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GA65 Contribuições à Filosofia

(JB2015)

Pensar em sentido inverso

1. Contribuições à filosofia (Do acontecimento apropriador) (Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis)), redigida entre 1936 e 1938, embora seu plano fundamental já estivesse estabelecido em 1932, é frequentemente considerada a segunda obra magna de Heidegger depois de Ser e tempo (Sein und Zeit), ainda que os termos “sistemática” e “exposição” não lhe sejam inteiramente adequados.

2. As diferenças estilísticas e estruturais entre Ser e tempo (Sein und Zeit) e Contribuições à filosofia (Beiträge zur Philosophie) refletem pontos de partida essencialmente distintos: Ser e tempo ainda dá continuidade ao empreendimento metafísico ontoteológico, ao passo que Contribuições se origina no próprio seer (Seyn) como acontecimento apropriador (Ereignis), constituindo um texto explicitamente pós-metafísico.

3. Contribuições à filosofia pertence à transição (Übergang) da metafísica para o pensamento histórico-seeral (seynsgeschichtlich), recusando o estatuto de uma “obra” filosófica acabada e apresentando-se, antes, como curso do pensamento (Gedanken-gang), mero projeto (Entwurf) de uma obra futura, jamais escrita, intitulada Das Ereignis.

4. A história da publicação de Contribuições revela a relutância de Heidegger em discutir publicamente seus “próprios assuntos”, tendo mantido o manuscrito em segredo e adiado sua publicação, o que se relaciona com o caráter do livro como paradoxo hermenêutico consciente de si mesmo.

5. O temor de Heidegger quanto à ininteligibilidade mostrou-se justificado, pois o texto se lê como uma língua estrangeira estranhamente arcaica, embora seu método permaneça fenomenologicamente rigoroso, uma vez que o “pensar inventivo” (Erdenken) recorre a palavras alemãs estabelecidas, porém obsoletas, tratadas com sensibilidade etimológica — o que levou seu irmão Fritz Heidegger a gracejar que semelhantes escritos não seriam compreendidos antes do século XXI.

As articulações da transição

6. O caráter indicativo, preparatório e experimental de Contribuições não implica ausência de estrutura, remetendo à própria distinção estabelecida por Heidegger entre “sistema” e “sistemática”: Contribuições não é um sistema, mas é sistemática em sentido mais amplo.

7. O pensamento filosófico não pode prescindir da sistematicidade nesse sentido amplo, de modo que, nas articulações (Fügung) pós-metafísicas, o pensamento se articula com a unidade única, situada e instantânea do acontecer imprevisível do seer (Seyn).

8. Essa articulação que se articula a si mesma constitui a lei (Gesetz) do procedimento meditativo do outro início, em contraste com o sistema característico da história terminal do primeiro início.

9. A estrutura fundamental de Contribuições é simples, conduzindo o pensamento, passo a passo, desde o atual ponto de partida ultrametafísico até o outro início, pós-metafísico, mediante a projeção do espaço-de-jogo-temporal (Zeit-Spiel-Raum) da verdade do seer.

10. A transição para o outro início não consiste em progresso contínuo e linear, mas exige uma ruptura radical com a metafísica, denominada salto (Sprung).

  • A questão diretriz (Leitfrage) metafísica acerca da entidade do ente distingue-se da questão fundamental (Grundfrage) acerca do próprio seer (Seyn).
  • Essa descontinuidade impede qualquer passagem direta de uma questão para a outra, admitindo somente um salto.

11. A passagem da questão diretriz para a questão fundamental constitui um abandono abrupto do ente e do ente em sua totalidade em direção à verdade do seer, experimentada como entrelaçamento de clareira (Lichtung) e encobrimento (Verbergung).

12. Não há progressão imediata da questão diretriz para a questão fundamental; contudo, por meio da superação (Überwindung) do modo de colocação da questão diretriz, pode e deve ser preparada uma transição que prenuncie o outro início.

13. Contribuições divide-se em oito partes — uma Visão prévia (Vorblick), seis articulações (Fügung) e uma parte final intitulada “O seer” —, correspondentes às etapas do caminho da transição.

14. A primeira articulação, a ressonância (Anklang), designa a reverberação indireta e silenciosa do seer (Seyn) no interior de uma estrutura metafísica que se recusou a pensá-lo.

