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Lichtung

CAPOBIANCO, Richard. Engaging Heidegger. Toronto: University of Toronto press, 2010.

1. mesmo diante de dúvidas, o poder iluminador das imagens, sua presença originária e inescapável, permanece intocado — epígrafe que introduz a riqueza filosófica e existencial da clareira (die Lichtung), noção atraente para leitores de diversas orientações, inclusive os que buscam construir pontes com o pensamento e a prática meditativa chinesa e japonesa, tendo o próprio Heidegger, ao final da vida, convidado explicitamente a tal esforço, sugerindo que a compreensão do caráter próprio da clareira poderia possibilitar um engajamento fecundo entre o pensamento europeu transformado e o “pensar” leste-asiático, e ajudar a salvar a essência (Wesen) do ser humano da ameaça de um cálculo e manipulação extremamente técnicos do Dasein humano.

2. antes de explorar essa possibilidade de transformação existencial inerente ao fenômeno da clareira, propõe-se maior clareza sobre a própria noção, notando-se que, embora Heidegger afirme, no prefácio de 1968, que o fenômeno fora nomeado pela primeira vez em Ser e Tempo e desde então repensado sempre de novo, isso apenas sugere a interessante história do desenvolvimento de seu pensamento sobre die Lichtung, propondo-se aqui esclarecer um aspecto fundamental e negligenciado: o desenvolvimento, do pensamento inicial ao tardio, quanto à metáfora primária transmitida pela própria palavra, percorrendo-se textualmente desde Ser e Tempo (1927) até os textos-chave dos anos 1960 — “O Fim da Filosofia e a Tarefa do Pensamento” (1964) e “Sobre a Questão da Determinação da Matéria para o Pensamento” (1965) —, além dos Seminários de Zollikon (1964) e do “Seminário sobre Heráclito” (1966-7) com Eugen Fink, constatando-se que, nos anos iniciais e intermediários, Heidegger elucidou die Lichtung em termos da metáfora da “iluminação”, que decisivamente abandonou na obra tardia dos anos 1960.

I. Apropriando a Metáfora Tradicional da Luz

3. surpreende constatar que a noção de die Lichtung não se torna tema central no pensamento heideggeriano senão tardiamente, intensificando-se sua tematização especificamente no período de aproximadamente 1963 a 1968, quando recebe lugar de destaque na conferência “O Fim da Filosofia e a Tarefa do Pensamento” (1963-4), no seminário de Zollikon de 6 de julho de 1964, na palestra “O Fim do Pensamento na Forma da Filosofia” (1965, posteriormente intitulada “Sobre a Questão da Determinação da Matéria para o Pensamento”), e no seminário sobre os fragmentos de Heráclito com Eugen Fink no semestre de inverno de 1966-7, período de cinco anos em que Heidegger elaborou e apresentou sua posição madura sobre o sentido e a significação de die Lichtung.

4. um dos traços fundamentais dessa posição madura dos anos 1960 — familiar à maioria dos leitores de Heidegger — é que die Lichtung, pensada metaforicamente como clareira espacial no bosque ou floresta, não deve ser enfaticamente definida em termos de lux, “luz” no sentido de “luminosidade” ou “claridade”, constatando-se, contudo, que não é assim que Heidegger pensava a questão inicialmente em Ser e Tempo.

5. na passagem crucial de Ser e Tempo, o discurso onticamente figurado sobre o lumen naturale no ser humano não significa senão a estrutura existencial-ontológica desse ente, que é no modo de ser seu Aí, sendo “iluminado” (erleuchtet) significando que está clareado (gelichtet) em si mesmo como ser-no-mundo, não por outro ente, mas de tal modo que ele mesmo é a clareira/iluminação — apenas para um ente assim existencialmente clareado torna-se acessível, à luz, o que está à mão, oculto na escuridão, trazendo o Dasein consigo seu Aí desde sempre, sendo o Dasein sua própria abertura.

