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GÊNIO E DIGNIDADE HUMANOS (CH:§29)

ARENDT, H. The human condition. 2nd ed ed. Chicago: University of Chicago Press, 1998.

Talvez o melhor exemplo da frustração da pessoa humana, inerente a uma comunidade de produtores e, mais ainda, à sociedade comercial, seja o fenômeno do gênio, que a era moderna, desde a Renascença até o final do século XIX, viu como seu mais alto ideal. (O gênio criativo como expressão quintessencial da grandeza humana era inteiramente desconhecido na Antiguidade e na Idade Média.) Só no começo do século XX os grandes artistas passaram a protestar, com surpreendente unanimidade, contra o fato de serem chamados de “gênios” e a insistir no artesanato, na competência e na estreita relação entre arte e ofício manual. É verdade que esse protesto não foi, em parte, mais que uma reação contra a vulgarização e a comercialização da noção de gênio; mas deveu-se também ao mais recente advento de uma sociedade de trabalhadores que não vê como um ideal a produtividade ou a criatividade, e que é destituída de qualquer experiência da qual possa emanar a própria noção de grandeza. O que importa em nosso contexto é que a obra do gênio, em contraposição ao produto do artesão, parece haver absorvido aqueles elementos de distinção e unicidade que encontram expressão imediata somente na ação e no discurso. A obsessão da era moderna com a assinatura própria de cada artista, a sensibilidade sem precedentes em relação ao estilo revela uma preocupação com aquelas características mediante as quais o artista transcende sua habilidade e sua manufatura [workmanship], de modo análogo àquele por meio do qual a unicidade de cada pessoa transcende a soma de suas qualidades. Por causa dessa transcendência, que efetivamente diferencia a grande obra de arte dos demais produtos das mãos humanas, o fenômeno do gênio criativo parecia constituir a mais elevada legitimação da convicção do homo faber de que os produtos de um homem podem ser mais e essencialmente maiores que ele mesmo.

Contudo, a grande veneração que a era moderna tão prontamente dedica ao gênio, beirando tantas vezes a idolatria, dificilmente poderia mudar o fato elementar de que a essência de quem uma pessoa é não pode ser reificada por ela mesma. Quando essa essência aparece “objetivamente” – sob a forma de uma obra de arte ou de manuscrito comum –, manifesta a identidade de uma pessoa e, portanto, serve para identificar a autoria, mas emudece e nos escapa quando tentamos interpretá-la como o espelho de uma pessoa viva. Em outras palavras, a veneração do gênio como ídolo encerra a mesma degradação da pessoa humana que os demais princípios predominantes na sociedade comercial.

É um elemento indispensável do orgulho humano acreditar que quem alguém é transcende em grandeza e importância qualquer coisa que esse alguém possa fazer e produzir. “Que os médicos, os doceiros e os criados das grandes casas sejam julgados pelo que fizeram ou mesmo pelo que pretenderam fazer; as grandes pessoas são julgadas pelo que são.1) Só os vulgares consentirão em derivar seu orgulho do que fizeram; em virtude dessa condescendência, tornar-se-ão “escravos e prisioneiros” de suas próprias faculdades e descobrirão, caso lhes reste algo mais que mera vaidade estulta, que ser escravo e prisioneiro de si mesmo não é menos amargo e talvez seja mais vergonhoso que ser servo de outrem. Não é na glória, mas na atribulação [predicament] do gênio criativo que a superioridade do homem sobre sua obra parece realmente invertida, de sorte que ele, o criador vivo, vê-se concorrendo com suas criações, às quais subsiste, ainda que elas possam eventualmente sobreviver a ele. O que salva os dons realmente grandes é o fato de que os que arcam com esse ônus permanecem superiores ao que fizeram, pelo menos enquanto estiver viva a fonte de criatividade; pois essa fonte, na verdade, mana de quem eles são, e permanece, portanto, exterior ao efetivo processo da obra, assim como permanece independente do que possam realizar. No entanto, a atribulação do gênio é real, o que fica evidente no caso dos literati, em que de fato se consuma a inversão da ordem entre o homem e seu produto; o que há de tão ultrajante em seu caso – e o que, aliás, suscita mais ódio popular que a falsa superioridade intelectual – é que mesmo o seu pior produto lhes será provavelmente superior. A característica distintiva do “intelectual” é que ele permanece absolutamente imperturbado pela “terrível humilhação” sob a qual trabalha o verdadeiro artista ou escritor: “sentir que se torna filho de sua obra” na qual é condenado a ver-se “como em um espelho, limitado, tal e tal”2).

1)
Cito aqui um trecho do maravilhoso conto de Isak Dinesen, “The Dreamers”, em Seven gothic tales (Ed. Modern Library), especialmente p. 340ss.
2)
O texto integral do aforisma de Paul Valéry do qual são feitas as citações é o seguinte: «Créateur crée. Qui vient d'achever un long ouvrage le voit former enfin un être qu'il n'avait pas voulu, qu'il n'a pas conçu, précisément pusqu'il l'a enfanté, et ressent cette terrible humiliation de se sentir devenir le fils de son oeuvre, de lui emprunter des traits irrécusables, une ressemblance, des manies, une borne, un miroir; et ce qu'il a de pire dans un miroir, s'y voir limité, tel et tel» (Tel quel II, 149).
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