User Tools

Site Tools


estudos:barbaras:fenomeno:espaco-tempo

Espaço-Tempo

BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991

Capítulo 3 A espaço-temporalidade originária

  • Tentou-se explicitar a noção de carne através da de dimensão, apreendida do ponto de vista do rapport originário entre coisa e mundo, sendo preciso agora caracterizar a dimensionalidade ela mesma, atingir o coração da carne, da fenomenalização, vindo ao primeiro plano os conceitos de espaço e tempo, cujo cruzamento constitui a carne

§ 1 A filosofia e o espaço

  • A reflexão de Merleau-Ponty sobre o espaço, dada em L'œil et l'esprit, está implicada por sua interrogação sobre a visão, único acesso ao que não é eu, não sendo ver coincidir cegamente com o objeto mas desdobrar exterioridade
    • Descartes aparece como interlocutor privilegiado por superar o empirismo que aborda o espaço como abstração dos conteúdos sensíveis, fazendo aparecer a extensão como o próprio ser dos objetos, sendo a coisa res extensa, objeto transparente ao entendimento
    • Merleau-Ponty só reconhece valor negativo à démarche cartesiana, verdadeira no que nega, falsa no que afirma, sendo o mérito reconhecer espacialidade irredutível às qualidades sensíveis, o erro erigir em estrutura do Ser uma propriedade dos seres
    • Descartes nunca pretendeu eliminar o enigma da visão, havendo ao lado da visão pensada uma visão que tem lugar, pensamento honorário, esmagado num corpo seu, introduzindo entre espaço e pensamento a ordem autônoma do composto de alma e corpo
    • Essa dimensão do Ser abissal é afastada por Descartes no instante mesmo em que é reconhecida, pois a clareza e a distinção permanecem critério do discurso verdadeiro, sendo o único meio de pensar a visão fazer dela pensamento de ver
    • Uma filosofia da visão não é obrigada a se desligar de seu exercício efetivo para fazer dela intelecção, sendo o propósito de Merleau-Ponty mostrar que um pensamento do espaço é possível sem reabsorvê-lo no pensamento de entendimento
    • A solução reside na atividade pictural, onde se encontra efetivamente superada a alternativa entre visão sem distância e pensamento sem enraizamento espacial, fazendo-se a visão filosofia pela pintura, cabendo ao filósofo prolongar o silêncio do pintor em sua própria palavra
    • Só há verdadeiro pensamento do espaço como pensamento no espaço, aquele mesmo que anima o pintor não quando exprime opiniões sobre o mundo mas no instante em que sua visão se faz gesto, quando, dirá Cézanne, ele pensa em pintura