  • Heidegger evoca aqui a compreensão metafísica tradicional do intelecto humano como “luz natural” (lumen naturale), metáfora com longa história no pensamento ocidental, remontando à imagem platônica do sol no mito da caverna do Livro VII da República, e retomada especificamente pela tradição cristã romanizada, dos Padres da Igreja (sobretudo Agostinho) a Tomás de Aquino e às Escolas posteriores.

6. a observação decisiva é que Heidegger não rejeita essa metáfora da luz ao elucidar a atividade do Dasein de desvelar entes e mundo, mas antes a assume como própria, não sendo sua queixa contra a caracterização figurada metafísica tradicional do intelecto humano como lumen sua imprecisão ou inadequação, mas apenas seu caráter ôntico, sendo possível compreender a mesma metáfora em termos da “estrutura existencial-ontológica” do Dasein, isto é, em termos da atividade constitutiva de desvelamento do Dasein como o “aí” ek-sistente e temporal-ek-stático — sendo, assim, o Dasein primordialmente essa atividade de desvelamento, e não um “algo” que possua essa faculdade, poder ou propriedade de desvelar, de modo que, em termos ontológicos fundamentais, o Dasein simplesmente é die Lichtung — figuradamente, essa “iluminação” — e não a “luz” ôntica reificada de que fala a tradição metafísica.

7. o sentido da passagem obriga a traduzir die Lichtung, em Ser e Tempo, como “a iluminação”, e não como a “clareira” espacial, tradução adotada por outras versões, incluindo a padrão de Macquarrie e Robinson e a de Joan Stambaugh, não sendo justificável reler nessa passagem a posição muito posterior de Heidegger de que die Lichtung não deve ser entendida em termos de lux, luz.

  • evidência adicional dessa leitura encontra-se em nota marginal de Heidegger, de data indeterminada, em seu exemplar de Sein und Zeit, junto à palavra gelichtet: “AletheiaOffenheit — Lichtung, Licht, Leuchten”, tornando transparente que sua compreensão da relação entre essas palavras era decididamente em termos de luminosidade: gelichtet — Lichtung — Licht — Leuchten.

8. esclarecer o sentido figurado primário de die Lichtung em Ser e Tempo estabelece que houve, de fato, mudança importante em sua leitura da palavra Lichtung entre a obra inicial e as declarações tardias dos anos 1960, não sendo lícito reler uniformemente sua concepção tardia de Lichtung de volta na obra inicial e intermediária e traduzi-la uniformemente como “clareira” espacial, sob pena de encobrir esse desenvolvimento em seu pensamento — sendo, portanto, “a iluminação” a tradução adequada de die Lichtung em Ser e Tempo, questão que também se coloca em outros textos.

9. na “Carta sobre o Humanismo” (1947), Heidegger refere-se diversas vezes a die Lichtung, principalmente na forma die Lichtung des Seins, sem qualquer ressalva que sugerisse uso metafórico diverso do de Ser e Tempo, sendo por isso compreensível que Frank Capuzzi tenha traduzido a expressão como “the lighting of Being” na primeira edição de Basic Writings (1977), confirmando-o a própria afirmação de que toda partida dos entes e todo retorno a eles já se encontra na luz do Ser (im Lichte des Seins), sendo a Lichtung do Ser reconhecida pela metafísica ou como o visível do que está presente na “aparência” (idea), ou criticamente como o que é visto pela representação categorial da subjetividade.

  • curiosamente, essa tradução foi alterada em toda a “Carta sobre o Humanismo” na edição revisada de Basic Writings (1993), sem que o editor David Farrell Krell apresentasse justificativa além de mencionar que “clearing” passaria a ser usado uniformemente para Lichtung, revisão que não leva em conta a evolução da leitura heideggeriana da palavra, da metáfora visual da “iluminação” para a metáfora espacial da “clareira”.