15. A segunda articulação, o passe ou jogo de passagem (Zuspiel), designa a introdução da questão pós-metafísica acerca do seer no interior da estrutura da metafísica e de seu primeiro início grego.

16. A terceira articulação, o salto (Sprung), designa o movimento súbito para o contexto do seer até então desconsiderado, do qual a entidade do ente constitui apenas um aspecto, correspondendo ao primeiro aspecto, não concluído, da viragem em Ser e tempo.

17. A quarta articulação, a fundação (Gründung), designa a incorporação da presença a um contexto de fundo da não presença, reconsiderando-se, assim, a partir de uma nova estrutura, aquilo que fora deixado para trás no salto.

18. A quinta articulação, os vindouros (die Zukünftigen), designa a humanidade ocidental pós-metafísica — pensadores e poetas — para a qual Contribuições prepara o caminho, caracterizada pela insistência no Da-sein (Inständlichkeit im Da-sein).

19. A sexta articulação, o último deus (der letzte Gott), designa uma divindade pós-metafísica e pós-religiosa que emerge depois da morte do Deus ontoteológico, sugerindo uma possível ruptura com a época do niilismo técnico.

20. Essa ordenação ou juntura (Fuge) de Contribuições constitui simultaneamente a estrutura articulada (Gefüge) para a transição do pensamento e uma disposição (Verfügung) para um pensamento vindouro, dizendo cada articulação o mesmo a partir de um domínio essencial diferente do acontecimento apropriador (Ereignis).

21. A parte final, “O seer” (Seyn), aborda o contexto de fundo abrangente do qual brotam as seis articulações; sua colocação no final da obra resultou de uma decisão editorial de Friedrich-Wilhelm von Herrmann, e não da ordenação original do manuscrito de Heidegger.

A singularidade única do seer

22. A seção 265 de Contribuições, “O pensar inventivo do seer” (Das Erdenken des Seyns), examina a precedência histórica do uno e da unidade no pensamento do ser (Sein), sustentando que essa precedência não pode ser derivada da lógica tradicional, mas pressupõe uma interpretação determinada do ser como presença (Anwesung).

23. A unidade, por si mesma, não constitui uma determinação originária do ser do ente; não obstante, os pensadores iniciais chegaram necessariamente a ela porque a verdade do ser permaneceu encoberta para eles, tendo o ser como presença sido conservado como a característica mais próxima do emergir (Aufgehen) do ser.

24. No outro início, essa precedência não questionada da unidade torna-se questionável e remete ao tempo, revelando que a precedência da presença abriga uma decisão (Entscheidung) indicativa da unicidade (Einzigkeit), a cada vez, e da historicidade (Geschichtlichkeit) do próprio seer.

25. A experiência da unidade do ser1 domina o primeiro início e encontra expressão no Poema de Parmênides, orientando a busca dialética da tradição metafísica subsequente — desde a ideia de Platão como o “uno sobre os muitos” até Hegel — por uma unidade unificadora da multiplicidade.

26. Não existem fundamentos lógicos para a primazia da unidade sobre a multiplicidade, pois o pensamento lógico já pressupõe a estrutura heraclítica do logos como rede diferenciadora e unificadora de significatividade, sendo a presença como tal o contexto unificador absoluto desprovido de exterior.

27. Quando os limites do primeiro início são rompidos, a unidade simples da presença perde seu privilégio evidente e é incorporada à interação mais ampla das dimensões de fundo — o ser2 —, de modo que a krisis de Parmênides, que exclui “não é” de “é”, se revela como decisão.

28. A Introdução à metafísica (Einführung in die Metaphysik) (GA40), de Heidegger, discute a singularidade (Einzigartigkeit) do ser (Sein) como incomparável a qualquer outro ente, sendo seu único “outro” o nada (Nichts).

29. Em Conceitos fundamentais (Grundbegriffe), Heidegger desenvolve essa interpretação, distinguindo o ser como o mesmo (das Selbe) — que necessita somente de unicidade — da mera igualdade (das Gleiche), que requer algo adicional; o ser é, portanto, simultaneamente o mais comum de tudo e único.

  • Reafirma-se, assim, a compreensão parmenídica do ser1 como destituído de identidade conceitual, articulando-se, em vez disso, uma identidade universal através de todos os nomes e conceitos.
  • O que está em questão para Heidegger é a reconsideração pós-metafísica dessa unicidade, já vislumbrada no primeiro início.

