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estudos:abbagnano:possivel-virtual

Possível e virtual (1949)

ABBAGNANO, Nicola. Scritti esistenzialisti. Torino: DEAGOSTINI LIBRI, 2013.

1. A noção de possível.

2. Um dos traços salientes da filosofia contemporânea é a importância e a autonomia adquiridas pela categoria do possível, que, pelo trabalho aparentemente discorde, mas de algum modo concordante, do pensamento contemporâneo, começa a romper sua conexão, na verdade confusão, com a categoria do virtual e a aparecer em sua individualidade e valor autônomo, processo de esclarecimento que deve pôr a filosofia contemporânea na posse de seu instrumento fundamental de investigação.

3. Entende-se por possível o que pode ser ou não ser e é apenas como tal, sem ligação necessária com a mudança, o devir, o progresso ou uma concepção do ser como movimento, pois a própria imobilidade é possível se, sendo, pode não sê-lo, referindo-se o possível a toda condição que inclua indeterminação, instabilidade, incerteza, precariedade, caducidade, perigo ou risco, sem excluir determinação, estabilidade ou certeza, desde que não sejam absolutizadas e tidas por inamovíveis, excluindo apenas o enrijecimento ontológico dessas condições em modos de ser sem problematicidade interna, pois exprime a estrutura de toda condição problemática em que possa enraizar-se uma dúvida, pergunta ou problema justificado como tal, de modo que o ser, qualquer que seja a realidade ou experiência a que se refere, pode ser interpretado pela categoria do possível na medida em que a pergunta sobre o ser se considera intrínseca e constitutiva do próprio ser, tornando-se inoperante quando se julga que o problema do ser não o qualifica.

4. A categoria do possível não tolera a copresença de outras categorias, pois onde aparece tudo é possível e apenas possível, já que, se as condições de estabilidade, certeza, segurança e necessidade não são absolutizadas, caso em que o possível fica excluído, mas se reconhece nelas ou ao lado delas o possível, este torna-se a categoria única em que elas encontram fundamento, sendo enquanto possíveis, implicando seu ser a possibilidade de seu não ser.

2. O virtual.

5. Esses esclarecimentos excluem a confusão entre possível e virtual, que é a potencialidade aristotélica como preformação e predeterminação do atual, referida não a uma seção transversal, como o possível, mas ao desenvolvimento longitudinal do ser em movimento, tendendo a reduzir o movimento à imobilidade ou esta àquele e a dar ao ser compacidade e necessidade, excluindo o possível, e, embora Aristóteles tenha admitido que a potência pode não passar ao ato e fundado nisso a superioridade do ato, essa posição, seguida por grande parte da filosofia, introduz sub-repticiamente o possível numa categoria que o exclui, pois uma potencialidade não realizada não era potencialidade, já que o único fundamento para dizê-lo seria sua atualização, sendo a necessidade da atualização o que define a potência, e por isso toda filosofia fundada no virtual, de Aristóteles a Hegel, é filosofia da necessidade, que desemboca num ato absoluto e compreensivo, Ato puro, Ideia autoconsciente ou Consciência absoluta, reduzindo, pela superioridade do ato, a temporalidade à contemporaneidade, a um presente eterno, o que implica a conservação integral do ser e a garantia contra toda perda, já que na passagem entre virtual e atual o ser não cresce nem diminui, podendo todo regresso ou perda ser considerado virtualmente progresso ou ganho, e revelando-se assim o fim intrinsecamente consolador dessa categoria aparentemente abstrata e especulativa.

3. A realização do possível.

6. A elaboração filosófica da categoria do possível foi bloqueada pela confusão com o virtual, que estabeleceu entre possível e real a mesma relação que entre potencial e atual, entendendo a realidade como atualização e eliminação do possível, como em Leibniz, para quem o mundo dos possíveis é mais vasto que o real e a realização é escolha ou limitação que põe o atual no lugar do possível, pressupondo a identificação do possível com o meramente lógico, a ausência de contradição, até que Kant, com o conceito de possibilidade real, abriu o caminho do pensamento contemporâneo, pelo qual o possível não se opõe ao real, mas o próprio real é possível, definível apenas em termos de possibilidades efetivas, distinguindo-se o possível do virtual lógico e do virtual fantástico, das alternativas imaginadas, por sua capacidade de verificação, seu traço fundamental.

