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estudos:birault:pensar:1.1.3

1.1.3 Prazer e desprazer

HBEP

  • A Crítica do Juízo, embora inicialmente concebida como uma crítica da faculdade do gosto ligada ao sentimento de prazer e desprazer, introduz o princípio da finalidade como um conceito a priori pobre em princípios determinantes, o que confere ao juízo reflexionante um papel regulador e não constitutivo, motivado pela experiência da unidade harmônica da natureza, pela existência enigmática dos seres vivos e pelo encontro com a beleza.
    • A finalidade é um princípio transcendental que não deriva da natureza, mas é atribuído a ela pelo juízo para viabilizar a experiência e a pesquisa de suas leis empíricas, possuindo um valor “presuntivo” e não “prescritivo”, sendo ao mesmo tempo subjetivo e quase objetivo.
    • A natureza, na Crítica do Juízo, revela um “bom grado” em se adequar ao princípio de finalidade, o que confere um caráter teológico à teleologia, sem, contudo, identificar-se com o Deus da razão pura ou com o da razão prática.
    • O princípio da finalidade é “heautônomo”, pois prescreve uma lei apenas ao próprio juízo, e não à natureza, mas sua necessidade a priori para a inteligibilidade da natureza lhe confere um poder normativo que transcende a mera utilidade ou economia.
  • O juízo de beleza é um juízo estético que, diferentemente do juízo lógico, não se reporta ao objeto pelo entendimento em vista do conhecimento, mas ao sujeito e ao seu sentimento de prazer e desprazer, sendo seu princípio determinante puramente subjetivo.
    • A definição do juízo de gosto como estético estabelece a redução da beleza à estética, um movimento que, embora inovador, é também problemático, pois a beleza, fora de sua relação com o sentimento do sujeito, não é mais nada.
    • O juízo de beleza é um juízo reflexionante, que não subsume o particular sob um universal dado, mas busca um universal para o particular dado, operando um movimento ascendente (anabase) em oposição ao movimento descendente (catábase) do juízo determinante.
    • O prazer estético é desinteressado, não estando ligado a nenhum interesse dos sentidos ou da razão, não pressupondo nem produzindo necessidade, sendo, portanto, livre e puro, ao contrário do prazer ligado ao agradável ou ao bem.
  • O juízo de beleza, embora fundado em um sentimento subjetivo, reclama uma validade universal e necessária, atribuindo a beleza ao próprio objeto, como se fosse um predicado objetivo, o que exige a suposição de um senso comum (sensus communis) estético.
    • A universalidade do juízo de gosto é subjetiva e não objetiva, existindo em ideia e não em realidade, mas é esta pretensão de universalidade que distingue um juízo de gosto de um mero juízo de percepção ou preferência.
    • A questão de saber se o prazer precede o juízo ou vice-versa é decisiva, e Kant afirma que a comunicabilidade universal do estado de espírito na representação dada é que é o fundamento do juízo de gosto, sendo o prazer sua consequência.
    • O prazer estético é a priori, pois não é um prazer comum ao qual se acrescenta o predicado “estético”, mas é vivido imediatamente como tal, sendo a “consciência da finalidade meramente formal no jogo das faculdades de conhecer do sujeito” o próprio prazer.
  • A beleza é definida como uma finalidade sem fim, uma conformidade a fins sem a representação de um fim, o que a torna desinteressada e livre, permitindo um jogo harmonioso e livre das faculdades da imaginação e do entendimento.
    • A distinção entre beleza livre (pulchritudo vaga) e beleza aderente (pulchritudo adhaerens) mostra que a beleza pura deve ser livre de todo conceito determinado, como ocorre com as flores, os desenhos à grega ou os pássaros, que agradam por si mesmos, sem representar nada.
    • Na beleza livre, o papel do objeto se atenua a tal ponto que a harmonia não reside no objeto, mas no jogo livre das faculdades representativas do sujeito, embora o juízo de beleza sempre se refira ao objeto, e não a um mero estado de espírito.
    • O “desinteresse” estético kantiano, mal interpretado por Schopenhauer como negação da vontade, é, na verdade, uma liberação em relação ao conceito e ao desejo, permitindo uma “contemplação tranquila” do objeto em sua pura presença, sem que isso signifique indiferença.
  • A interpretação nietzschéana da estética kantiana, embora crítica, reconhece implicitamente a redução da beleza a uma estética subjetiva, o que a aproxima da própria concepção de Nietzsche sobre a beleza como uma valor biológica, condicionada pelas necessidades de conservação da vida.
    • Nietzsche, ao definir o belo e o feio como condicionados por valores de conservação, segue a trilha aberta por Kant, para quem o belo não tem mais existência própria do que o bem ou o verdadeiro, sendo uma questão de subjectividade, ainda que universal.
    • A distinção kantiana entre o belo e o sublime é retomada por Nietzsche, que vê no sublime um prazer que envolve resistência e repulsão, um “manto da feiúra”, e uma afirmação da superioridade do homem sobre a natureza, tanto fora quanto dentro de si.
    • O sentimento do sublime, para ambos, reside não nos objetos, mas nas ideias que eles despertam no espírito, revelando uma superioridade do homem sobre a natureza e um prazer na própria capacidade de autossuperação, o que aproxima o sublime da vontade de potência.
  • A interpretação heideggeriana do desinteresse kantiano o vê de forma positiva, como uma liberação do objeto em relação à teia de interesses e necessidades humanas, permitindo uma “percepção sem interceptação”, uma mera vista da coisa em sua pura parusia (presença).
    • O “sem interesse” kantiano não é indiferença, mas um “deixar-ser” a coisa, uma abertura para sua mera aparência (Schein) no sentido de seu resplendor, onde o belo é o que brilha em sua própria glória, aproximando-se da verdade como desvelamento (aletheia).
    • Essa liberação do objeto, proporcionada pelo juízo estético, aponta para uma forma de conhecimento não conceitual, onde o sentido não é imposto ao sensível, mas recebido na livre dádiva que ele faz de si mesmo, o que sugere uma relação mais originária com a coisa.
    • Pensar a beleza em termos de verdade e não de prazer implica uma recusa da estética como teoria da beleza, que permanece prisioneira da inserção da beleza na ordem da sensação ou da experiência vivida (Erleben), onde a vida decide em última instância.
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