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Considerações XII

O pensador voltado à decisão e a penúria intemporal

Todo pensador que pensa rumo a uma decisão é movido, e consumido, pelo cuidado com uma penúria de todo insensível ao tempo de vida historiograficamente calculado desse pensador, medindo-se o nível de compreensão genuína de seus pensamentos pela capacidade de pensar de antemão as exigências estranhas e excessivas irradiadas pelo não-dito em suas palavras.

Destruição e devastação, o essenciar-se e a fuga da questão da verdade

Destruição é a precursora de um início velado, mas devastação é o efeito posterior de um fim já decidido, questionando-se se a época já se encontra diante dessa decisão entre destruição e devastação, sendo, contudo, o outro início já conhecido em nosso próprio questionar.

“Vem meditar” e a superação sombria da historiografia

“Vem meditar”: essas palavras devem ser proferidas no momento certo, e não como convocação ou plano, mas como um já realizado salto adiante que agora precisa ser recuperado, tendo essa recuperação uma relação peculiar com tudo o que é essencial ao projetá-lo ainda mais adiante.

O poder como sobrepoderação e a ordem como instituição maquinacional

Já que o poder é sempre um sobrepoderar e uma vontade autossuperadora de sobrepoderar, a “naturalidade” da força dos poderes assume sempre uma forma diferente, sendo “ordem” aquela instituição maquinacional de fronteiras nacionais, filiações étnicas, relações econômicas e atividades culturais.

O homem e sua vida representada extrinsecamente

A sucessão de dias e noites estende a “vida” humana em “comprimento” e deixa essa “vida”, calculada em milênios, aparecer de novo como “curta”, sendo quão inerradicável e ao mesmo tempo quão extrínseca essa representação da humanidade.

O idealismo alemão e sua germanidade metafísica

“Idealismo alemão” é rubrica muito imprecisa sob a qual ainda não apreendemos essa metafísica em sua germanidade, não significando isso uma restauração folclórica dessa filosofia a uma nacionalidade particular, mas a determinação da posição fundamental a partir da qual a nacionalidade poderia ser circunscrita.

O pressuposto cristão e a hostilidade ainda cristã

O pressuposto do cristianismo é a postulação do homem como animal racional, sendo assim perseverança e refúgio na “metafísica”, permanecendo toda hostilidade ao cristianismo, mesmo a mera oposição às Igrejas cristãs, ainda cristã, e assim também uma evasão das decisões essenciais.

Nietzsche como transição e antecipação metafísica da consumação moderna

Nietzsche é transição apenas no sentido de que antecipa metafisicamente a consumação da modernidade e assim põe o fim próprio à história do ser, tornando com esse fim, que ele mesmo não pôde reconhecer como tal, possível a preparação da decisão em favor do outro início.

O “intelectualismo” e a violência normativa

“Intelectualismo” só pode ser exercido e difamado onde a pura violência do poder desencadeado se torna normativa como a suposta única forma verdadeira de “vontade”, aparecendo essa normatividade sob caráter duplo: a violência é afirmada e instalada na figura moral de comportamento intrépido, “viril”, ou é negada em seu contraponto de fuga tímida.

Nietzsche e o deserto da devastação

Nietzsche, pensando adiante, entrou no deserto daquela devastação que se instaura com a incondicionalidade da maquinação e traz à luz seus primeiros “resultados” no caráter exclusivamente subjetivo do animal humano como animal de rapina.

Vitória e direito, poder e impotência

A vitória sobre o inimigo de modo algum prova que o vencedor esteja com a razão, mas essa “verdade” é letra morta se o direito é interpretado como aquilo que não apenas é confirmado e fortalecido pela vitória, mas que por ela é, pela primeira vez, posto e instituído.

A literatura existencial e o embotamento do espírito da época

Pessoas que naturalmente leem “Hölderlin” e “Nietzsche”, tomam nota de Spengler e Jünger, conhecem Rilke, sentem inclinações românticas para com a Igreja Católica, tornam Pascal atual e não esquecem o que é popular, poderiam ser chamadas literatas existenciais.

Refletir e ser pensador

Refletir e ser pensador são sempre distintos, sendo essa distinção precisamente velada à reflexão, que só conhece pensadores como aqueles que se ocupam do pensar, que realizam o pensamento, tendo o pensamento sido há muito determinado como o representar do representável sobre coisas subsistentes.

O pensador que possui o conhecimento da meditação como perturbação

Ser pensador envolve o conhecimento decisivo de que a meditação, como questionamento disclosivo dessa decisão, projeta na “vida” a mais perigosa perturbação da “vida” e renuncia a justificar-se perante essa “vida”.

A superação da metafísica mal compreendida como ateísmo

A fala sobre a superação da metafísica ainda hoje está exposta aos habituais mal-entendidos, entendendo-se essa superação, pensando em Kant ou antes na má interpretação de Kant no “positivismo”, como eliminação da fé na cognoscibilidade e realidade do suprassensível em favor do sensível.