30. O seer (Seyn), como ampliação pós-metafísica do ser1 por meio do ser2, exige que sua unicidade seja compreendida de maneira diferente, conforme ilustrado pela observação de Aristóteles, na Física, acerca do “agora” (nyn), que é a cada vez diferente e, no entanto, sempre o mesmo quanto àquilo que constitui algo presente.

31. O exemplo de uma escrivaninha ilustra que a presença concreta é singular em cada instante, enquanto sua quididade genérica — o ser-escrivaninha — permanece idêntica, consistindo seu sentido pleno como ser3 em sua situação no interior de um contexto temporal de significatividade, e não em mera identidade conceitual.

  • A quididade ou forma da escrivaninha conserva uma identidade conceitual permanente através de seus diferentes usos.
  • A plena relevância da escrivaninha também é constituída por projetos finalísticos, pelo contexto cultural e por seu estado material, nenhum dos quais se esgota em seu nome universal.

32. Podem-se distinguir quatro dimensões constitutivas do ser-aí da escrivaninha — quididade (eidos), materialidade (hyle), relevância finalística (telos) e contexto histórico-cultural —, mostrando-se uma semelhança estrutural com a posterior quadrindade (Geviert) de céu, terra, divinos e mortais, bem como com as quatro causas de Aristóteles.

  • As dimensões (1a), quididade, e (2a), materialidade, correspondem às causas formal e material de Aristóteles.
  • A dimensão (3a), relevância finalística, corresponde à causa final e ao esquema horizontal do porvir (Zukunft).
  • A dimensão (4a), contexto histórico-cultural, corresponde aproximadamente à causa eficiente e ao esquema horizontal do ter-sido (Gewesenheit).

33. Quando a presença significativa é considerada como constituída por todas essas dimensões, não há duas ocorrências equivalentes, pois cada uma constitui uma configuração singular; a unidade do ser3 não reside na universalidade, mas na constelação singular e instantânea de cada instante significativo.

34. Na “Visão prévia” de Contribuições, Heidegger contrapõe a noção metafísica de essência como generalidade à determinação pós-metafísica da essência em termos da unicidade (Einzigkeit) do seer em cada instante.

35. Em “O pensar inventivo do seer”, afirma-se que a transição para fora da metafísica conduz a unicidade do seer à vigência (Wesung), em um caráter extraordinário, singular (Einmaligen) e próprio desta única vez (Diesmaligen).

36. A unicidade e a singularidade não são atributos do seer, mas constituem o próprio seer como singularidade que deixa brotar seu próprio espaço-de-jogo-temporal, singularidade que não exclui a repetição.

37. Todo acontecimento de significatividade é singular e irrepetível em forma idêntica, embora permaneça passível de retomada ou repetição (Wiederholung), isto é, de um retorno (Wiederkehr) historicamente alterado e transformado, e não de mera condição passada.

38. O seer — o ser3 — como instanciação situacional da presença significativa funda a historicidade radical de toda significatividade, constituindo sua unicidade singular — e não uma origem posteriormente esquecida, contrariamente à suspeita de Derrida — a própria estrutura que permite ao seer “ter” uma história.

39. Em virtude de sua singularidade, o seer não pode ser alcançado mediante a questão diretriz aristotélica acerca do ente enquanto ente, pois tal questão pressupõe a universalidade e desconsidera a singularidade, constituindo essa oposição entre generalidade e singularidade uma das decisões fundamentais (Entscheidungen) entre os dois inícios.

40. A unidade pós-metafísica do seer é novamente a unidade extático-temporal de Ser e tempo, agora apreendida como característica do próprio seer, não mais se identificando o Da-sein com o ser humano como tal, mas com a insistência (Inständigkeit) no Da-sein como sítio do instante (Augenblicksstätte) do acontecimento apropriador.

41. Como sítio do instante, o Da-sein constitui uma singularidade tanto temporal quanto espacial, isto é, espaço-tempo (Zeit-Raum), fundado no acontecimento apropriador e correspondente à unicidade do seer como Ereignis.

42. As preleções de Heidegger de 1941 explicam a mudança terminológica de ek-sistência para insistência (Inständigkeit) ou intimidade (Innigkeit), motivada pelo uso público impróprio da expressão “filosofia existencial”; a insistência nomeia tanto a abertura extática quanto a relação constante com o ser do ente.

