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estudos:beaufret:parmenides:2

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JBPP

  • Aguarda-nos desde sempre a surpreendente aparição da deusa no poema de Parmênides, cuja identidade permanece incerta, pois o verso 3 traz apenas a palavra daimon, introduzindo desde já a dimensão específica do divino e transportando o poema para um deslocamento sagrado
    • Observa-se a súbita cessação das prolixas descrições do carro e das portas, notando-se apenas que uma deusa recebe o viajante e lhe dirige a palavra, sem justificativa explícita para o feminino, determinado implicitamente pelo gênero da palavra que designa a Verdade, sendo a própria Verdade, e não uma mera deusa da verdade à maneira de Poseidon ou Apolo, quem fala
  • A Verdade aparece assim como sagrada e divina em seu lugar próprio, domínio de retraimento inatingível pelos caminhos comuns dos homens, sendo ela mesma um tal retraimento, pois a voz da deusa se refere a uma reserva superior, nomeando enigmaticamente a Ananke ou a Moira, cuja onipotência se subtrai continuamente até mesmo ao poder dos deuses
    • Conclui-se que a palavra da Verdade só se cumpre nomeando o que a ultrapassa, e que manter-se na verdade não é habitar luz sem sombra, mas aventurar-se até o segredo contraluz da abstenção, sustentar tal reserva sendo não recuo diante do indizível, mas promoção extrema do acabamento do dizer, sempre fiel ao desdito do tácito
  • Remete-se ao verso enigmático de um dos poemas mais misteriosos de Hölderlin sobre essa fidelidade como desamparo, esclarecendo que tal desamparo não é desconhecimento do cognoscível, mas determina o destino mais íntimo, cuja grandeza se mede por sua impotência criadora
    • Cita a frase de Braque, “as provas fatigam a verdade”, como guia para entender que toda prova é apenas administração de uma resposta, ao passo que a fidelidade como desamparo, ao manter suspensa toda resposta possível, torna inevitável um começo, seja obra, fundação da cidade ou filosofia, quando a linguagem se torna a própria palavra do ser
  • Observa-se como indício pouco explorado do mistério grego o fato de os gregos nomearem por termo privativo o que hoje chamamos, em termo positivo, verdade, propondo-se inverter a hipótese corrente e reconhecer em aletheia estrutura significativa, remetendo a partícula inicial à raiz do verbo lanthano, de que deriva também Lethe
    • Cita Píndaro, que nomeia a nuvem sem indícios de Lethe, e conclui, com Heidegger, que é porque para os gregos o não-desvelamento que se vela a si mesmo estende inicialmente seu império sobre o desdobramento do ser que seu termo para verdade traz o alfa privativo
    • Evoca a tragédia de Édipo como evocação desse perigo do desvelamento arrancado a um não-desvelamento mais inicial, mostrando como tal enredo só poderia tocar profundamente um povo cujo gênio reconhecera na nuvem sem indícios de Lethe algo fundamental à verdade
  • Interroga-se se o desvelamento da verdade destruiria a não-verdade do velamento, respondendo que tal conclusão lógica arrisca fazer perder de vista a singularidade do logos grego, remetendo a Platão, para quem o domínio da grandeza é o domínio mesmo do perigo, e distinguindo o combate espiritual evocado por Rimbaud do combate entre homens, por visar menos derrotar um adversário que elevar-se ao despojamento de uma co-pertença mais essencial
    • Cita Heráclito, segundo o qual o Senhor cujo oráculo está em Delfos não declara nem esconde, mas faz sinal, e evoca a palintropos harmonie heraclítica, o ajuntamento antagônico do arco ou da lira, relacionando-o à estrutura mesma da palavra aletheia
    • Interpreta a sentença heraclítica physis kryptesthai philei, a natureza ama esconder-se, entendendo physis não como natureza física ou biológica, mas como outro nome da própria aletheia, de modo que esta “ama” a Lethe da qual arranca, em combate, sua própria luz, sendo a palavra essencial não abolição do silêncio, mas proteção de seu retraimento no dom do Poema
  • Aproxima-se a moira de Parmênides, da qual o próprio ser recebe sua profundidade, do kryptesthai de Heráclito como último segredo da physis, sugerindo que, apesar da tradição que os opõe como filósofo do ser e filósofo do devir, Parmênides e Heráclito dizem talvez a mesma coisa, escutando o mesmo logos com o mesmo ouvido na origem do pensamento ocidental
    • Observa-se que o próprio Poema de Parmênides pode ter tido por título Perì physeos, sendo a physis heraclítica mais próxima da aletheia parmenídica que do conceito moderno de natureza, remetendo novamente a Édipo e à intuição nietzschiana de um instinto análogo ao que criou a tragédia entre os pré-socráticos
    • Conclui, citando o Prometeu de Ésquilo, que toda tekhne permanece mais fraca que a Ananke, na qual se esconde a força silenciosa do possível, do qual tudo depende segundo a conveniência e a sobriedade de um destino
  • Propõe-se ver na presença enigmática do daimon nomeado por Parmênides no terceiro verso não uma fabulação poética ou resquício mitológico, mas indício de que Parmênides não é um primitivo da filosofia, tanto quanto Giotto não é um primitivo da pintura, mas talvez primordial
    • Sugere-se que se aproxima o tempo em que os filósofos deixarão de interpretar Parmênides à luz de Platão ou Aristóteles, passando antes a compreender em que profundidade Platão e Aristóteles permanecem eles mesmos pré-socráticos, e em que medida os próprios modernos dependem dos pré-socráticos
    • Conclui, evocando Léon Robin, que se é legítimo ver nos Fragmentos de Parmênides os originais de nossos problemas, convém entender por original antes de tudo origem, elemento de iniciativa radical do qual nossos problemas talvez sejam apenas, na formulação aproximada de Heidegger, o relâmpago pálido e silencioso que ainda assinala uma tempestade há muito retirada, sendo nós, ocidentais de hoje, apenas os tardios herdeiros do radioso Declínio que os pré-socráticos inauguraram
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