§ 2 A profundidade

  • A reflexão de Merleau-Ponty sobre o espaço centra-se numa meditação da profundidade, contada a partir do sujeito, correspondendo ao próprio desdobramento da exterioridade, não se marcando sobre o objeto mesmo mas pertencendo à perspectiva
    • A profundidade só pode ser caracterizada de modo paradoxal: vejo objetos que se escondem um ao outro e que, portanto, não vejo, vendo-a e não sendo ela visível, pois se conta de nosso corpo às coisas
    • Do ponto de vista cartesiano esse paradoxo é falso mistério, sendo a profundidade apenas outra largura, distância efetivamente desdobrada entre meu corpo e as coisas para espectador convenientemente situado, tendo eu apenas incapacidade de dominar essa distância
    • A espacialidade da consciência significa apenas sua atribuição a um corpo objetivo, a um fragmento de extensão, sendo assim porque a profundidade é perdida por excesso, sempre já desdobrada como distância objetiva, que é também perdida por defeito, concebida como inacessível
    • Os sinais que deveriam nos introduzir à experiência do espaço só podem significar o espaço se já estão tomados nele e se ele já é conhecido, não podendo a concepção intelectualista dar conta da experiência específica da profundidade
  • O espaço só pode ser dado a quem nele está, sendo próprio do espaço tudo compreender, englobar o que o engloba, não tendo em nenhum caso significação objetiva propriamente local a pertença da experiência ao espaço
    • As coisas fogem num afastamento que nenhum pensamento transpõe, mas esse ultrapassamento não se converte em extensão pura, sendo também proximidade e, nisso, o espaço me pertence, sendo a pertença da percepção ao espaço igualmente pertença do espaço à percepção
    • A profundidade, afastamento que não pode ser reportado sob forma de traçado nas coisas, é a primeira dimensão, correspondendo ao desdobramento originário da espacialidade, de outra ordem que a distância efetiva, situando-se aquém do espaço métrico
    • Dizer que a coisa está lá exclui justamente que esteja no espaço como num continente, significando que seu lá não pode ser exibido por si mesmo, distinguido de sua aparição como tal coisa, não se emportando sua transcendência sob forma de meio de transcendência
    • Meu corpo não está no espaço: é um aqui absoluto, correspondendo a distância da coisa a um lugar incomparável com meu aqui, sendo o lá também absoluto, não sendo porque a coisa está a distância que está lá, mas porque está lá que está a distância
    • A experiência do espaço é a prova de uma espessura ontológica mais que de uma quantidade percorrível, permanecendo a distância verdadeira infra-geométrica, esse desvio que não é rapport entre termos previamente postos
    • A coisa só está no espaço na medida em que, nela, esse espaço permanece invisível, só se afastando com a condição de que esse afastamento não seja o avesso de uma proximidade, só havendo espaço se esse longínquo não for ele mesmo transponível
  • O espaço é ordem da coexistência, dando-se nele as coisas juntas, não se articulando as coisas em virtude da extensão em que estão situadas, sendo antes a coexistência mesma o que primeiro se dá, pela profundidade coexistindo de perto em perto, deslizando uma na outra
    • A coisa não está situada aqui em vez de alhures: está alhures permanecendo ela mesma, situando-se aqui, ou antes sendo seu aqui, concentrando em seu lá toda localidade, cristalização de uma localidade pré-espacial
    • Por ser de dimensão infinita, o espaço não pode ser plenamente desdobrado, devendo permanecer aquém de si mesmo, desvio sem medida, fazendo-se o espaço coisas para permanecer o que é, ou seja, para contê-las todas
    • A coisa não é a única visível, plenamente determinada e localizável, permanecendo retida nessa profundidade que por outro lado preserva, emergindo de um fundo que não consegue concentrar totalmente
    • A profundidade é o meio que as coisas têm de permanecer nítidas, de permanecer coisas, sem serem o que atualmente olho, exalando-se toda coisa pela espessura de um meio sem coisa em que a presença de todas as outras permanece desenhada
    • Retida nessa profundidade, cada coisa está de certo modo em torno de si mesma, entre si mesma e as outras, na junção, reunindo o espaço que se confunde com sua opacidade para se articular com todas as outras
    • O enigma da profundidade é o que há entre as coisas, sendo esse desvio que não é intervalo, lugar homogêneo ao que as coisas ocupam por outro lado, sendo a invisibilidade do desvio que assegura precisamente seu afastamento
    • As coisas não ocupam lugar mas são o lugar, seu próprio lugar, espacializando-se em vez de estarem situadas no espaço, dando a profundidade lugar às coisas, sendo o lugar primordial indistintamente lugar e acontecimento
    • A cor e o espaço não podem ser tratados separadamente, revelando a pintura que é junto que se deve buscar espaço e conteúdo, não tendo as coisas limites definidos enquanto têm lugar, espacializando-se ao nível de sua qualidade

§ 3 O espaço é tempo

  • A profundidade é a primeira dimensão, não porque não haja formas definidas senão estipulando distância, mas porque libera sentido inteiramente outro da dimensão, dimensionalidade originária irredutível às dimensões do espaço métrico
    • Não é porque minha profundidade se resume a uma largura para outro que a largura para mim é apenas o pressentimento da profundidade do objeto, não estando os aspectos da coisa lado a lado na largura mas confundindo-se com a eclosão da coisa
    • A hipótese de deduzir a profundidade a partir da grandeza aparente do objeto carece de sentido, sendo um objeto que se afasta o mesmo objeto visto de mais longe segundo outra profundidade, explicitando as dimensões do espaço objetivo uma profundidade não ela mesma desdobrada

