9. A essência da liberdade

Zu Ernst Jünger [2004]

A liberdade moderna – como reivindicação de liberdade

Reivindicação de liberdade entendida como liberdade ao progresso, como liberdade ao “tempo”, à “atualidade”, remetida à subjetividade.

135. Questões sobre a nova reivindicação de liberdade

Interroga-se sobre a proveniência e a natureza do “interior do mundo do trabalho”, sobre por que pertenceria à liberdade a certeza da conformidade à época, sobre o que decisivamente importa, a saber, que a “vida” ainda esteja “em jogo”, ainda tenha uma “carta”, isto é, que a “vida” se conserve, sobre o que significa a crença no “sentido” deste nosso mundo, e sobre por que esse “sentido” seria fornecido a posteriori pelos “poetas”.

136. A liberdade (moderna)

A liberdade moderna é reivindicação de liberdade no sentido da autolegislação e da autodeterminação, isto é, de pôr a partir de si mesmo a essência do si-mesmo.

137. A nova reivindicação de liberdade

Mostra-se de onde provém a nova relação com o elementar, isto é, a irrupção do elementar, a partir da transvaloração de todos os valores, sendo essa transvaloração o fundamento do mundo do trabalho, dentro do qual, pelo mesmo fundamento, surgem agora a nova liberdade e a nova reivindicação, entendida a liberdade como autolegislação.

138. A liberdade como reivindicação de liberdade

Colocar-se sobre si mesmo articula-se com reivindicação de…, isto é, autolegislação, discutindo-se como determinar a mesmidade do si-mesmo formalmente, no elementarismo, na liberdade e na potência, e quanto ao conteúdo, na nova relação como afirmação da figura, afirmando-se a si mesmo na figura, isto é, em meio ao ente presentemente vigente no tempo.

139. Liberdade (moderna)

A liberdade moderna, essência da humanidade moderna, consiste em libertar-se para a liberdade no sentido da autolegislação, da autonomia, do “domínio”, articulando-se esse libertar-se como libertação da doutrina dogmática da revelação sobrenatural e da certeza da salvação, colocado o homem sobre si mesmo; como libertação da tradição em geral, mediante a investigação do mundo; e como libertação da Igreja enquanto instituição de salvação e ordem vital determinante, em favor do Estado soberano e do criador enquanto gênio.

140. Indicação sobre o conceito de subjectum e subjetividade

Remetido ao hypokeímenon próton, isto é, ao fundamentum absolutum inconcussum, a subjetividade não é determinada pela ipseidade, mas, inversamente, o “eu” pela subjetividade, não sendo o “eu” no sentido do individualismo essencial, podendo o “sujeito” ser também comunidade, “sociedade”, povo ou a própria figura.

141. Liberdade

Postulada como a junta essencial (Wesensfuge) da humanidade moderna, evidenciando-se já no capítulo introdutório sua condição de determinação fundamental, cabendo reter que nessa junta se insere, e a partir dela se determina, a essência do trabalhador, entendida a liberdade como a subjetividade do sujeito, isto é, o colocar-se sobre si mesmo.

142. Liberdade

Para Jünger, a liberdade equivale a uma determinatio em morphén, sendo a figura o vinculante e o concludente, questionando-se em que consiste sua obrigatoriedade, respondida não por escolha, sim e não, discussão e ponderação, mas pelo fato de que alguém “tem” a relação com ela ou não a “tem”, cabendo ao destino qual “espírito” domina, encontrando-nos em um “experimento”.

143. “Liberdade”

Distingue-se a liberdade “abstrata” enquanto libertas indifferentiae, isto é, ausência de coação e indiferença determinativa entre atos opostos, da liberdade como determinatio et propensio in bonum, sendo a libertas indifferentiae condição da criatura, não pertencente à nossa liberdade propriamente considerada, configurando defeito no homem e suprema perfeição em Deus.

144. Liberalismo

Caracterizado pelo desatamento do indivíduo e pelo asseguramento político de seu espaço de manobra mediante as leis do Estado de direito, correspondendo economicamente ao jogo capitalista de forças, à livre concorrência e ao empreendimento, sob o privilégio do mais forte, sendo o Estado instituição de equilíbrio entre classes antagônicas, tudo sob relações contratuais sempre rescindíveis.

