.
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Na gramática, indica regras e paradigmas de flexão verbal.
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Na escultura, o kanôn de Policleto fixa proporções ideais.
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Na filosofia epicurista, o kanonikon define os critérios do conhecimento.
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O termo fornece sempre uma regra operatória.
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Transmissão e institucionalização do kanôn
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O termo é incorporado ao latim administrativo para designar impostos.
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No vocabulário cristão, passa a significar regra e cânon.
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O deslocamento mantém a ideia central de normatividade.
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O kanôn preserva sua função de critério legitimador.
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Matemática e moral como núcleo da cultura grega
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A inscrição segundo a qual apenas geômetras podem entrar na Academia resume essa articulação.
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A matemática aparece como condição de acesso à verdade e à ética.
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A relação grega entre medida e virtude funda uma tradição duradoura.
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A síntese latina entre arquitetura e direito representa um desdobramento histórico dessa herança.
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