43. Contesta-se a afirmação de Dieter Thomä segundo a qual essa viragem terminológica abandona a distinção entre propriedade e impropriedade de Ser e tempo, pois a insistência corresponde precisamente à abertura “decidida” do presente como instante, já presente em Ser e tempo, enquanto a própria metafísica carece de ocasião para semelhante insistência explícita.

44. A seção 266 de Contribuições, “O seer e a ‘diferença ontológica’”, funda no seer como acontecimento apropriador (Ereignis) a diferença ontológica entre o ser1 e o ser2, sendo a insistência a relação com o seer, e a retenção produtiva (Bewahrung) da retenção encobridora (Verwahrung) do seer, a relação com o ente.

45. A metafísica concentra-se exclusivamente na retenção encobridora (Verwahrung) da presença sem seu acontecimento contextualizador, apreendendo a diferença ontológica somente como distinção entre aquilo que está presente e a presença como tal — distinção cuja forma histórica indeterminada possui seu fundamento na própria história inicial do seer.

O seer é, os entes não são

46. A seção 267 de “O seer”, intitulada “O seer (acontecimento apropriador)”, articula o seer como Ereignis mediante oito indicações numeradas que esboçam a estrutura de sua singularização, vagamente comparáveis aos semata do ser apresentados por Parmênides no fragmento B8.

47. A primeira indicação descreve o Ereignis como acontecimento de apropriação (Ereignung), articulado na distinção entre os deuses, dimensão porvindoura doadora de sentido, e os seres humanos como Da-sein, dimensão receptiva, “apropriando” os deuses o Da-sein como seu contexto de recepção.

48. A segunda indicação descreve uma de-cisão (Ent-scheidung), uma separação das dimensões divina e humana, sendo o divino dado apenas como dimensão transcendente de excesso no interior do contexto humano.

49. A terceira indicação descreve o contra-encontro (Ent-gegnung) entre deuses e seres humanos, que abre um espaço tensional de significatividade — o combate (Streit) — entre o ser humano e os deuses para os quais se orienta a significatividade.

50. A quarta indicação descreve a des-locação (Ent-setzung) das duas dimensões tensionais para o fundo, isto é, a diferenciação originária do ser3 em presença de primeiro plano — ser1 — e fundo implícito — ser2.

51. A quinta indicação descreve a subtração (Entzug) do próprio acontecimento apropriador, isto é, a evasão ou recusa (Verweigerung) do aspecto de fundo inerente ao seer.

52. A sexta indicação descreve a simplicidade (Einfachheit) do seer apesar de sua estrutura tensional e complexa, sendo o seer o acontecimento mediador simples, em si mesmo indiviso, que deixa as dimensões opostas serem aquilo que são e precede seus próprios termos relacionados.

  • O seer não deve ser confundido com uma mera relação resultante de seus termos, pois o acontecimento apropriador é que primeiramente conduz os termos relacionados a si mesmos.
  • Essa simplicidade não é vazio, mas fundamento da plenitude que brota do contra-encontro como combate (Streit), posteriormente expressa como unicidade simples (Einfalt) da quadrindade.

53. A sétima indicação descreve a unicidade (Einzigkeit) dessa simplicidade, sendo o seer incomparável a qualquer “outro”, pois constitui a diferenciação originária abrangente da qual os entes emergem, sem necessitar de uma distinção contrastante nem sequer em relação aos entes.

54. A oitava indicação descreve a solidão (Einsamkeit) do seer como acontecimento apropriador, sendo cada acontecimento de significatividade singular e incomensurável, e constituindo o próprio nada (Nichts) apenas um aspecto da diferenciação do seer, em vez da negação metafísica do ser1.

55. Essas oito indicações, assim como os sinais de Parmênides, não constituem definições nem atributos, mas perspectivas limitadas, cada uma das quais concerne ao seer em sua totalidade, sendo a unidade dessa vigência não objetiva e apreensível somente por um pensamento que se aventura no não habitual.

56. Segundo Jean Greisch, as oito indicações dividem-se em dois grupos: as indicações de (1) a (5) enfatizam o caráter diferencial do seer, enquanto as indicações de (6) a (8) enfatizam sua unidade.

57. A interação tensional entre os deuses e os seres humanos abre o contexto da presença significativa, no interior do qual surge o combate adicional (Streit), anteriormente discutido a propósito de A origem da obra de arte, entre a terra como materialidade concreta e o mundo como idealidade doadora de permanência.

