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Ser e Tempo

BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.

  • Ser e Tempo, publicado em 1927, tornou-se um dos textos filosóficos mais significativos e controversos do século vinte, situando-se na confluência da fenomenologia, do existencialismo, do neoescolasticismo e da hermenêutica, além de marcar a bifurcação entre a filosofia analítica e a continental
  • A trajetória de Martin Heidegger até Ser e Tempo parte de Meßkirch, pequena cidade na Baden rural onde nasceu em 1889, até Freiburg, cidade cosmopolita próxima da Basileia e de Estrasburgo
    • Criado na fé católica e sustentado pela Igreja, Heidegger frequentou escolas preparatórias em Konstanz e Freiburg com a ambição de tornar-se padre jesuíta, sendo recusado por problemas cardíacos, condição que também o afastou do front na Primeira Guerra Mundial
  • Os estudos de Heidegger na Universidade de Freiburg passaram pela teologia, pela matemática e pela filosofia, culminando no doutorado de 1913 com a dissertação sobre “A Doutrina do Juízo no Psicologismo”
    • Entre 1913 e 1915 Heidegger redigiu, sob supervisão nominal de Heinrich Rickert, a dissertação de habilitação “A Teoria das Categorias e do Significado em Duns Scotus”, com apoio financeiro da Igreja de Freiburg, seguida da palestra “O Conceito de Tempo na Ciência da História”
  • O foco intelectual de Heidegger nesse período já indicava seu rumo futuro, ao explorar questões de fundamento do sentido, da lógica e da intencionalidade por meio do método fenomenológico cunhado por Edmund Husserl
    • A chegada de Husserl a Freiburg em 1916 reforçou o compromisso de Heidegger com a fenomenologia, tornando-se ele assistente de Husserl enquanto lecionava como Privatdozent
  • A fenomenologia constitui um método reflexivo de investigação filosófica centrado na consciência do mundo, e não no mundo em si, mediante a epoché fenomenológica, que coloca entre parênteses tanto o mundo natural quanto os estados psicológicos internos
    • Diferentemente de Descartes, Husserl estende o parêntese aos próprios estados psicológicos, distinguindo a experiência consciente das condições psicológicas em que ela se realiza
    • O objeto de estudo remanescente é o objeto da consciência tal como se apresenta, exemplificado pela percepção de um gato
  • A epoché fenomenológica liberta a filosofia de fundamentos inseguros em três frentes
    • Livra-a da dependência do conteúdo mutável das ciências, inclusive da psicologia empírica e de seus paradigmas cambiantes
    • Livra-a da tentação da especulação metafísica, questões que ocuparam Platão, Deus ou as mônadas leibnizianas, e que os empiristas modernos e Immanuel Kant já haviam criticado como especulação ociosa
    • Livra-a da infiltração de opiniões do senso comum não examinadas, exigindo atenção ao modo como as coisas se mostram
  • Heidegger apropriou-se do método fenomenológico para tratar da ontologia, influenciado pela distinção kantiana entre lógica geral, de consistência, e lógica transcendental, de verdade, esta última reguladora do pensamento sobre objetos como sistema causal no espaço e no tempo
  • A objeção óbvia a Kant é que sua análise revela apenas como o mundo deve aparecer, levando à distinção entre o mundo como aparece e a coisa em si, inacessível à cognição humana, cujas regras de pensamento seriam vinculantes a todas as mentes humanas
    • Os sucessores de Kant no século dezenove questionaram essa distinção, argumentando que pensamentos coerentes sobre objetos só se sustentam atados ao mundo da aparência, questão que Heidegger aceita ao rejeitar a distinção entre coisas em si e aparências, enquanto os neokantianos definem a filosofia como estudo da objetividade
  • Heidegger transforma esse estudo da objetividade em estudo do ser, preferindo em Ser e Tempo o termo ontologia ao termo metafísica, perguntando não o que existe, mas o que é para um ente ser
  • Esse retorno reconecta o pensamento maduro de Heidegger com seus interesses ontológicos mais antigos, remontando à ontologia tradicional iniciada por Aristóteles e apogeu na alta Idade Média, voltada às categorias supremas dos entes
    • O neoescolasticismo, força proeminente no mundo intelectual católico do final do século dezenove, reviveu essas questões, e Heidegger relata ter lido aos dezoito anos, em 1907, a obra de Franz Brentano sobre os múltiplos sentidos do ser em Aristóteles
  • Duas outras correntes de pensamento dos séculos dezenove e vinte alimentam o projeto filosófico de Heidegger na década de 1920