10. questão semelhante surge na Introdução de 1949 a “O Que É Metafísica?” (“O Caminho de Volta ao Fundamento da Metafísica”), em que Heidegger emprega a metáfora da luz ao elucidar sua compreensão do Ser mesmo: a metafísica pensa os entes como entes, devendo esse “olhar” à luz do Ser (dem Licht des Seins), luz esta que, ela mesma, já não entra no âmbito do pensamento metafísico, pois este sempre representa os entes apenas como entes.

  • chama a atenção nota marginal, de data indeterminada, que Heidegger acrescentou junto à palavra Licht na frase “dem Licht des Seins” em seu exemplar de Wegmarken [GA9]: a palavra Lichtung — permanecendo incerto se a nota reflete a compreensão de Ser e Tempo (Lichtung como “iluminação”) ou a perspectiva tardia (Lichtung como “clareira” espacial de todo apartada da luz), inclinando-se à primeira hipótese, ainda que a tradução inglesa em Pathmarks simplesmente verta Lichtung como “Clearing”, resolvendo a questão com excessiva facilidade.

11. em certos textos do período intermediário não há, contudo, dúvida possível: a tradução de Lichtung como “iluminação” em termos de luminosidade evidencia-se perfeitamente no discurso heideggeriano sobre Heráclito (Aletheia, 1954), no qual se estabelece jogo de palavras entre Heráclito, “o obscuro” (der Dunkle), e o pensador que pensa questionadoramente rumo à “iluminação” (die Lichtung) — a matéria fundamental do pensamento, trazida poeticamente à linguagem como a “luz” ou “iluminação” única que, de modo finito, permite a todos os entes resplandecerem em sua entidade —, sendo explícito desde o início que compreende a palavra licht em termos de luminosidade: iluminante, radiante, clareante, concedendo o iluminar (das Lichten) o resplandecer, libertando o que resplandece para uma aparição.

12. em alguns textos dos anos 1950, o sentido figurado preciso da palavra permanece, porém, menos claro, como no curso O Princípio de Razão (1955-6), em que o termo aparece diversas vezes sem tematização explícita, deixando-nos incertos quanto à continuidade da imagética da “iluminação” ou à emergência do sentido espacial da “clareira” — incerteza refletida na tradução inglesa de Reginald Lilly, que opta por não escolher, vertendo die Lichtung, em cada ocorrência, como “the clearing and lighting”.

II. Recuando da Luz e Adentrando a Clareira

13. no início dos anos 1960, Heidegger chega à sua compreensão e tematização madura da palavra die Lichtung em termos da metáfora espacial da clareira ou abertura num bosque ou floresta, distinta da luz ou claridade, sem, contudo, esclarecer em suas reflexões o próprio caminho que o conduziu a essa posição, afirmando explicitamente, nas declarações dos anos 1960, que Lichtung não pode nem deve ser compreendida a partir da “iluminação” — sem qualquer menção ao fato de que ele próprio havia adotado o sentido figurado do lumen, luz, em Ser e Tempo e alhures na obra anterior.

14. em “O Fim da Filosofia e a Tarefa do Pensamento” (1964), elabora-se a metáfora da clareira florestal e rejeita-se explicitamente a metáfora da luz como luminosidade: o substantivo “Lichtung” remonta ao verbo “lichten”; o adjetivo “licht” é a mesma palavra que “leve” [leicht]; clarear algo significa tornar algo leve, livre e aberto — por exemplo, desobstruir de árvores um lugar da floresta —, sendo o espaço livre assim originado a clareira [die Lichtung]; o clarear no sentido de tornar-se livre e aberto nada tem em comum, nem linguística nem materialmente, com o adjetivo “claro”, que significa “brilhante”.

15. de modo semelhante, no seminário de Zollikon de 6 de julho de 1964, pergunta-se retoricamente como fica a clareira quando a luz se apaga, respondendo-se que “clareira” significa “estar aberto”, havendo clareira também na escuridão, nada tendo a clareira a ver com a luz [Licht], mas provindo de “leve” [leicht] — a luz relacionando-se à percepção, podendo-se ainda esbarrar em algo no escuro, o que não requer luz, mas clareira.