7. A verificação do possível não o transforma em algo diverso, mas consolida-o como possível, reforçando-o e fundando-o em sua possibilidade constitutiva, como na afirmação de que isto é uma mesa, que implica um conjunto de possibilidades de constatação, troca, uso e trabalho, que, verificadas, se reforçam no que são, sendo a verificação a consolidação das possibilidades incluídas no predicado ontológico é, e a afirmação de que isto é um homem implica outro horizonte de atitudes possíveis, que, se a afirmação é válida, se revelam realmente possíveis, isto é, sempre de novo assumíveis e conserváveis, podendo ocorrer o inverso, quando as atitudes, comportamentos ou ações sugeridos por uma afirmação se revelam impossíveis ao ser assumidos, sendo sua possibilidade fictícia e a proposição inválida, falsa ou errônea, por faltar a relação intrínseca da possibilidade consigo mesma, relação transcendental que constitui a possibilidade verificada ou verificável, efetiva e própria, expressa nas proposições válidas.

8. Só o uso consciente e rigoroso da categoria do possível justifica e funda o método crítico próprio da filosofia, vigilância incessante de quem sabe que as possibilidades expressas em qualquer linguagem, comum ou técnica, podem revelar-se inautênticas e devem ser consolidadas e postas à prova, empenho sério de investigação distinto do diletantismo do cético, que julga indiferentes ou equivalentes as virtualidades lógicas ou fantásticas, e do dogmatismo de quem crê que o homem está constitutivamente na verdade como virtualidade necessária de seu ser, da qual só se afasta por ato voluntário e culpado, pois reconhecer a categoria do possível implica que o homem está na verdade como no erro, por estar na busca, campo dos possíveis concretos que deve escolher, examinar e provar em sua possibilidade efetiva.

4. Possibilidade e temporalidade.

9. A aceitação da categoria do virtual pretende negar o tempo em favor da eternidade, mas apenas o reduz a uma dimensão, o presente como contemporaneidade, enquanto a categoria do possível inclui e faz valer, em sua diferença e unidade, todas as dimensões do tempo, pois um possível é abertura ao futuro, que é ao mesmo tempo reconhecimento autêntico do passado e unidade de ambos, o presente, sendo cada coisa esquema de projetos, capacidades, esperanças, temores, preocupações e antecipações referidos ao futuro, que tiram seu peso e conteúdo do que foi, condicionando o passado o futuro não por determiná-lo, o que o conteria virtualmente, mas por limitar sua esfera, de modo que o futuro permanece imprevisível, novidade absoluta, mas é sempre futuro daquele passado e o que será se soldará de algum modo ao que foi, e essa soldadura é o presente autêntico da possibilidade concreta, em que a perspectiva do futuro é sempre juízo sobre o passado e vice-versa, sendo o possível a própria estrutura da temporalidade, que projeta e antecipa continuamente o futuro referindo-o ao passado, errando ou falhando por não ser a soldadura necessária e determinada de uma vez por todas, mas voltando sempre a projetar, pois essa é a estrutura da existência temporal.

10. A categoria do possível explica a temporalidade da existência, o que a torna preeminente e instrumento indispensável de toda análise da existência, pois todos os temas preferidos da filosofia contemporânea, problematicidade e instabilidade, precariedade e risco, preocupação e angústia, nada e morte, fracasso e crise, são ora determinações, ora expressões míticas ou fantásticas de uma única categoria fundamental, a do possível, e só seu reconhecimento e uso podem reconduzir a elaboração desses temas a uma forma rigorosa e crítica que elimine seu aspecto paradoxal e revele, além do negativo e destrutivo, seu aspecto positivo e construtivo.

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