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Dimensionalidade

BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991

Capítulo 2 A dimensionalidade: a coisa e o mundo

§ 1 A dimensão

  • É preciso penetrar mais fundo nesse horizonte para melhor compreender a invisibilidade própria do visível, propondo Merleau-Ponty, numa nota de trabalho sobre o mundo, substituir as noções de conceito, ideia, espírito, representação pelas de dimensões, articulação, nível, dobradiças, pivôs, configuração
    • A percepção não é posição de um conteúdo nem contato com uma coisa em si, possuindo-me a coisa percebida tanto quanto eu a possuo, percebendo eu segundo ela ou com ela mais do que a percebendo ela mesma, havendo com a primeira visão iniciação, abertura de uma dimensão que não poderá mais ser fechada
    • É preciso pensar a coisa percebida como órgão, próprio da visão só se exercer, só instalar um mundo visual, na medida em que se esquece enquanto visão
  • As coisas só são apreendidas como pertencentes à ordem visual na transição de um sentido a outro, mas uma vez instalada a visão esquece-se nas coisas que dá a ver, só sendo presentes se a visão se ignora nelas, só a manifestando a título de secreta comunidade de ser
    • A visão só é efetiva, só abre para algo, se nenhuma determinação própria se interpõe entre ela mesma e seu objeto, se ela se faz, para si mesma, não visão, cegueira, notando Merleau-Ponty que uma cor, o amarelo, se ultrapassa a si mesma ao tornar-se cor de iluminação
    • Compreender a coisa como órgão é reconhecer que ela só se mostra na medida em que não se mostra a si mesma, sendo apenas indicada como esse eixo secreto ao longo do qual se reúne sua visibilidade, dando a ver mais do que sendo vista
    • Não há, portanto, lugar para distinguir o percebente da coisa percebida, sendo esse o problema de toda filosofia da consciência, que distinguia o sujeito da visão da coisa percebida, sendo levada a pensar esta como idealidade pura
    • Ver algo não é vê-lo a ele mesmo mas nele ou por ele, advindo a visão como momento da coisa, dela indestacável, estando o percebente no próprio lugar da coisa, só a apreendendo por estar circundado por ela, imerso nela
  • Não se deve sequer dizer que a percepção é percepção de uma dimensão: ela é dimensão ou dimensionalização, exercício ou inscrição de um órgão como mundo, propondo o mundo dimensões tanto quanto é posto por elas
    • O dinamismo da carne deve ser apreendido como instituição mais do que como constituição, sendo a carne feita desses níveis, desses eixos em torno dos quais giram sujeito e objeto, não sendo a coisa verdadeiramente observável pois há sempre transbordamento em toda observação
    • Ver é apreender algo, um etwas, que não é coisa em sentido estrito, não procedendo essa incapacidade de excesso de distância mas de excesso de proximidade, pois a percepção não pode tomar distância de si mesma para exibir o nível segundo o qual desdobra o mundo
    • Assim como visão e tato só se dão como ausentes do mundo visível e tangível que fazem nascer, a coisa só é percebida se ignorada como coisa percebida, significando a aparição do mundo que há coisas mas também que nenhuma coisa se destaca dele, que esse mundo não é feito de coisas
    • As coisas são estruturas, membraduras, as estrelas de nossa vida, não diante de nós mas gravitando em torno de nós, núcleos de significação em torno dos quais pivota a vida transcendental, vazios especificados ou estruturas do vazio
  • A dimensão deve ser compreendida como princípio de equivalência, o parentesco de que testemunham os momentos do espetáculo, definindo-se cada ser percebido por uma estrutura ou sistema de equivalências em torno do qual está disposto
    • O sentido pictural germina na tela não como entidade assinalável mas sob forma de deformação coerente, trama secreta que une seus aspectos, situada entre eles como princípio de transposição, não se dando a dimensão por si mesma mas apenas nas diferenças em que advém