16. um ano depois, em “Sobre a Questão da Determinação da Matéria para o Pensamento” (1965), reitera-se a exclusão da luz como iluminação: uma clareira florestal é o que é, não por causa do brilho e da luz que nela podem incidir durante o dia, permanecendo a clareira também à noite — o clarear no sentido de claridade e o clarear da clareira diferindo não apenas quanto à matéria, mas também quanto à palavra, significando “clarear” [Lichten]: tornar livre, libertar, deixar livre, remontando “clarear” a “leve” [leicht].

17. no seminário sobre Heráclito conduzido com Eugen Fink em 1966-7, reitera-se novamente essa posição — outra vez sem qualquer reconsideração da leitura anterior da palavra ou de sua apropriação anterior da metáfora da iluminação —, perguntando-se se clareira e luz têm algo em comum, respondendo-se que evidentemente não: clareira significa rarear, levantar âncora, desobstruir, não significando isso que, onde a clareira clareia, haja claridade, sendo o clareado (das Gelichtete) o livre, o aberto, e, ao mesmo tempo, o que se oculta; não devendo a clareira ser compreendida a partir da luz, mas a partir dos gregos.

18. todos esses textos atestam a elucidação madura e persuasiva de die Lichtung como matéria de pensamento, devendo-se, contudo, notar que a afirmação reiterada de que as palavras Lichtung e Licht nada têm em comum linguisticamente é bastante duvidosa, sendo ainda mais intrigante que Heidegger jamais reconheça ter ele mesmo, anteriormente, entendido die Lichtung em termos de lux, luz, deixando-nos sem qualquer relato de seu próprio caminho de pensamento (Denkweg) entre a elucidação de Lichtung em termos de lumen em Ser e Tempo e sua rejeição categórica dessa imagética na obra dos anos 1960.

19. sugere-se que o abandono decisivo da metáfora da luz relaciona-se ao aprofundamento, ao longo dos anos, da meditação heideggeriana sobre a experiência grega da aletheia, tendo Heidegger concluído que a metáfora da luminosidade estava demasiadamente entrelaçada com a compreensão onto-teológica ocidental da verdade como veritas para servir à Sache, não sendo capaz de manifestar os modos negativados de presenciar (ocultamento, ausência, carência, retraimento, recusa, distorção, errância) intrínsecos à aletheia — permanecendo fora de vista, na “luz” da metafísica desde Platão, a dimensão negativada, o “lethe”, da a-letheia, sendo essa consideração o cerne de sua rejeição definitiva, apenas nos anos 1960, da metáfora da luz.

  • na metáfora dominante da tradição ocidental onto-teológica, a luz dissipa a escuridão; na metáfora espacial heideggeriana da clareira, luz e escuridão são deixadas ser.

20. no “Seminário sobre Heráclito” (1966-7), Heidegger aproxima-se de revelar algo de seu caminho de pensamento sobre die Lichtung, notando que seu pensamento lutara para libertar-se do tema metafísico dominante da “verdade” e de sua imagem correspondente da “luz”, sem, contudo, reconhecer explicitamente que sua interpretação de die Lichtung havia evoluído, ao longo do tempo, de “a iluminação” para “a clareira” — clareira que não deve ser compreendida a partir de Licht — afirmando que aletheia, pensada como aletheia, nada tem a ver com “verdade”, significando antes desvelamento, já apontado em direção à clareira em Ser e Tempo, embora nesse ínterim a “verdade” tenha se interposto.

21. remete-se aí à conferência “Da Essência da Verdade” (1930/1943), na qual, na primeira edição, fala-se repetidamente do “aberto” (das Offene) sem tematizar die Lichtung em relação ao aberto, sendo apenas no parágrafo acrescentado à Seção 9 (Nota), para a segunda edição de 1949, que Heidegger volta atenção explícita a die Lichtung ao pensar a aletheia, ainda assim, aparentemente, em termos da metáfora tradicional da “iluminação”: porque lhe pertence o abrigar luminoso [lichtendes Bergen], o Ser-Enquanto resplandece originariamente na luz [im Licht] do retraimento velante — acrescentando: “o nome dessa Lichtung é aletheia”, passagem mais plausivelmente traduzida, dado o contexto, como “o nome dessa iluminação é aletheia”, evidenciando que seu pensamento sobre die Lichtung, nesse período intermediário, ainda se informava largamente pela metáfora da luz, restando anos para chegar à posição final dos anos 1960.