    • A convicção religiosa de Heidegger, sustentada pela Igreja Católica em sua juventude, mudou após a habilitação, coincidindo com seu namoro com a futura esposa Elfride, protestante, culminando em 1919 na ruptura formal com a Igreja Católica, expressa em carta ao padre Engelbert Krebs, embora tenha continuado a lecionar sobre filosofia da religião sob influência de Lutero e do cristianismo primitivo, aproximando-se de Søren Kierkegaard
  • O existencialismo não constitui movimento ou escola precisamente definida, mas antes uma sensibilidade e um conjunto de questões tão literárias quanto filosóficas
    • Heidegger foi influenciado por Kierkegaard e Friedrich Nietzsche, pensadores opostos entre si mas unidos na reação contra uma tradição filosófica voltada à cognição e distante da vida individual, reação que expõe a vida cotidiana como fachada de uma verdade mais perturbadora e libertadora
    • Essa afinidade existencialista aproximou Heidegger de Karl Jaspers, e a correspondência entre ambos revela a autoimagem de revolucionários filosóficos contra as abstrações da geração anterior
  • O interesse pelo sentido da experiência cotidiana exigiu um método de interpretação do comportamento humano, fornecido pela teoria da hermenêutica de Wilhelm Dilthey
    • Dilthey distinguiu a explicação das ciências naturais, voltada a leis gerais, da compreensão dos estudos humanos, voltada ao contexto histórico e social, distinção que Heidegger reformula ontologicamente em Ser e Tempo, situando a atividade humana, a linguagem e os artefatos em seus contextos sociais
  • Aristóteles constitui a última grande influência do pensamento inicial de Heidegger, tratado extensamente em cursos sobre a Ética a Nicômaco, a Física e a Metafísica
    • Durante o assistentado junto a Husserl, Heidegger iniciou uma monografia sobre interpretação fenomenológica de Aristóteles, da qual só restou a introdução, texto que lhe rendeu a nomeação como professor extraordinário na Universidade de Marburg em 1923
  • No período em Marburg, entre 1923 e 1928, Heidegger concentrou-se em Aristóteles e Kant e redigiu Ser e Tempo
    • Suas lições desse período, entre elas História do Conceito de Tempo, Lógica: a Questão da Verdade, Problemas Fundamentais da Fenomenologia e Fundamentos Metafísicos da Lógica, permanecem de interesse duradouro
    • Em 1926 a faculdade de Marburg recomendou sua promoção a cátedra plena, recusada por falta de publicações significativas em dez anos, até que as Divisões I e II de Ser e Tempo saíram em 1927 na revista de pesquisa fenomenológica de Husserl, garantindo a Heidegger a sucessão da cátedra de Husserl em Freiburg em 1928
  • O afastamento de Heidegger das ideias de seu mentor tornou-se evidente logo após a sucessão da cátedra
    • Na aula inaugural “O que é Metafísica?”, Heidegger defendeu que a filosofia deve romper o domínio da lógica e que a angústia é indispensável à investigação intelectual, marco de virada em seu desenvolvimento
    • Por volta de 1929 começou a abandonar o projeto filosófico de Ser e Tempo, e por volta de 1936 sua escrita já havia mudado radicalmente, cedendo a ontologia sistemática e a devoção explícita à fenomenologia, com Nietzsche substituindo Aristóteles, os escolásticos e Kant como foco central e a poesia substituindo a lógica, transformação chamada de Kehre
  • Em 1933 Heidegger tornou-se reitor da Universidade de Freiburg, filiou-se ao Partido Nazista e implementou parte do programa de Gleichschaltung, mantendo-se no cargo por cerca de um ano antes de retornar às funções docentes regulares até o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945
    • Rompeu ou destruiu amizades nesse período, inclusive com Jaspers, cuja esposa era judia, e sua posterior autojustificativa de ter protegido a autonomia espiritual da universidade foi refutada
    • Ao tentar recrutar Jaspers em sua defesa durante o julgamento de desnazificação, foi rechaçado por uma carta que recomendava a perda de seu direito de lecionar, direito que a comissão de desnazificação de fato lhe retirou, restituído anos depois junto ao título de professor emérito
  • Durante as décadas de 1950 e 1960, Heidegger lecionou e realizou seminários voltados à história do ser, à compreensão moderna do ser como tecnologia, à verdade do ser associada ao misticismo medieval e ao papel da linguagem na experiência humana
    • Seu período tardio carece de uma obra magna equivalente a Ser e Tempo, e concedeu uma última entrevista à revista Der Spiegel, abordando as ameaças da era moderna e, de modo insatisfatório, seu envolvimento com o nazismo, publicada somente após sua morte em 1976, aos oitenta e seis anos
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