    • De um lado a coisa aparece e não pode ser pura multiplicidade, esboça unidade, mas de outro, sendo a própria coisa que aparece, essa unidade só se dá cristalizada em cada parte, como diferença destas, não havendo distinção entre a unidade própria da coisa e sua diversidade interna
    • Unidade pura, a coisa perderia sua transcendência; multiplicidade pura, não poderia aparecer, recuaria no em si, só havendo unidade verdadeira como as diferenças em que se dissolve para se conquistar, só havendo diferenças verdadeiras enquanto dispostas num eixo de identidade
    • O princípio de equivalência que sustenta a aparição da coisa só faz sentido se não pode ser posto por si mesmo, não se recolhendo numa unidade distinta do que unifica, havendo princípio de equivalência apenas confundindo-se com o que traz à equivalência, isto é, como diferença
    • A unidade da dimensão significa que ela é igualmente aberta, disjunta pelo que unifica, recuando a dimensão em cada uma das diferenças que acorda precisamente porque as acorda, não havendo diferença verdadeira senão se não absoluta, se não vai até o múltiplo puro
    • A dimensão é sinônima de diferença, entendida não como abismo entre diferentes mas como rasgo que ainda é tecido, disjunção que também é conjunção, ponto de articulação onde a coisa só mantém sua unidade recuando em suas diferenças
    • A unidade da coisa deve ser reapreendida como abertura de cada parte a todas as outras, abertura que é ao mesmo tempo distância, anunciando-se a coisa em cada aspecto como sua unidade presuntiva ou iminente, não havendo rigorosamente coisa nem aspectos, unidade nem diversidade, mas um único tecido unificante-diferenciante
    • Não há precessão entre o todo e as partes, só se tornando estas elas mesmas pelo todo que compõem, só se tornando aquele ele mesmo pelas partes que totaliza, dando a unidade vida às diferenças para que estas lhe insuflem a sua
    • Falar de dimensão é dizer que a coisa só se unifica permanecendo aberta, destinada a si mesma, sendo essa equivalência sem conteúdo, esse princípio de transposição, que nos faz dizer que uma coisa está ali sem que o lugar dessa aparição possa ser circunscrito
    • A dimensão pode enfim ser descrita como entre-expressão, relação de pars totalis, exprimindo cada parte todas as outras sem que essa expressão remeta a um geométrico nem que seu rapport seja mediatizado por um terceiro, faltando à expressão o exprimido que lhe confere expressividade
    • O tecido intencional é o horizonte, ser de prenhez e porosidade, que só acede à unidade sendo lacerado pelo que conjunta e faz aparecer, sendo a coisa carne, contato em espessura de si a si, revelando a dimensão o sentido verdadeiro da Gestalt de que Merleau-Ponty partira em La structure du comportement
    • A relação figura-fundo, Etwas mais simples, é o modelo de todo Etwas, chave do problema do espírito, só havendo figura retida num fundo, aparecendo o fundo na figura como aquilo cuja espessura se constitui a partir dos vazios que a rompem
  • Mede-se aqui o quanto a análise de Merleau-Ponty se realiza no elemento da linguagem, centrando-se o estudo desta na descoberta da estrutura diacrítica do signo, descobrindo a linguística que signo e significação só se tornam entes positivos por processo de diferenciação ativa
    • O sentido visado na palavra é um nada qualificado cuja unidade se desenha através da incessante diferenciação das palavras, não sendo o signo jamais verdadeiramente isolável, esboçando-se o sentido nelas como sua trama secreta e permanecendo alusivo
    • Dizer que o sentido nunca está presente em pessoa é reconhecer que se confunde com a própria coisa, que a palavra não faz senão dar a ver o mundo, sendo assim ela percepção, sendo a invisibilidade do sentido sinônima da transcendência que significa
    • Se a linguagem é percepção, a percepção pode ser compreendida como linguagem, como logos, podendo o sentido perceptivo ser descrito nos mesmos termos em que se explicitou o sentido linguístico, sendo a significação percebida, a coisa, apenas presunção de encarnação em aspectos onde permanecerá a mesma