22. em “O Fim da Filosofia e a Tarefa do Pensamento” (1964), a compreensão madura de die Lichtung como “clareira” espacial relaciona-se intimamente à meditação continuada sobre a aletheia, elucidando-se, a partir das palavras de Parmênides, o fenômeno da clareira em termos da aletheia “bem-arredondada” (eukukleos), experiência de ambos os modos, positivo e negativado, de presenciar: a presença como demorar-se no aberto permanece sempre dependente da clareira já vigente, não podendo o ausente, tampouco, ser como tal a não ser como presenciante [anwesend] no livre da clareira.

  • a clareira/aletheia deve, por isso, ser considerada o “fenômeno primordial” e a “matéria primordial”, mais fundamental do que a verdade metafísica/veritas, que só pode ver em sua “luz” o modo positivo de presenciar, isto é, os entes em sua entidade, concluindo-se que aletheia, o desvelamento no sentido de clareira, não pode ser equiparada à verdade, mas antes concede, primeiramente, a possibilidade mesma da verdade.

23. em passagem facilmente negligenciada dessa mesma conferência, Heidegger critica a metáfora do lumen naturale da tradição metafísica sem qualquer menção ao fato de tê-la ele próprio assumido em Ser e Tempo: a filosofia nada sabe da clareira, falando certamente da luz da razão, mas sem atentar para a clareira do Ser, apenas clareando o lumen naturale, a luz da razão, o aberto, ainda que dele necessite para poder iluminar o que está presente na clareira — o que vale não apenas para o método da filosofia, mas, sobretudo, para sua matéria, a presença do que está presente [Anwesenheit des Anwesenden].

  • a metáfora de lux, lumen, luz, herdada da tradição onto-teológica, limita-se a iluminar os entes em sua entidade, falhando, por isso, em trazer à vista a matéria fundamental do pensamento, a aletheia, revisitando e revisando Heidegger, nessa mesma passagem, sua própria posição anterior sem o dizer explicitamente, não sendo por acaso que insere aqui menção ao lumen naturale, quase quarenta anos após Ser e Tempo.

Conclusão

24. descobre-se, assim, que há mais na história do pensamento heideggeriano sobre die Lichtung do que suas próprias declarações revelam: numa fórmula, a história vai “da iluminação” à “clareira”, desenvolvimento significativo por refletir o aprofundamento, ao longo do tempo, de sua apreciação das implicações de seu insight sobre o que os gregos nomearam aletheia.

  • em Ser e Tempo, tentou recuperar a metáfora tradicional do lumen naturale, “luz natural”, em termos existencial-ontológicos, continuando, nas obras posteriores à “viravolta” (die Kehre), a empregar a metáfora da iluminação na elucidação de sua compreensão do Ser mesmo (das Sein selbst); mas nas declarações dos anos 1960 encontra-se mudança de perspectiva distinta e decidida, embora não reconhecida como tal por Heidegger.
  • ao final da filosofia sob a forma da onto-teologia, a tarefa do pensamento passa a ser guiada pela metáfora da “clareira”, na qual aparecem tanto a luz quanto a escuridão, tanto o que brilha claramente de dia quanto o que permanece coberto e oculto na escuridão da noite — sendo a imagem espacial da clareira florestal, e não mais a imagética tradicional da luz e da iluminação, mais própria à tarefa do pensamento atento ao aparecer tanto da presença quanto da ausência, da verdade e da não-verdade, que caracteriza propriamente a a-letheia mesma / o Ser mesmo em seus modos de manifestação positivo e negativado.

