estudos:barbaras:sartre-ser-nada
Sartre, Ser e Nada
BARBARAS, Renaud. Sartre, désir et liberté. Paris: PUF, 2005.
-
Na Krisis, Husserl atribui à fenomenologia a tarefa de elucidar o a priori universal da correlação, que liga essencialmente o ente transcendente e seus modos subjetivos de doação, sendo essa relação constitutiva de ambos os termos sem que se dissolvam numa unidade superior
-
a citação segundo a qual todo ente se mantém em correlação com os modos de doação que lhe pertencem numa experiência possível
-
a epoche designando o acesso à correlação em seu lado objetivo, colocando entre parênteses a existência em si do transcendente para fazer aparecer seu pertencimento à fenomenalidade
-
a intencionalidade qualificando o ser da consciência como visada daquilo que não é ela, consistindo a tarefa da fenomenologia em determinar o sentido de ser do sujeito e do ente de modo que sua correlação seja possível
A démarche de Sartre, ao menos em O ser e o nada, releva incontestavelmente da fenomenologia, desembocando a análise do para-si, nas duas primeiras partes da obra, numa caracterização da consciência intencional como desejo-
a compreensão de que a intencionalidade não pode repousar sobre atos objetivantes mas remete a um ato não objetivante manifestando um rapport de ser, o desejo designando relação constitutiva e não temática ao objeto
Contudo, ao caracterizar o desejo como falta, Sartre falta justamente sua essência e se impede de pensar a correlação, enraizando-se esse fracasso num pressuposto ontológico fundamentalmente realista que introduz uma dissimetria entre o para-si e o em-si-
Sartre situando o em-si fora de sua fenomenalidade, o que equivale a não efetuar a epoche fenomenológica, sendo a correlação falhada do lado do polo transcendente
-
o desejo que caracteriza o para-si em sua relação ao em-si só podendo então ser compreendido como falta incolmável, aspiração a uma totalidade por princípio irrealizável
Na Introdução de O ser e o nada, Sartre recusa a versão husserliana da constituição desenvolvida nas Ideen I, acusando Husserl de recair numa forma de fenomenismo, pois se o objeto repousa sobre dados hyléticos seu ser seria puro não-ser-
a fórmula husserliana toda consciência é consciência de algo significando, para Sartre, que a consciência nasce voltada para um ser que não é ela, posição de um ser transcendente
-
a conclusão de que a consciência não se relaciona consigo mesma como se relaciona com o mundo, sendo antes rapport imediato e não cognitivo de si a si
-
a citação segundo a qual a consciência não é um modo de conhecimento particular chamado sentido íntimo, mas a dimensão de ser transfenomenal do sujeito
-
a transfenomenalidade do ser da consciência exigindo a do ser do fenômeno, que Sartre nomeia em-si, pura identidade e densidade sem a menor distância a si
A primeira parte de O ser e o nada remonta, a partir da interrogação, à essência do para-si, revelando-se a liberdade na angústia como experiência do caráter não determinante do motivo em relação ao ato-
a má-fé permitindo acessar esse sentido último da consciência, pois só há verdadeira mentira a si se a consciência é por natureza o que não é
-
a lei de ser do para-si sendo o que Sartre chama presença a si, não coincidindo consigo mesma mas também não podendo deixar de ser si, zero de diferença que é ao mesmo tempo identidade
Essa análise conduz Sartre a abordar a relação do para-si ao em-si, o surgimento do nada procedendo necessariamente de um ato aniquilante do próprio ser, já que o nada não pode ser senão se confundindo com o ser-
a citação segundo a qual nenhum ser pode produzir ser e nada pode advir ao ser pelo ser, salvo o nada, sendo este a possibilidade própria do ser e sua única possibilidade
O surgimento do para-si deve ser compreendido como procedendo de uma falha ontológica do em-si, que busca se descomprimir para se fundar, mas essa tentativa aborta na nadificação do em-si-
a citação sobre o ato sacrificial do em-si, cuja tentativa de se fundar não pode senão degradar-se em para-si
Resta fundar no próprio para-si a abertura ou êxtase rumo ao em-si, o que se dá através da noção de falta, definida nos Cadernos da estranha guerra como determinar-se a si mesmo como não sendo aquilo cuja existência seria necessária e suficiente para dar uma existência plena-
o desejo sendo a essência da consciência intencional por permitir pensar um rapport constitutivo que preserva a alteridade, uma presença sob o modo da ausência
-
a citação segundo a qual, tal como na má-fé, o desejo só é possível se o para-si é por natureza falta
Resta elucidar o que se deve entender por desejo, sendo significativo que Sartre assimile o desejo à falta e faça desta a própria essência do desejo, o que compromete gravemente o avanço representado pela abordagem da intencionalidade em termos de desejo-
a análise da falta fazendo aparecer uma trindade: o faltante, aquilo a que falta o faltante e uma totalidade desagregada pela falta, o faltado
-
o que é faltado pelo para-si sendo a impossível identidade do em-si e do para-si, um para-si que seria si, síntese impossível conciliando a transparência da presença a si com a compressão do em-si
-
a citação segundo a qual o homem é o ser que projeta ser Deus, sendo esse modo de ser justamente o que se atribui a Deus
