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Interrogação filosófica

BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991

Capítulo 4 A interrogação filosófica

  • A filosofia reflexiva, quer conduza à exibição de uma essência quer à afirmação do em si pela mediação de uma negação, revela-se forma de pensamento imediato que pensa a presença de maneira frontal, como coincidência ou proximidade, sendo o Ser sempre alcançado sob a figura do ente e, por isso, jamais apreendido radicalmente
    • Essa limitação da reflexão procede de uma ingenuidade quanto a si mesma, pois em todos os casos ela se ignora como problema, aparecendo-se já acabada, possível por princípio, sendo o momento da reflexão sempre silenciado em proveito do ente que se esgota em reencontrar
    • A filosofia do em si desvia-se de sua própria possibilidade como filosofia e, portanto, da fenomenalidade do Ser, dissolvendo-se em proveito da coisa existente e desconhecendo que o ser-posto é um ser-pensado
    • A filosofia da essência, consciente do que está implicado na reflexão, esquece que esta só se dá como fato, não podendo ser considerada possível por princípio, definindo então a essência como a necessidade a que o Ser está submetido, ignorando a pertença da fenomenalidade ao Ser
    • Faltando uma interrogação sobre sua própria possibilidade, a filosofia reflexiva não pode dar lugar a uma ontologia verdadeira, sendo tomando a medida do estatuto da reflexão filosófica que Merleau-Ponty abre o caminho da ontologia, definindo a filosofia como espanto diante de si mesma, e assim como interrogação pura, descobrindo a interrogação como rapport último ao Ser e órgão ontológico, e o mundo existente como existindo no modo interrogativo
  • Enquanto objeto de interrogação, o Ser não é estranho à ordem do sentido, pois próprio de uma questão é comportar a possibilidade de uma resposta ao menos como horizonte, nisso residindo a verdade do idealismo, sem que se recuse a ordem da essência
    • O Ser, enquanto questionado, revela-se igualmente irredutível a uma colocação em presença numa pura significação, pois o próprio da interrogação pura é a questão não aceitar resposta que a encerre, sendo o sentido sentido interrogativo, presente como a interrogar, retirando-se atrás da questão que o atinge
    • A interrogação procede de dupla polaridade: o Ser é o que interrogo, o que é visado no questionamento, mas é igualmente o que me interroga, mantendo espécie de cegueira e espanto no próprio gesto que dele se apropria, definindo a interrogação a realidade última de uma abertura ao Ser da qual sujeito e objeto são momentos já abstratos
    • Definir a filosofia como interrogação é atribuir ao Ser o que a filosofia reflexiva atribuía à subjetividade, reapreendendo a interrogação como modo de ser do Ser, havendo uma profundidade do Ser que não repousa sobre sua distância a um sujeito mas é dela constitutiva, não sendo um sujeito que mantém o Ser à distância, mas este que se mantém em sua própria distância
    • A filosofia reflexiva mantém o princípio da coincidência contra o fato atestado da não coincidência, impondo a experiência uma não coincidência de princípio, pois se a coincidência nunca é senão parcial, não se deve definir a verdade pela coincidência total, sendo o afastamento também abertura à própria coisa, entrando em sua definição
    • A presença só contradiz a ausência se de antemão compreendida como presença de um presente, de um ente, tornando-se possível, ao abandonar esse pressuposto objetivista, reencontrar a presença como o que é também ausência de todo ente determinado
  • Pensar o Ser a partir da interrogação implica renunciar a distinguir camadas ou níveis, não havendo sentido em opor, como ainda fazia Merleau-Ponty na Phénoménologie de la perception, a ordem do percebido propriamente dito à do pensamento
    • Percepção e visão são interrogação, não abrindo sobre um em si mas já entregando um sentido, sendo pensamento em estado bruto ou selvagem, transparecendo o sentido apenas como a própria espessura do mundo, e a palavra é igualmente interrogação, exegese inspirada, pois o logos silencioso da visão não se despoja de sua espessura em proveito da idealidade pura mas é a ela reconduzido
    • Enquanto o realismo, apostando na visão, esquece esta em proveito do espetáculo visível, e o idealismo, apostando na linguagem, negligencia a palavra em proveito do sentido que institui, há apenas uma única visão, nem sensível nem intelectual, que é questão, um único silêncio já palavra, mas palavra que permanece muda
    • A resposta à interrogação filosófica situa-se mais alto que os fatos, mais baixo que as essências, sendo o Ser, enquanto suscetível de ser interrogado, do lado da essência sem ser de outra ordem, mas enquanto a interrogação propriamente dita procede de um ato de ideação que requer um solo que o precede, o Ser não pode reduzir-se à pura idealidade
    • A realidade última reside no que Merleau-Ponty chama essência selvagem, possibilidade não acima da facticidade mas da própria facticidade, sendo essa a única exploração de Le visible et l'invisible, campo de significações que se referem abertamente a nossos atos de ideação e são deles extraídas sobre um ser bruto onde se trata de reencontrar em estado selvagem os correspondentes de nossas essências
  • Trata-se, finalmente, de retornar a essa ideia da proximidade por distância, da intuição como auscultação ou palpação em espessura, referência ao toque que não é metafórica mas define a interrogação em todos os níveis, inclusive linguístico
    • A fórmula de Merleau-Ponty situa-se além da oposição entre um mundo tátil e um mundo intelectual, sendo o pensamento toque e o toque pensamento, correspondendo a esse Toque originário a noção de carne, rigorosamente o corpo da interrogação, o corpo como interrogação
  • Mede-se enfim mais claramente a significação do projeto de tomar posse da diplopia ontológica própria do pensamento ocidental, desenhando Merleau-Ponty o terreno em que se enraíza essa alternância, tentando apreender cada termo segundo o movimento de sua passagem ao outro
    • A noção de essência selvagem descreve esse nível último, onde o fato só é como a possibilidade que o articula e a essência só faz sentido enquanto permanece presa na facticidade, designando o Ser de interrogação a Mediação como realidade derradeira, havendo em certo sentido apenas a mediação
    • Realismo e idealismo não são tanto superados quanto restituídos em sua verdade, como polos de uma única teleologia: a verdade do realismo é que só há transcendência como fundo ou solo de um devir do sentido, e contudo, sendo esse devir infinito, estamos de ponta a ponta na transcendência
    • A verdade do idealismo é que só há significação como experiência, prova de um mundo, percebido ou cultural, e contudo, por sua infinitude, essa teleologia é sem começo, sempre já realizada por nunca o ser plenamente, de modo que habitamos de ponta a ponta a ordem do sentido
    • Nessa vida teleológica do Ser selvagem funda-se a unidade verdadeira de idealismo e realismo, unidade que não é confusão mas esse desequilíbrio em que, embora efetiva, a diferença dos termos permanece inatribuível, sendo por isso essa mediação inapreensível e o pensamento quase inevitavelmente fadado a fixá-la de um lado e outro de si mesma
    • A filosofia idealista tem razão no que nega, embora o sentido não possa confundir-se com a positividade do eidos, e a filosofia realista tem igualmente razão no que nega, embora o em si não constitua de modo algum a verdade da transcendência
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