A metafísica tornada física e o niilismo consumado

Nesse ínterim, a meta-física tornou-se física, isto é, fisiologia, tendo Nietzsche dado o primeiro passo resoluto e assim também deliberado nessa consumação da metafísica, com sua afirmação do mundo “sensível”, posto assim fora da distinção entre verdade e aparência.

O pensamento atento à história do Seyn e a consciência

O pensamento atento à história do Seyn nem retrata fatos subsistentes, nem descreve “estruturas”, nem vê no universal o fundamento do particular, nem põe valores e metas, dando a impressão de algo “abstrato” e vazio, sendo essa aparência apenas a omissão do ente no destino do Seyn.

A germanidade velada e o guerreiro como primeiro anúncio da história

A germanidade velada: o sacrifício dos caídos deve ser inviolável, devendo todos, mesmo os que falam disso posteriormente, saber que o guerreiro foi mais essencial do que o escritor jamais poderia ser, precisando, contudo, arriscar uma meditação que torne visível uma constrição perniciosa do pensamento sério sobre o efeito do espírito do combatente da linha de frente.

O filósofo científico e o pensador

O “filósofo científico” distingue-se do pensador: o primeiro calcula um “sistema”, que supostamente abarca e explica até mesmo o pensamento alheio ao “pensamento sistemático”, esforçando-se por uma expansão constante de suas doutrinas.

O antropomorfizar-se do homem enquanto animal sensível

Quanto mais a essência metafísica do homem, o animal racional cheio de sentimentos, isto é, de “vivências”, chega ao poder no curso inevitável da capacitação incondicional da maquinação, tanto mais claramente também se impõe, dentro da massividade da humanidade, a universalização dessa essência.

Os filósofos como soberanos e sondadores

Filósofos deveriam ser soberanos e administradores, mas onde estão os palácios, onde a terra em cuja paisagem os palácios se erguem? é preciso primeiro tornar essa terra cultivável, primeiro visível e pressentível, sendo necessário sermos questionadores de longa preparação.

As decisões como apropriações e não como convicções

Decisões não surgem de intuições; antes, elas mesmas se tornam intuições, desde que estas sejam entendidas como visões clareadoras e desveladoras do velado e inexplicável, sendo as decisões preparadas pela meditação, o questionamento disclosivo daquilo que há de ser decidido.

A crescente indiferença perante a essência do ente

Com a crescente esperteza dos homens (esperteza entendida metafisicamente como a mais alta capacidade de resolução planejada e instituída de problemas), a essência do ente cai na indiferença, parecendo justificar a presunção de que a meditação um dia será excluída do presente como um monstro fabuloso.

Os “intelectuais” como inimigos da meditação

Os “intelectuais” são expoentes da busca tradicional de conhecimento e posse de saber, sendo criticados e difamados enquanto as massas ainda não se tornaram “intelectuais”, processo que só terá êxito lenta e inconspicuamente ao rebaixar o domínio do intelecto ao nível das reivindicações e vivências das massas.

O “pragmatismo” como consequência do racionalismo extremo

“Pragmatismo” é a doutrina de que o verdadeiro deve ser buscado no, e posto como, útil, sendo essa utilidade concebida como o fomento e asseguramento daquele estado da vida humana que se toma como subsistente e dado.

O historicismo e a insensibilidade ao impulso de meditação

Toda a história historiograficamente determinável e produzível transcorre como irreflexão frente a um pensamento decisivo que funda o próprio ser numa verdade ou lhe retém essa verdade, estendendo-se essa irreflexão, na forma da falta de necessidade de meditação, antes de tudo a si mesma.

Os “alemães expatriados” e o obstáculo à automeditação alemã

O que mais severamente obstrui e propriamente condena uma automeditação alemã é o agitar-se, a vaidade e a confusão mental dos “alemães expatriados”, sendo Herder ainda seu paradigma, e sua relação com Kant fornece simultaneamente o modelo de como todos esses renovadores lidam com obras e assuntos alemães.

Os combatentes e o combate pela história do ser

Combatentes dividem-se, de um lado, entre aqueles que sempre necessitam de um oponente e, na sua falta, o inventam, fingindo a si e a outros como oponentes, e, de outro, entre aqueles que atendem apenas àquilo pelo que combatem e não necessitam de oponentes.

A “política” moderna e a maquinação total

Age “politicamente”, no sentido moderno, quem, por exemplo, obtém o pagamento prometido, embora inicialmente retido, por trair outro país, e o obtém especificamente utilizando a mediação amistosa do próprio país que traiu.

As ciências como indústria da maquinação irrestrita

Na era da maquinação irrestrita, as ciências assumem o caráter de uma indústria dedicada ao conhecimento da natureza e dos povos, sendo essa indústria uma instituição da “tecnologia” em sentido essencial, isto é, ao mesmo tempo instituição da historiografia.

A humanidade ocidental sem abrigo em domínios familiares

A história dos homens ocidentais avançou lentamente a uma situação em que todos os domínios até então familiares, “pátria”, “cultura”, “povo”, mas também “Estado” e “Igreja”, “sociedade” e “comunidade”, recusam-se a oferecer abrigo, por terem sido degradados a meros pretextos.