    • Há distinção entre linguagem e percepção, de onde procede a ilusão de uma positividade da significação, pela qual a palavra opera sobre entidades já significantes, mas essa diferença é em parte ilusória, pois a significação estabelecida perde sua potência significante ao estabelecer-se, só vivendo da vida significante que engendra
    • A diferença entre linguagem e percepção vale pouco diante de sua identidade, assistindo-se na linguagem a esse engendramento do sentido de que a percepção é por outro lado o testemunho, sendo a dimensão esse logos que se pronuncia silenciosamente em cada coisa sensível
    • É preciso apreender a lei da linguagem como a lei mesma do percebido, falar à letra de uma estrutura diacrítica da coisa, só havendo diferenças de significação, sendo a Gestalt um sistema diacrítico cujo pivô é o Etwas, a coisa, o mundo, e não a ideia
    • A percepção é, rigorosamente, expressão pura, sendo preciso apreender o percebido a partir da expressão, como expressão primordial, sentido em estado selvagem, sendo o percebido dimensão para outros atos de expressão, abrindo um futuro
    • O sensível não é o outro do sentido pois compreende o destino inteiro da expressão, absolutamente unificado por unidade absolutamente presuntiva, sentido em seu grau máximo de errância, alusão pura, horizonte, sendo sua relativa positividade não ausência de significação mas excesso de sentido cristalizado

§ 2 Individualidade e generalidade

  • Como dimensão, a coisa deve ser caracterizada por sua generalidade, um ser de campo, sendo esta um modo de ser derradeiro, só havendo individualidade como generalidade ou pré-individualidade
    • A questão da individuação em Aristóteles evidencia o problema, sendo a substância composto de matéria e forma unidos por ato e potência, não podendo nem a matéria nem a forma fundar sozinhas um princípio de individuação, evanescendo a individualidade na indeterminação ou dissolvendo-se na universalidade
    • Alguns comentadores concluem paradoxalmente pela necessidade de dois princípios, mas isso apenas eludiria o problema, revelando a reflexão de Merleau-Ponty sobre a coisa que não se deve partir do indivíduo constituído ao termo de uma individuação cujos princípios se buscariam
    • Há algo paradoxal na tentativa de buscar tal princípio, pois ao querer alcançar o indivíduo ele mesmo, refere-se a outra coisa que não ele próprio, excedendo-o para uma matéria ou forma, não podendo o princípio de individuação ser princípio de individuação
    • Reconhecer indivíduos é admitir que a individualidade lhes pertence, que nada além deles mesmos os precede, sendo apenas por abstração que neles se distinguem matéria e forma, dimensão específica e dimensão numérica
    • A individualidade da coisa só se sustenta permanecendo inacabada, aquém do ponto onde poderia ser fixada como princípio, não sendo a coisa ela mesma, isto é, individual, senão se não posta por si mesma, se não possui forma própria
    • A coisa sensível está entre quantidade e qualidade, ou antes além dessa distinção, só sendo efetiva sua individualidade se não vai até o numérico nem até o específico, não havendo indivíduo senão como pré-individual, geral, em vias de individualização
    • A coisa individual é carne, multiplicidade que convém a si mesma, esboçando interioridade, mas também identidade que só é determinada por permanecer aberta, sustentando-se por permanecer presuntiva, devendo a individualidade ser pensada fora de referência a um princípio positivo, como processo, vetor
  • Compreender que a Gestalt já é transcendência, fazendo compreender que uma linha é vetor, um ponto centro de forças, não havendo linhas nem pontos nem cores absolutos nas coisas, sendo o próprio da individualidade escapar a toda busca de princípio de individuação, sendo o indivíduo que produz seus próprios princípios
  • Essa observação conduz a aprofundar o rapport da coisa com o mundo, permanecendo abstrata a primeira descrição da dimensão como unidade que só se realiza como suas diferenças, um princípio de equivalência, cabendo perguntar sobre o que essa equivalência incide