§ 4 O problema do tempo

  • A reflexão sobre o tempo é eixo primordial da filosofia de Merleau-Ponty, representando também ponto da filosofia de Husserl sobre o qual concentra particularmente sua atenção, fazendo o partilhar entre a versão idealista da constituição e essa última consciência que constitui a temporalidade do vivido
    • Husserl define longamente a consciência pelo esquema Auffassung-Inhalt mas dá passo decisivo já nas Conferências sobre o tempo, reconhecendo que essa operação pressupõe outra mais profunda pela qual o conteúdo é preparado para essa apreensão
    • A teoria do Presente vivo evidencia a descrição da intencionalidade em termos de atos, matéria e forma, como pertencente a esse mal-entendido de Husserl consigo mesmo, sendo a intencionalidade operante que anima o tempo a verdade da intencionalidade tética
    • A Phénoménologie de la perception encerra-se num capítulo consagrado à temporalidade, retomando essencialmente a teoria do Presente vivo, mas os textos posteriores marcam refluxo dessa teoria, indicando esse silêncio relativo a consciência da necessidade de retomada
    • Nas notas de trabalho de Le visible et l'invisible, Husserl é criticado em termos que já não são os da Phénoménologie de la perception, sendo posta em questão a elaboração a que dera lugar a teoria do tempo nesta última obra
    • O tempo se dá como transcendência originária que, dando-se, não pode proceder de um transcendente, mas cuja doação, sendo doação de uma transcendência, não pode remeter a imposição de sentido, não estando a consciência no tempo nem o tempo na consciência
    • A solução husserliana repousa na noção de retenção, exemplificada na melodia: os presentes de som escoam-se continuamente mas tal presente é retido no presente seguinte, sendo toda a força da análise a determinação da retenção como intencionalidade originária
    • O som escoado é um rememorado primário, não outro som mas outra presença do som, sua presença como ausência, sendo a consciência do passado antes consciência ao passado, modalidade pela qual a consciência é seu próprio passado sem nele se perder
    • Sobre a retenção repousa a possibilidade de cada som aparecer em continuidade com os outros, manifestando cada som a melodia que contudo constitui, superando-se com a retenção a dualidade de matéria e forma da constituição da coisa