O bolchevismo, a raça e a metafísica moderna

“Bolchevismo” nada tem a ver com a Ásia, e menos ainda com a eslavicidade dos russos, ou por isso com a essência básica do ariano, mas surge antes da metafísica racional moderna ocidental-mais-ocidental ainda.

O “niilismo” turgueniano e o niilismo metafísico

A cunhagem da palavra “niilismo” e a atribuição de seu significado ligam-se a Turguêniev, que assim designou a forma russa do positivismo ocidental, apreendendo-se com isso o núcleo metafísico essencial do niilismo, ainda que não compreendido em seu fundamento.

A palavra pura e a ossificação da linguagem

Uma palavra é pura se surge da constância no Seyn, levando a mera eliminação de palavras estrangeiras mediante a fabricação de “traduções” a uma deterioração das palavras e a uma ossificação da linguagem.

O “radicalismo” genuíno como preservação da origem

“Radicalismo” é de essência genuína como preservação da origem, não sendo preservar reter alguma posse já disponível nem trazer historiograficamente algo do passado, mas antes arriscar o salto que, no primeiro início da história do ser, saltou à frente de tudo futural.

O poder da maquinação e a angústia perante o Seyn

O poder da maquinação, a erradicação até da impiedade, o antropomorfizar do homem em animal, a exploração da terra, o cálculo do mundo, passaram a um estado de definitividade, sendo agora meras fachadas as distinções de povos, nações e culturas.

A essência dos alemães subtraída ao cálculo historiográfico

A essência dos alemães, seu destino histórico, é subtraída ao cálculo historiográfico por meio do folclore ou da erudição histórica, e surge apenas no momento que decide o que subjaz mesmo aos incidentes “histórico-mundiais”.

A raça como princípio maquinacional da história

Que a era da maquinação eleve a raça a “princípio” explícito e expressamente instituído da história (ou apenas da historiografia) não é invenção arbitrária de indivíduos “doutrinários”, mas antes consequência do poder maquinacional que deve subjugar o ente, em todos os seus domínios, ao planejamento e cálculo.

O simples ordinário e o simples essencial

O que é “simples” e o que é simples: o primeiro é aquilo que imediatamente “ocorre” à opinião cotidiana mais grosseira, mais superficial e sempre transitória; o segundo é aquilo que emerge à meditação mais profunda e prolongada a partir de uma luta essencial e permanece fundamento insondável.

O sem-sentido dos incidentes histórico-mundiais

O sem-sentido dos incidentes “histórico-mundiais” não deveria surpreender agora nem no futuro, uma vez decidido o abandono do ente pelo ser em favor da irrestrita supremacia do ente em sua maquinação.

Hölderlin como poeta da decisão única

Hölderlin é o poeta dessa decisão única, e assim é alguém único, incomparável; como poeta, funda de antemão a essência dessa decisão, sem pensá-la como decisão pertencente à história do Seyn, sendo, contudo, seu poetizar já uma superação de toda a metafísica.

A “metafísica” entre os mal-entendidos da lógica e do mito

“Metafísica” em sua essência está constantemente presa a diversos, embora inter-relacionados, mal-entendidos, sendo buscada historiográfico-doutrinalmente na forma de um edifício conceitual e de princípios dele destacáveis.

A publicidade como semblante enganoso do domínio aberto

Publicidade jamais é o domínio aberto da clareira, mas sempre a aparentemente autoexpansiva deturpação e obstrução da clareira, sendo publicidade o semblante mais insidioso do domínio aberto e por isso o refúgio de toda operação do abandono do ente pelo ser.

A historiografia como explicação da história pela influência

A historiografia está primariamente preocupada em estabelecer uma sequência de incidentes, uma sequência do que passa, explicando o posterior por meio do anterior e encontrando que a “história” é determinada por “ideias”.

O confronto com Nietzsche como historicização da metafísica

O confronto com o pensamento fundamental nietzschiano da “vontade de poder” deve apreender esse pensamento, de antemão e historicamente, apenas como a consumação do primeiro início do pensamento ocidental, mas deve experimentar esse pensar como a história mais velada do Ocidente.

A angústia perante o pensamento e a supremacia do ente maquinacional

Existe justificação melhor para o mundo de fé do cristianismo cultural do que a prova cada vez mais favorecida de que toda “metafísica” repousa, de fato, num mito? por que a era da consumação da metafísica ocidental avança para a instauração de um completo mal-entendido da essência da metafísica?

A possibilidade do último deus e a fundação de uma impiedade

No momento da decisão entre a supremacia do ente e a soberania do Seyn, a possibilidade de um deus torna-se única e o divino torna-se mais difícil, mas o homem, em sua constituição e posição anteriores, é desviado de curso e privado de todo poder fundante.

Criadores e fundadores

Criadores ainda não são fundadores; criadores podem emergir na produção do costumeiro e necessário e podem justificar-se historiograficamente, tornando-se então um dia obstáculos essenciais a toda fundação.

O homem entre o animal e Deus, arrancado de seu fundamento

O homem: todo pensamento metafísico, e assim o pensamento ocidental anterior em toda a extensão de sua história, determina o homem como ser vivo relacionado a Deus como causa do mundo, colocando o homem entre animal e Deus.