25. ao acrescentar, no prefácio japonês de 1968 a “Sobre a Questão da Determinação da Matéria para o Pensamento”, algumas palavras sobre die Lichtung, Heidegger parece ter alcançado um impasse com a tradição onto-teológica ocidental — incluída a tradição bíblica —, tão decisivamente moldada pela metáfora da luz, podendo-se cristalizar essa diferença assim: Tomás de Aquino, citando a Bíblia (Efésios 5), afirmara, para a tradição, que “tudo que se manifesta [verdade/veritas] é luz”; ao passo que a meditação heideggeriana vitalícia sobre a aletheia o conduziu a sustentar, cada vez mais radical e insistentemente, que tudo que se manifesta (aletheia) não é apenas luz, mas luz e escuridão na clareira.

26. ao mesmo tempo, Heidegger reconheceu o parentesco essencial de sua noção de “clareira” com o pensamento e a prática meditativa “leste-asiáticos”, acolhendo cada vez mais um “engajamento fecundo” e diálogo com essas tradições, esperançoso, ainda que sempre um tanto cauteloso, quanto a esse projeto, mas bastante decidido quanto à “matéria mesma” (die Sache selbst): trazida à linguagem no Ocidente ou no Oriente, pensar — e, mais ainda, experienciar — o Ur-fenômeno que nomeou “clareira” tem o poder de nos transformar e nos libertar para uma permanência autêntica na terra, sob o céu, com os outros, entre o nascimento e a morte.

Apêndice

Uma Nota sobre a Palavra die Lichtung

27. não se contesta a originalidade e ressonância da elucidação madura heideggeriana de die Lichtung como matéria para o pensamento, sendo, contudo, problemática — e merecedora de maior atenção linguística — a afirmação reiterada, nas declarações dos anos 1960, de que o substantivo die Lichtung nada teria em comum linguisticamente com a palavra das Licht.

28. observa-se que, em alemão, existe (1) o verbo lichten, relacionado a das Licht, significando “clarear” e “desobstruir”, e também (2) o verbo lichten, derivado de leichten, significando desonerar, aliviar ou levantar, como na expressão comum den Anker lichten, levantar âncora — tematizando Heidegger, nas declarações dos anos 1960, em contraste marcante com sua reflexão anterior, exclusivamente o segundo verbo, insistindo em derivar Lichtung de lichten/leicht, sendo duvidoso, contudo, que Lichtung nada tenha a ver com o primeiro lichten e com das Licht no sentido de claridade e luminosidade.

  • o Dicionário Alemão de Grimm registra duas entradas para die Lichtung: a segunda deriva-a de lichten/leicht, no sentido de “levantamento”, como de uma âncora, tal como sustenta Heidegger nos anos 1960; a primeira, porém, relaciona die Lichtung a um sentido de das Licht (abertura em casa ou porta que deixa entrar luz) e ao verbo lichten relacionado a Licht (rarear uma floresta para que a luz penetre) — parecendo, assim, que a acepção destacada da palavra como “clareira” relaciona-se, de fato, linguisticamente a lichten/Licht, e não a lichten/leicht, encontrando-se ainda a forma feminina arcaica “die Lichte”, que transmite tanto o sentido de “claridade” quanto o de “clareira” ou “abertura” num bosque ou floresta.

29. dada a atenção que Heidegger dedicava às palavras e suas histórias, é provável que conhecesse essas entradas do dicionário de Grimm, permanecendo em aberto por que insistiu tão enfaticamente em separar Licht de Lichtung em suas declarações dos anos 1960 — sugerindo-se que tenha superestimado a reivindicação linguística por interesse polêmico em rejeitar decisivamente a metáfora metafísica tradicional da luz (vinculada à veritas) em favor de sua metáfora da clareira florestal (vinculada à aletheia), revelando essa superestimação, provavelmente, algo do desenvolvimento não declarado de seu próprio pensamento, a saber, que dessa forma se separava enfaticamente de sua própria visão anterior da questão — podendo-se referir a isso como a própria “clareira” de Heidegger quanto à metáfora própria a ser pensada.

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