    • Compreendida rigorosamente, a dimensionalidade questiona o princípio de uma distinção entre o que pertenceria à coisa mesma e o que lhe é exterior, não podendo haver diferenças que sejam propriamente suas sem que a distinção entre o que pertence à coisa e o que lhe é estranho perca fundamento
    • Na medida em que a coisa aparece, isto é, não está presente ela mesma no que a apresenta, o momento de seu aparecer não lhe é próprio, sendo preciso pensar a fundo a unidade da dimensão e da diferença, tornando-se o fundo de que procede a coisa o seu apenas no movimento em que a manifesta
    • Reconhecer que a unidade dimensional da coisa só advém em suas diferenças é dizer que essas diferenças mergulham na espessura do mundo, pensando-se assim a coisa no próprio lugar de sua articulação com o mundo, como sua própria inscrição nele
  • Uma importante nota de trabalho mostra que, num único movimento, o amarelo se impõe como particular e deixa de ser visível como particular, sendo o Mundo esse conjunto onde cada parte, tomada por si mesma, abre subitamente dimensões ilimitadas, tornando-se parte total
    • O próprio do sensível, como da linguagem, é representar o todo não por rapport signo-significação nem por imanência das partes ao todo, mas porque cada parte é arrancada do todo, vem com suas raízes, transborda sobre o todo, transgride as fronteiras das outras
    • A percepção me abre ao mundo como o cirurgião abre um corpo, avistando por essa janela órgãos em pleno funcionamento vistos de lado, iniciando-me o sensível ao mundo, como a linguagem a outrem, por transbordamento
    • A coisa passa ao mundo que faz ver, não havendo princípio de distinção assinalável entre ambos, sem que isso signifique que a coisa se perca num fundo obscuro, pois o mundo cessaria de ser, faltando indivíduos em que possa aparecer, havendo relação de coextensividade entre coisa e mundo
    • Toda coisa é raio de mundo, toda dimensão é dimensão para o mundo mesmo, sendo o invisível do visível sua pertença a um raio de mundo, sendo preciso tomar à letra que a coisa é órgão, exatamente no sentido em que o são os órgãos dos sentidos e a palavra
    • O modo de ser derradeiro da coisa não consiste em estar situada nele mas em irradiar como Wesen ativo, consistindo em seu devir-mundo, estando a coisa entre si mesma e o mundo, sendo ponto de passagem do mundo, dobradiça
    • Que haja coisas, isto é, indivíduos, não exclui mas engendra a possibilidade da universalidade, pois sendo pré-individual, a coisa só é ela mesma exprimindo a universalidade do mundo em que mergulha, nascendo juntas universalidade e individualidade
    • Não há contradição entre o amarelo como particular e o amarelo como título de um mundo, pois é precisamente dentro de sua particularidade de amarelo e graças a ela que ele se torna universo, não estando o universal acima mas abaixo, não diante mas atrás de nós
    • A coisa só sobe à identidade na medida em que o mundo a retém em sua plenitude, havendo apenas a generalidade das dobradiças em torno das quais gravitam o individual e o universal como limites assintóticos, sendo a coisa ao mesmo tempo esse tecido, membradura, armadura, dimensão do mundo
    • A coisa só adquire sua identidade no seio do tecido que a une ao mundo, epuisando sua essência exigiria esgotar a totalidade do mundo, sendo essa a significação da pré-individualidade da coisa, sua diferença procedendo de sua identidade com o mundo
  • A relação da coisa ao mundo deve ser caracterizada como quiasma: a coisa é coisa do mundo, está toda nele, mas o mundo está todo nela, à condição de que este não seja abismo de em si, refluindo inteiro em cada coisa
    • A coisa é, na fórmula de M. Richir, lugar de mundo nos dois sentidos, tendo lugar no mundo mas como o lugar onde o mundo tem lugar, podendo ser caracterizada como aberta-abrente, só aberta se for abrente, deixando lugar ao próprio mundo
