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estudos:capelle:filosofia-corretivo-ontologico-2001-3

A FILOSOFIA COMO “CORREÇÃO ONTOLÓGICA” (2001 §1 3)

CAPELLE, Philippe. Philosophie et théologie dans la pensée de Martin Heidegger. Nouv. éd. rev. et augm ed. Paris: les Éd. du Cerf, 2001.

  • A fé não requer a filosofia, mas a teologia, enquanto ciência, requer um corretivo filosófico
    • A fé, enquanto tal, não necessita da filosofia para se constituir ou se legitimar
    • O que convoca a filosofia é a teologia enquanto saber científico instituído a partir da fé
    • A necessidade da filosofia não concerne ao Positum da teologia, isto é, à cristianidade, mas aos conceitos fundamentais de que a teologia se serve
    • A filosofia exerce, assim, a função de corretivo ontológico da teologia
  • O problema central da conceptualidade própria da teologia
    • A questão decisiva não é a possibilidade de uma conceptualidade adequada ao objeto Deus
    • Tal orientação reconduziria à metafísica tradicional, já recusada desde Ser e Tempo
    • O que está em jogo é uma conceptualidade adequada à coisa mesma da teologia, que é a fé
    • A teologia reivindica, a partir de si mesma, essa adequação conceitual
  • O paradoxo da conceptualização do inconcebível
    • Aquilo que a teologia deve apreender conceitualmente é o inconcebível por essência
    • A via do silêncio absoluto não pode fazer justiça a esse inconcebível
    • Torna-se necessário um trabalho conceitual rigorosamente vinculado à própria inconcebibilidade do que é pensado
    • Nesse exercício, o conceito é levado ao confronto com seus próprios limites
  • O lugar paradoxal da filosofia nesse trabalho conceitual
    • Não se trata de receber da filosofia a inteligibilidade dos conceitos teológicos
    • A inteligibilidade dos conceitos teológicos só pode provir da fé
    • Contudo, todo ente é sempre já apreendido numa compreensão pré-conceitual
    • Os conceitos teológicos fundamentais contêm necessariamente uma compreensão do ser que pertence ao Dasein humano enquanto existente
  • A região pré-crente como base ontológica comum
    • A fé é renascimento e, como tal, não recebe da ontologia qualquer fundamento
    • Entretanto, esse renascimento se apoia numa região de ser comum a toda existência
    • Essa região é denominada pré-crente
    • Coloca-se então a questão decisiva da relação entre o pré-crente e o crente
  • A superação do pré-crente na existência crente
    • Na existência crente, o pré-crente é superado, aufgehoben
    • Superar não significa eliminar, mas assumir, manter e preservar na nova criação
    • A superação é uma nova disposição, não uma rejeição
    • O pré-crente permanece como momento assumido na existência crente
  • A função da filosofia no desvelamento do conteúdo pré-cristão dos conceitos
    • A filosofia torna visível o conteúdo pré-cristão dos conceitos teológicos
    • Esse conteúdo é inevitavelmente ontológico
    • A correção filosófica opera na fronteira entre o conteúdo pré-cristão e o conteúdo de fé
    • Trata-se de uma delimitação estrutural e não de uma avaliação doutrinal
  • Exemplo paradigmático: culpa e pecado
    • A interpretação do conceito teológico de pecado exige retorno ao conceito de culpa
    • Esse retorno não implica dedução do pecado a partir da culpa
    • Tal dedução submeteria novamente a teologia à tutela da filosofia
    • O retorno é exigido pelo desvelamento ontológico do conceito teológico de pecado
  • A estrutura ontológica do ser-em-culpa
    • Independentemente de ser cristão ou não, o homem pertence à estrutura ontológica do ser-em-culpa
    • Ser-em-culpa não significa ter dívidas nem ser culpado de uma falta moral
    • Trata-se da estrutura que torna possíveis tais faltas
    • O Dasein é originariamente em culpa porque, enquanto lançado, se fecha a si mesmo em seu decair
  • A escolha existencial e a culpa estrutural
    • Toda escolha existencial implica o abandono de outras possibilidades
    • O Dasein é constantemente aquilo que não é, por ter abandonado possibilidades em sua projeção
    • O ser-em-culpa é, assim, uma estrutura ontológica primeira
    • Essa estrutura convoca o Dasein à escuta de sua possibilidade mais própria e à clarificação da consciência
  • A determinação ontológica do domínio do pecado
    • O conceito ontológico de culpa não constrói o conceito teológico de pecado
    • Contudo, ele é formalmente determinante
    • Indica o domínio ontológico no qual o conceito de pecado necessariamente se move
    • A filosofia esclarece o horizonte ontológico sem fornecer o conteúdo teológico
  • O sentido específico da função corretiva da filosofia
    • A filosofia pode permanecer o que é sem exercer efetivamente essa função corretiva
    • Ela não possui mandato para julgar conceitos ou sistemas teológicos
    • A correção não é normativa nem avaliativa
    • Ela se exerce por indicação formal
  • A indicação formal como modo próprio de correção
    • A indicação formal distingue-se de toda apreciação de conteúdo
    • Ela reconduz os conteúdos ao lugar de sua possibilização extrema
    • Trata-se de uma orientação estrutural, não de uma determinação material
    • A indicação formal tem por função não encadear, mas liberar
  • A liberação da conceptualidade teológica
    • Pela indicação formal, a conceptualidade teológica é liberada
    • Ela pode então ser elaborada em estrita conformidade com a fidelidade
    • A filosofia não substitui nem governa o trabalho teológico
    • Ela apenas desvela o horizonte ontológico implícito
  • A relação assimétrica entre filosofia e teologia
    • A filosofia não necessita, para si mesma, dessa relação
    • Ela não retorna ao papel de serva da teologia
    • Sua função é reenviar criticamente a teologia a uma conceptualidade adequada
    • O espaço dessa relação é deliberadamente restrito
  • O paradoxo da hostilidade essencial entre fé e filosofia
    • Apesar da função liberadora da filosofia, a relação com a teologia é marcada pela hostilidade
    • A fé, enquanto possibilidade existencial específica, é inimiga mortal da forma existencial própria da filosofia
    • Essa hostilidade é estrutural e não contingente
    • A filosofia não pretende combater esse inimigo, mas reconhece sua alteridade essencial
  • Questão em aberto: os motivos da hostilidade
    • Permanece a interrogação sobre onde residem os motivos dessa hostilidade
    • A tensão entre fé e filosofia não é resolvida, mas assumida
    • A coexistência entre correção ontológica e inimizade existencial constitui o paradoxo final
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