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Essência do movimento
BARBARAS, Renaud. Métaphysique du sentiment. Paris: Editions du Cerf, 2016
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A tentação de compreender esse movimento segundo a acepção moderna do termo, como simples deslocamento, inscreve-se numa perspectiva dominada pela partilha entre uma ordem do sentido, sede da consciência, e uma ideia de movimento como aquilo de que todo sentido está ausente, distinção posta em questão pela caracterização do sujeito como movimento de um sujeito, aquilo em que se realiza sua atividade de fenomenalização
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Trata-se de um movimento que não transporta um móvel de um ponto a outro mas que faz aparecer aquilo em direção ao qual avança, iluminando seu caminho ao percorrê-lo, situando-se por-além ou aquém da partilha entre deslocamento e representação, na raiz comum dessas duas dimensões
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Esse movimento situa-se mais alto que o puro deslocamento por realizar algo, precisamente a aparição daquilo a que tende, mas mais baixo que a pura representação por ser justamente avanço, sendo identidade de um ver e de um fazer mais profunda que a partilha entre teórico e prático, e raiz comum de ambos
Essa identidade não é outra senão a do viver, constituindo por isso a vida o sentido de ser originário do sujeito, já que viver significa a um só tempo estar vivo, ou seja, mover-se, e fazer a experiência de algo-
Há um sentido originário do viver, mais profundo que a distinção entre o viver intransitivo e o viver transitivo, indiferente à partilha entre percepção e movimento, e que se cumpre indistintamente como iluminação e como avanço, não havendo movimento vivo, por mais simples que seja, que seja apenas deslocamento sem fazer aparecer algo
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Se toda fenomenalização é obra de uma vida, todos os viventes são sujeitos que, em alguma medida, abrem ou desvelam um mundo, decorrendo também que toda atividade de conhecimento, por mais elevada que seja, exige um enraizamento vital, não havendo ver, por mais desinteressado que seja, que não implique um fazer e não engaje a carne
É possível avançar ainda mais na caracterização desse movimento, perguntando como nomear um fazer aparecer que se confunde com um tender para, experiência que se faz no desejo, proposto então para caracterizar esse movimento subjetivo originário-
Não se trata do desejo no sentido psicológico de certa relação com o outro, mas da dimensão ou modo de ser que nessa relação se descobre e que se reencontra no cerne da subjetividade, sendo ao desejar que existimos plenamente como sujeito, mais próximos do que constitui seu modo de ser fundamental
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O desejo empírico, como relação com um outro, conduz a um desejo transcendental relativo à relação do sujeito com o mundo, sendo desejar antes de tudo descobrir o outro através do movimento que a ele me leva, fazendo aparecer seu objeto ao aproximar-se dele
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Outro traço do desejo, que o distingue da tendência ou da necessidade, é que a obtenção de seu objeto não o aplaca mas o relança, de modo que o que o satisfaz o escava em vez de colmá-lo, distinguindo-se assim da necessidade, plenamente aplacada pela obtenção do objeto que lhe falta
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O desejo não é falta de algo determinado suscetível de aplacá-lo, pois o que lhe falta é da ordem do nada, o objeto do desejo dando-se como em falta em relação a algo que o excede, aquilo que seria seu objeto verdadeiro sem, contudo, ser um objeto
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O desejo descobre então que aquilo que atinge não era o que desejava, já que não o aplaca, sendo o verdadeiro objeto do desejo descoberto em seu próprio defeito, que se manifesta nos próprios entes finitos e não tem outra teor de ser senão esse defeito mesmo, como avesso do objeto finito
Essa dimensão de excesso puro, revelada como polo verdadeiro do desejo, corresponde exatamente ao que se disse do mundo como profundidade interna ou transcendência pura do sensível, legitimando de novo o recurso ao desejo para caracterizar o sentido de ser desse sujeito relativo ao sensível-
Se toda aparição sensível é abertura do mundo, um sujeito senciente deve ser capaz de relacionar-se com o mundo como tal, isto é, de transcender o sensível finito rumo ao mundo, transcendência que só o desejo pode abrir, sendo ele o único a atingir o mundo como excesso interno ao ente
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Um mundo que arranca o ente da simples presença só pode dar-se a um modo de existência que arranca o sujeito de si mesmo, correspondendo à insaciabilidade do desejo essa profundidade irredutível a todo ente sensível que só nele se dá porque nele se preserva, sendo por não ser outro que o sensível que o mundo consegue dele diferir, isto é, transcendê-lo radicalmente
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