    • O fundo derradeiro do real consiste nesses raios de mundo, que só se tornam qualificáveis na medida em que a equivalência que instauram se estende aos confins do mundo, precisando o quid da extensão infinita do mundo para voltar à sua compreensão
    • A noção de elemento, definida como emblema concreto de uma maneira de ser geral, importando um estilo de ser onde quer que se encontre uma parcela dele, ilustra-se pelo exemplo do mar, que envolve antes mesmo de ser conhecido, confundindo-se com areia e rochedos ao ponto de não se saber qual empresta seu ser ao outro
    • Como o mar, as coisas são elementos, estendendo-se aos confins de um mundo, tornando-se universo para serem elas mesmas, podendo todo ente ser acentuado como emblema do Ser, sendo por sua conivência originária com um Ser que se faz ente
  • Merleau-Ponty assume a dificuldade da distinção husserliana entre horizontes internos e externos, remetendo o horizonte interno ao externo, sendo a coisa cercada pelo mundo, e o horizonte externo ao interno, sendo o mundo constituído de coisas
    • Está excluído tanto ater-se à clausura das coisas em seu horizonte interno quanto dar-se um horizonte externo puro, exigindo essa noção excluir o princípio de uma distinção unívoca entre interior e exterior, pois se os horizontes fossem verdadeiramente interiores, não haveria mais sentido em falar de horizonte
    • O horizonte interno deriva, desliza além de seus limites rumo à exterioridade, evasando-se a coisa para o mundo, sem que isso signifique ater-se apenas aos horizontes externos, pois estritamente exteriores estes se destruiriam como horizontes por razões inversas
    • O visível não é pedaço de ser bruto oferecido a uma visão total ou nula, mas uma espécie de estreito entre horizontes exteriores e interiores sempre abertos, algo que vem tocar suavemente e faz ressoar à distância diversas regiões do mundo colorido
    • A coisa é esse ponto de tangência inatribuível onde o horizonte interno deriva para o horizonte externo permanecendo ele mesmo, sendo fina película, diferença ou desfiladeiro, circunscrevendo-se juntos sua interioridade e exterioridade
    • É preciso pensar o mundo mesmo como sistema diacrítico, processo de diferenciação universal, isto é, também de alusão universal, sendo as coisas diferenciações de uma única e maciça adesão ao Ser que é a carne
    • O mundo é lugar de empilhamento, proliferação, transbordamento, promiscuidade, prenhez perpétua, parturição perpétua, onde toda coisa alude a todas as outras e se constitui como coisa por essa mesma alusão, não havendo coisas determinadas mas parentescos e diferenças
    • O sentido, em cada coisa, permanece figurado porque figura ao mesmo tempo todas as outras, sendo a individualidade da coisa sinônima de sua universalidade, não sendo esse Mundo, esse Ser, facticidade e idealidade indivisas, um no sentido dos indivíduos que contém, nem dois ou vários no mesmo sentido

§ 3 A metafórica do mundo

  • A reflexão de Merleau-Ponty é animada pela questão da metáfora, sendo decisiva aqui a influência de Binswanger, tratando-se de abordar o mundo a partir da possibilidade da metáfora e conceber a ontologia como explicitação de um transcendental da metáfora
    • É preciso inverter a ordem segundo a qual a metáfora é habitualmente descrita, não se dando primeiro seres circunscritos no mundo objetivo para depois relacioná-los por propriedades comuns, sendo transporte a metáfora nessa concepção clássica
    • A possibilidade da metáfora atesta um modo de ser irredutível ao do indivíduo determinado, repousando sobre a dimensão, procedendo desse eixo sobre o qual se constituem as coisas como variantes
    • Merleau-Ponty parece recusar o conceito de metáfora numa nota de trabalho, dizendo não haver metáfora entre o visível e o invisível, pois metáfora é demais ou de menos, mas na verdade recusa não a relação metafórica em si mas certa concepção de metáfora como transporte
    • Visível e invisível só podem ser significados um pelo outro porque não se trata de dois mundos radicalmente separados, havendo unidade mais profunda, conivência ontológica que os atravessa, sendo então a noção de metáfora como transposição inadequada por faltarem termos distintos