145. “Liberdade” (A história do Seyn)

Indaga-se quando e em que medida a liberdade determina hierarquicamente a humanidade, sendo ela liberdade rumo ao fundamento e pertencimento à verdade do ser, cabendo a esta decidir, e não à mera vinculação ao ente, por mais premente que seja, sobretudo quando o próprio ente se acha abandonado pelo ser e a verdade do Seyn permanece sem fundamento e o pertencimento perturbado no erro e no ofuscamento, sendo, acima de tudo, mais essenciante que a liberdade a própria verdade do Seyn, não sendo o homem “sujeito” da liberdade, mas antes o homem em sua determinabilidade para a transformação de seu “ser”, como fundador da verdade do Seyn.

146. Liberdade (A história do Seyn)

Interroga-se a liberdade quanto ao para quê e para o quê, não apenas quanto ao de quê, dando-se aqui, em Jünger e em Nietzsche, vinculação e sim ao efetivo como vontade de potência, sendo o necessário, nesse caso, o inevitável que propriamente se impõe, a saber, a figura, contrapondo-se a isso o necessário enquanto o que volta a necessidade (Not-wendende), isto é, o que primeiro converte a necessidade, não sendo esta carência, insuficiência nem cisão entre querer e poder, mas o abandono — essencial — do ente pelo ser.

[147. Liberdade como responsabilidade frente à força originária]

A liberdade é pensada como responsabilidade frente à força originária, questionando-se o que seja essa força originária e por que se a denomina assim, remetendo-se à “força mais íntima do povo” como “solo materno gerador do Estado” e à “força de produção”.

148. Cisão da essência da liberdade

Cindida entre liberdade de… e liberdade a…, cada uma unitária em si, questiona-se o fundamento de unidade entre ambas, distinguindo-se o que a liberdade é do como ela é.

149. Liberdade moderna. Progresso

Tomando-se o progresso técnico como exemplo, ou antes como modelo e, enquanto modelo, também fundamento essencial do progredir, este avança um passo além no domínio da “natureza”, questionando-se se nisso consiste a essência da técnica, ilustrando-se com o êxito de voar, antes impossível, e com a substituição da máquina a vapor pelo motor de combustão, voltado à economia de força segundo o princípio econômico do menor dispêndio para o maior rendimento, e com o aperfeiçoamento da carroceria do automóvel, outrora mera charrete, em vista do conforto, questionando-se o critério do “ultrapassar”, a direção seguida e a instância que conduz, se a própria economia.

150. Progressividade

Tomada como forma fundamental do ser-histórico do homem, consistindo em facilitar, melhorar, embelezar e ampliar a “vida” humana rumo à liberdade, à segurança e à livre circulação, numa ordem mundial livremente harmônica, segundo a máxima da maior felicidade para o maior número.

151. Progredir e progresso

Questiona-se se o progredir seria o prosseguimento do domínio da vida na direção das desejabilidades, sendo a técnica moderna progresso rumo à progressividade, ligada à concorrência, ao lucro e ao rendimento, movida pelo espírito empreendedor a produzir cada vez mais rápido e mais barato, impulsionando o técnico sempre a mais técnico, distinguindo-se o mero prosseguir da vontade de progresso propriamente dita, isto é, da progressividade como desejabilidade, concluindo-se que o progresso não é progresso, ou seja, que a progressividade enquanto desejabilidade não conduz o homem adiante em sua essência, não representando mudança essencial, mas apenas o cumprimento de um estado essencial já dado, o animal racional.

152. “Modernidade”. “Progresso”

Descreve-se o “mundo”, no sentido do ente objetivado em sua totalidade, recolhendo-se cada vez mais, em sua multiplicidade e extensão, ao dominável, tornando-se cada vez “menor”, ao passo que o “homem” no sentido do “sujeito” (o trabalhador) se torna cada vez mais abrangente, potente e ilimitado, “maior”, enquanto a essência humana, no sentido do pertencimento ao ser do ente e da prontidão para sua fundação, se torna cada vez mais ínfima e vazia, esquecendo-se de si mesma.

153. “O progresso não é progresso”

O progredir da humanidade e dos povos, que a si mesmos se organizam e conduzem rumo a um mundo harmonicamente ordenado em liberdade, compreende o alívio das condições de vida, a melhoria das condições de trabalho, o embelezamento mediante a participação de todos nos bens da cultura, a ampliação da vida humana e a crescente conquista do mundo e domínio da natureza, sustentando-se a crença no progresso pela convicção de que nele mesmo reside o fim.