§ 5 O presente dimensional

  • Merleau-Ponty busca evidenciar desvio entre as implicações da noção de retenção husserliana e as categorias através das quais ela se explicita, sendo o tort de Husserl ter descrito o encaixamento a partir de um Präsensfeld considerado sem espessura
    • Se o presente é primeiro acentuado, presente antes de tornar-se passado, então essa apresentação do passado em que consiste a retenção só pode significar a posição desse presente sob forma de um passado disjunto de sua apresentação
    • Desde que a pontualidade do presente é mantida, o modo específico de presença do passado na retenção é abolido, transferindo-se inevitavelmente a positividade do presente ao passado que se torna, ultrapassando-se a presença irredutível do passado para a presença de outro presente que ele foi
    • A retenção husserliana impõe renunciar à consciência protoimpressional, não podendo o passado se apresentar como ausência senão na medida em que não foi primeiro presente, reintroduzindo Husserl, partindo de presente pontual, a cisão entre matéria e forma que essa noção deveria contestar
    • A limitação da analítica intencional é subentender lugar de contemplação absoluta de onde se faz a explicitação intencional, podendo abarcar presente, passado e abertura ao futuro, ordem da consciência das significações onde há evidência do desvio entre passado e presente
    • O momento da passagem é inevitavelmente perdido, sendo o passado caracterizado como o que não é presente em vez do que já não o é, tornando-se ser positivo sobre o qual repousa a negação temporal, degradando-se a presença do som em pura ausência
    • O problema do tempo só pode ser resolvido renunciando à pontualidade do presente: a contradição só é levantada se o novo presente for ele mesmo transcendente, sabendo-se que não está lá, que acaba de estar lá, nunca coincidindo com ele
    • Não havendo presente senão como não atualmente presente, transcendente, não sendo outra coisa que presente mas sua própria despresentação, deslocando-se além de si mesmo, sendo esse mesmo deslizamento, só podendo a ausência se apresentar se o presente for ausente a si mesmo
    • O passado não é outro que o presente, ainda presente, porque o presente se ausenta a ausência pode se apresentar, só podendo o passado se dar ainda presente porque o presente nunca o foi, reduzindo-se o tempo a uma única dimensão, presente ou passado indiferentemente
    • A relação do presente ao passado deve ser caracterizada como quiasma: o presente envolve o passado porque este se apresenta como tal, mas o passado envolve o presente porque, para dar lugar ao passado, o presente deve deslizar nele, sendo isso mesmo a carne
    • O fenômeno de escoamento contém a simultaneidade, a passagem, o nunc stans, a corporeidade proustiana como guardiã do passado, imersão num Ser de transcendência não reduzido às perspectivas da consciência, marcando esse reenvio intencional recíproco o limite da analítica intencional
    • Não há, rigorosamente, presente nem passado, mas a própria passagem, Ser vertical, dimensionalidade que só permanece ela mesma tornando-se sempre outra, cuja plenitude só se sustenta fazendo-se incessante novidade
    • Passado e presente são simultâneos porque o presente procede de um Ser cuja transcendência só se sustenta de sua manifestação no presente, fazendo-se sempre novo o Ser pelo tempo para se reencontrar sempre a si mesmo, tratando-se de encontrar no presente um sempre novo e sempre o mesmo
    • A noção de carne corresponde à decisão de pensar até o fim o que, através da noção de retenção, é ao mesmo tempo desvelado e recoberto por Husserl, tratando-se de apreender o tempo como ser, tempo-coisa, tempo-ser, matriz simbólica, sistema que abarca tudo, Dimensão universal, isto é, carne

§ 6 O tempo é espaço

  • Reapreendida em toda sua profundidade, a temporalidade não pode mais ser situada em oposição simples ao espaço, pois este só é ele mesmo na medida em que o permanecer que institui não se realiza em extensão
    • Assim pensada, a profundidade abre para o passado e o futuro tanto quanto para o alhures, pois para ser profundidade deve encerrar interioridade pré-espacial, não havendo presença espacial senão se essa espacialidade não é ela mesma desdobrada mas recolhida na coisa
    • O desvio de si, o passar do presente instauram um permanecer que transcende o eixo do tempo como sucessão de presentes, sendo a contemporaneidade do presente às outras dimensões do tempo procedente de uma estatura do tempo mesmo
    • O próprio do tempo é ultrapassar-se como sucessão em proveito de realidade que, propriamente, não passa, rassemblando-se o tempo além de si mesmo sob forma de presente dimensional ou vertical onde se institui a equivalência universal do mundo
    • A realidade última situa-se além da oposição entre espaço e tempo, sendo a mesma profundidade ontológica que Merleau-Ponty reencontra através dessas duas dimensões fundamentais, tratando-se de apreender o nexo, nem histórico nem geográfico, da história e da geologia transcendental
    • A profundidade não é extensão, propriamente espacial, encerrando tudo o que pode advir, sendo antes o fundo de toda presença, mas não é tampouco puramente temporal pois nela tudo permanece contudo
    • Não há simultaneidade verdadeira pois não há nada em que ela possa advir, nenhuma Natureza em si, sendo o Ser feito de minha carne, impedindo a copresença de todo ente a todo ente que lhe seja atribuído um lugar
    • É precisamente para que haja copresença, equivalência universal, mundo, que o Ser não repousa num lugar, sendo para permanecer sistema que abarca tudo, carne do mundo, que a carne permanece minha, não sendo o Ser temporal no sentido em que Husserl o entendia
estudos/barbaras/fenomeno/espaco-tempo.txt · Last modified: by 127.0.0.1