O que é faltado pelo para-si, que Sartre chama valor, é a síntese do em-si e do para-si, respeitando essa análise o caráter por essência incolmável do desejo que o distingue da necessidade, o desejado exacerbando o desejo à medida que o satisfazEssa caracterização do para-si como falta responde à questão do fundamento da abertura do para-si ao em-si, sendo o próprio desejo intencionalidade, consciência de segundo o sentido husserliano-
a determinação do para-si como falta respondendo às exigências do a priori correlacional, monetizando-se a aspiração ascendente do para-si em movimento horizontal rumo à exterioridade do mundo
O surgimento do para-si a partir do esforço do em-si para se fundar e o movimento do para-si rumo ao si que lhe falta descrevem, na verdade, uma única e mesma situação vista sob dois ângulos opostos-
a citação segundo a qual todo processo de fundamento de si é ruptura do ser-idêntico do em-si, recuo do ser em relação a si mesmo e aparição da presença a si
Ao evidenciar no cerne do para-si uma falta irredutível correlativa ao êxtase passivo do em-si, Sartre dá conta da correlação fenomenológica como relação constitutiva preservando a diferença dos termos, codependência na separação-
a citação final segundo a qual tudo se passa como se o mundo, o homem e o homem-no-mundo não conseguissem realizar senão um Deus malogrado
-
a correlação sendo, portanto, menos descrita em si mesma do que reconstituída a partir da hipótese de uma totalidade desintegrada
Essa análise deixa um sentimento de insatisfação, pois é impossível pensar o desejo a partir da falta tal como Sartre a define, uma vez que, se a totalidade é verdadeiramente impossível, não se compreende como ela pode ainda faltar, isto é, ser ao menos visada-
a alternativa entre manter o abismo ontológico entre em-si e para-si, renunciando então à correlação, ou partir efetivamente da correlação, concluindo que a totalização não é apenas ideal
Sartre falta o desejo, essência da intencionalidade, tanto por excesso quanto por falta de distância, sendo faltado por falta de distância ao ser definido como falta de uma totalidade determinada-
o desejo distinguindo-se da necessidade justamente porque o desejado o exacerba à medida que o satisfaz, não sendo pois sua negatividade da ordem da falta
-
Sartre faltando então o desejo por excesso de distância ao postular a impossibilidade principial do faltado, não podendo haver desejo se o desejado não pode ser de modo algum
A análise sartriana é marcada por um afastamento entre uma intuição particularmente fecunda, a de que a essência da intencionalidade é desejo, e uma conceituação que não consegue restituir sua significação verdadeira por identificá-la à falta-
Sartre permanecendo prisioneiro de um positivismo ontológico que o impede de conceber a negatividade do desejo senão como vazio de algo
-
o desejo não sendo falta mas além da falta, permanecendo por esclarecer o sentido de ser dessa negatividade enquanto falta sem conteúdo
As razões desse fracasso residem no próprio ponto de partida, na dissimetria ontológica da fenomenologia sartriana, que não confere o mesmo estatuto ao sujeito e ao transcendente-
a citação segundo a qual a consciência considerada à parte é apenas uma abstração, mas o próprio em-si não precisa do para-si para ser
-
Sartre introduzindo assim, de modo realista, uma cisão entre o ser e o fenômeno, reconstituindo a fenomenalidade a partir da relação entre o para-si e um em-si que repousa em si mesmo, tratando-se de uma fenomenologia sem fenômenos
-
a citação segundo a qual a totalidade indissolúvel de em-si e para-si só é concebível sob a forma do ser causa de si
-
toda gênese da fenomenalidade a partir do em-si sendo impossível, por serem dois modos de ser radicalmente distintos e mutuamente excludentes, salvo assumindo um naturalismo ingênuo
A fenomenalidade é desconhecida por falta na posição inicial de um em-si hipercomprimido e por excesso na de um ser causa de si, não convindo nenhuma das duas fórmulas à fisionomia da fenomenalidade-
a teoria do desejo como falta aparecendo como consequência dessa pulsação entre compensações mútuas pela qual Sartre tenta alcançar a fenomenalidade sempre a faltando
Essa longa análise reconduz à leitura de Husserl em que se enraíza a evidenciação do ser transfenomenal dos fenômenos, reprovando Sartre a Husserl sua teoria dos vividos por fazer repousar a transcendência do objeto num puro não-ser-
a citação sobre a impossibilidade de princípio de os termos em número infinito da série existirem ao mesmo tempo diante da consciência, sendo sua ausência que lhes confere o ser objetivo
-
Sartre opondo o vazio da consciência à plenitude impressional dos vividos e a densidade do em-si ao não-ser do objeto, sendo a consciência nada para que os fenômenos sejam
Esse reviramento é discutível, pois não se vê como tal em-si poderia se fenomenalizar, e a posição de Sartre permanece tributária de uma leitura talvez radical e simplificadora de Husserl, cuja teoria dos horizontes visa justamente abalar essa concepção ingênua da presença-
a tarefa da fenomenologia consistindo, ao contrário, em partir dessa intuição husserliana fundamental de uma presença envolvendo uma dimensão de ausência, uma doação na distância para além da alternativa simples do ser e do não-ser
estudos/barbaras/sartre-ser-nada.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