    • Falar de uma direção de pensamento não é recorrer a termo espacial para figurar evento mental, mas revelar uma dimensão comum à espacialidade e à significação, anterior à sua distinção, havendo dimensão mais profunda que a distinção do espacial e do espiritual, da qual ambos são cristalizações
    • As coisas procedem de uma metaforicidade geral, de participação universal que concentram ou cristalizam para se constituírem em coisas, sendo a dimensão figurativa e figurada do sentido a verdade do sentido próprio, exemplificada na fórmula de Claudel sobre o azul do mar mais azul que o sangue é vermelho
    • Azul e vermelho advêm de um comportamento único que não lhes é comum pois neles ainda não se distingue, de uma dimensão anterior à sua diferença, cristalizando essa profundidade surda que é ao mesmo tempo a do vermelho sanguíneo e a do azul marinho
    • A expressão metafórica deve ser pensada não como relação entre termos cuja significação é dada por outro lado, mas como atestação de uma realidade última, de uma prenhez cujos exprimente e exprimido são polos provisórios jamais completamente circunscritos, sendo o mundo o lugar da metáfora ou a metáfora como lugar
  • A figuração de toda coisa por toda coisa revela a textura ontológica última, confundindo-se as coisas com essa figuração, esse transbordamento, só se tornando elas mesmas na encruzilhada dos raios de mundo
    • A poesia, como trabalho da metáfora, tem significação ontológica comparável à da pintura, reconduzindo à experiência originária contra o recorte objetivo do mundo instituído pela linguagem, tentando alcançar o que excede e precede seu poder objetivante
    • Assim como a pintura restitui a coesão sem conceito, a poesia rompe, por meio da metáfora, a estruturação do mundo instituída pela linguagem comum, reconduzindo ao mundo selvagem e valendo assim como redução fenomenológica
  • A via da descoberta do Ser bruto passava por uma crítica da essência tal como Husserl a concebe, não se tratando tanto de recusar a essência quanto de reencontrar sua significação efetiva, reapreendida a partir da variação eidética de que procede
    • Se uma essência pura pudesse ser exibida, uma variação não seria necessária nem possível, faltando indivíduos sensíveis em que a essência pudesse se anunciar, mas a possibilidade da variação é incontestável, havendo sempre campo suficiente para substituir momentos da experiência
    • As coisas são variantes em sentido estrito, concreções de um tema que, sendo a variação por princípio inacabada, não pode ser posto por si mesmo, respondendo a facticidade da variante à infinitude do tema que encerra, sem negar sua identidade mas antes atestando-a
    • A essência verdadeira, a essência selvagem, consiste nesse tecido da variação, nesse tema que articula e distingue as variantes por sua essencialidade mesma excluir que possa se autonomizar, exigindo infinita diversidade, não estando acima nem abaixo das aparências mas em sua junção
    • A essência que funda a possibilidade da variação não é outra que a dimensão, invariante da variação, ponto de passagem de uma experiência a outra, que reflui na espessura de cada experiência mas retém em si cada uma como sua variante
    • Antes da linguagem, a percepção pode ser concebida como variação sobre o tema do mundo, sendo cada ente, em sua profundidade última, variante da dimensão-mundo, dimensão universal

§ 4 A carne

  • É preciso retornar, à luz dessa análise da dimensão, ao estatuto do corpo próprio, mostrando a experiência do tocante-tocado que o tato só se produz imerso num corpo, advindo apenas como essa própria corporeidade
    • O tato só é ele mesmo, sentente, na medida em que se ignora no ou como mundo que atinge, correspondendo a encarnação do tato ao fato de seu objeto não estar claramente desdobrado diante dele, dando-se apenas como presença obscura de um mundo tátil