58. Os entes constituem somente um aspecto e um efeito do acontecimento apropriador, conforme ilustrado pelo diagrama da protoquadrindade em Contribuições (GA65, 310), no qual o acontecimento apropriador (E) constitui o ponto de intersecção entre o contra-encontro do ser humano com os deuses e o combate da terra com o mundo.

  • O “Da” posto entre parênteses assinala o sítio finito e situado do acontecimento apropriador.
  • Conforme sugere Jeff Malpas, terra e mundo também podem ser considerados vetores espaciais de fundo da presença, tendo o “mundo” sido posteriormente substituído pelo “céu” na conferência de 1949 intitulada “A coisa”.

59. O acontecimento apropriador do seer consiste na interação unificadora e diferenciadora dessas quatro dimensões de fundo, as quais não subsistem por si mesmas anteriormente ao acontecimento, mas nomeiam diferentes vetores de um movimento unitário de geração de sentido, constituindo os entes somente o resultado situado em primeiro plano dessa interação.

60. A seção 270 de Contribuições, “A essência do seer (vigência)”, oferece uma definição condensada do seer como apropriação conquistada pelo combate (erstreitende Ereignung), reunindo o Da-sein e o deus recusado no abismo (Abgrund) de seu “entre”, no interior do qual mundo e terra se conquistam pelo combate no espaço-de-jogo-temporal (Zeit-Spiel-Raum) onde o verdadeiro passa a ser retido.

61. Essa estrutura tríplice — a tensão humano-divina, a tensão mundo-terra e o espaço de jogo espaciotemporal daí resultante — confere um sentido transitivo ao “é”, transformando a sentença de Parmênides “o ser-aí está aí, o nada não está aí” na sentença pós-metafísica: o seer (Seyn) é, os entes (das Seiende) não são.

62. A plena vigência (Wesung) do seer na verdade do acontecimento apropriador permite reconhecer que somente o seer é e que os entes não são, em contraste com a afirmação metafísica de que os entes são e de que o seer é apenas o mais ente dos entes (das Seiendste Seiende).

63. O seer “é mais” do que os entes, não no sentido metafísico de uma presença constante máxima, mas no sentido da instantaneidade singular e da situação espaciotemporal, sendo “por vezes” (zuzeiten) como acontecimento apropriador que deixa a clareira emergir como espaço-tempo.

64. Os entes “não são” no sentido de que constituem somente o aspecto explícito e situado em primeiro plano do seer, separado pela metafísica de suas dimensões implícitas de fundo, sendo a unidade do seer uma unidade singular, diferencial e, contudo, indivisível, de primeiro plano e fundo.

65. A sentença “o seer é, os entes não são” procura dissolver a interpretação equivocada da diferença ontológica como relação entre dois termos relacionados, pois aquilo que se distingue dos entes não é, ele próprio, um ente e, portanto, não pode constituir o termo de qualquer relação.

66. Os entes continuam a pertencer ao seer como retenção encobridora (Verwahrung) de sua verdade, mas jamais podem transferir-se para a vigência do seer, sendo a distinção entre os entes e o seer compreendida como o primeiro plano de uma de-cisão (Ent-scheidung) que o próprio seer é.

67. A sentença final de Contribuições não pode funcionar como enunciado predicativo (Aussage ou kataphasis), mas somente como mera indicação ou dizer (Sage ou phasis), pois o seer não pode servir como sujeito de predicação, sendo dito no “é” e por meio dele, em vez de receber a predicação de alguma coisa.

68. As formulações de Heidegger em Contribuições procuram dizer aquilo que não pode ser dito proposicionalmente, concordando parcialmente com o Tractatus de Wittgenstein quanto aos limites da linguagem, mas recusando o mero silêncio e invocando, em vez disso, a caracterização heraclítica do oráculo de Delfos, que não declara nem encobre, mas indica (semainei).

69. Esse uso indicativo da linguagem não constitui apenas uma luta contra as insuficiências da linguagem, mas sua transformação deliberada; a recusa da linguagem em declarar o acontecimento apropriador espelha a própria recusa (Verweigerung) do acontecimento de ser plenamente conduzido à presença, dando origem a uma lógica “sigética” do silenciar que faz aparecer (Erschweigen), própria da questão fundamental da filosofia no outro início.

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