    • A tangibilidade do corpo tocante corresponde à invisibilidade da dimensão que desdobra, só havendo tato como dimensão secreta dos tangíveis, devendo o corpo próprio permanecer ele mesmo tangível para que nele se produza um tato
  • O que vale para o tato vale para o rapport entre tato e visão e, de modo geral, para o rapport dos sentidos entre si, pois se os sentidos formassem apenas um, perderiam sua sensibilidade, sendo a pluralidade dos sentidos consubstancial à sensibilidade mesma
    • Refletir sobre o dois, o par, não é dois atos, duas sínteses, mas fragmentação do ser, possibilidade do desvio, advento da diferença, não devendo esse desvio ser entendido como pura diferença, pois os sentidos exibem também dimensão comum, abertos um ao outro
    • Visível e tangível estão montados num eixo comum, correspondendo a isso a possibilidade de exprimir tangível por visível, sendo cada sentido parte total, entregando universo completo por si mesmo e contudo aberto ao dos outros sentidos, cada sentido sendo um mundo incomunicável e contudo construindo algo aberto de saída ao mundo dos outros
    • A corporeidade do tato corresponde, em sua obscuridade, à articulação do tangível e do visível, não podendo o corpo ser pura exterioridade porque tangível e visível comunicam, nem pura reflexividade porque essa comunicação permanece dimensional
  • O rapport a si que caracteriza a carne deve ser descrito como eixo de equivalência, lugar de possibilidade de conversão das experiências cujo princípio nunca é dado, sendo esse rapport identicamente distância a si, pertença ao mundo
    • Dizer que o si é encarnado equivale a dizer que é senciente, isto é, possui vários sentidos, sendo o si o lugar de sua comunicação, correspondendo sua encarnação à distinção deles, fazendo-se o corpo percebente também mundo por não ter a dimensão realidade senão encarnada
    • O sentir está espalhado no mundo como possibilidade universal de transposição ou reversão à qual o corpo próprio mesmo participa, devendo a visão ser compreendida como visibilidade esparsa, eixo universal celado em cada uma de suas variantes
    • Corpo e mundo são variantes de uma mesma dimensão de visibilidade e, portanto, variantes um do outro, tal como as coisas do mundo, sendo o mesmo, em sentido estrutural, o que é vidente e visível, mesma membradura, mesma Gestalthafte
  • Cabe perguntar se não se deve recusar toda distinção e confundir pura e simplesmente o corpo e as coisas do mundo, pois a carne do mundo não é sentir-se como minha carne, sendo sensível e não senciente
    • A percepção de si ainda é percepção, dando um não-apresentável através de um apresentável em transparência, devendo o si ser compreendido como dimensão pois vem em transparência num ou como corpo, sendo minha própria carne um dos sensíveis onde se inscrevem todos os outros
    • Meu corpo é no mais alto grau o que é toda coisa, um isto dimensional, coisa universal, medida de todas, Nullpunkt de todas as dimensões do mundo, não sendo apenas um percebido entre outros
    • Dizer que o corpo é de meu lado não significa que se situe fora do mundo, mas corresponde à universalidade da dimensão que cristaliza, sendo essa dimensão universal só podendo apresentar-se ou cristalizar-se numa profundidade absoluta, como puro Fato
    • O corpo é mais coisa que toda coisa por ser mais dimensão que toda dimensão, cristalizando o universal, sendo o sentir ao mesmo tempo cúmulo de subjetividade e cúmulo de materialidade, de um lado e outro do mundo em cujo meio nasce
    • Há quiasma nisto: é sendo o próprio mundo, ainda não como coisa mas como sua textura ontológica, que o corpo o faz aparecer, desdobrando as dimensões em que as coisas podem se constituir, sendo o corpo próprio o meio do mundo, cercado por ele e o elemento mesmo em que o mundo nasce
    • O corpo é essa cisão originária que é igualmente identidade originária, podendo ser caracterizada como profundidade do Ser e advento do sentido, sendo o ponto-origem da fenomenalidade, fazendo aparecer o mundo por proceder de sua mais extrema profundidade
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