Zu Ernst Jünger [2004]
Ver a questão da verdade; verdade e figura
Ver o tipo como a forma suprema da subjetividade
116. A figura
A figura é pensada como aquilo mediante o qual o homem se coloca, para além de si mesmo, em seu mais alto, o que primeiramente o fixa como animal, precisamente enquanto animal fixado e, com isso, libertado, atribuindo-se à figura do trabalhador validade planetária e ao espaço a ela correspondente uma extensão igualmente planetária, cuja dimensão é a totalidade.
117. “A figura”
Distinguem-se três sentidos sobrepostos no emprego jungeriano do termo: o conceito corrente de figura como totalidade contraposta à soma, próprio da teoria da forma (Gestalttheorie) e suas variações; o conceito bem compreendido de “ideia” em geral, segundo o qual toda entidade é sempre já configurada segundo o eidos, e não segundo relação de causa e efeito; e o papel destacado e a essência singular da “figura” no sentido do “tipo” do super-homem e de seu significado metafísico, entendida como núcleo de um campo de forças em torno do qual ela se dispõe.
118. “Figura”
A figura equivale ao “metafísico”, isto é, à potência metafísica, tomada no sentido tradicional daquilo que, enquanto ente “eterno”, se subtrai a toda mudança, cabendo perguntar de onde provém essa postulação e qual sua verdade, bem como qual o fundamento de sua formulação moderna no sentido da figura, e como se determina a relação entre a figura do trabalhador e o homem.
119. A postulação jungeriana da “figura”
Não é decisivo aquilo que o próprio Jünger enfatiza, a saber, que a figura é mais do que a soma das partes, ou seja, totalidade, num conceito formal de figura, nem tampouco o ressurgimento de uma visão de “figuras” ligada à teoria da forma, na qual se mistura ainda a analogia física da figura como núcleo de um campo de forças; decisivo, ao contrário, é aquilo que Jünger não vê e que, conforme seu modo de pensar, não pode suficientemente perscrutar.
120. Figura – Imagem do homem – Imagem do mundo
Esclarecem-se e criticam-se aqui os pressupostos do conceito jungeriano de figura, advertindo-se que esta não deve ser tomada no sentido formal-geral e sequer aristotélico, ainda que subsista uma referência histórica a ele, já que tudo é metafísica, sendo a figura antes a imagem formadora, fonte do ser de “medida e centro” da força plasmadora, e não mero “quadro” de um aspecto posto à distância.
121. O destacamento da “figura” contra “ideias” e “conceitos”
Contra o platonismo até então vigente, distinguem-se quatro momentos: na inversão do platonismo, o elementar acede à potência como caos; nessa inversão, enquanto libertação do caos, torna-se necessária uma nova medida; essa medida somente se torna possível a partir da própria vontade de potência, enquanto homem, porque a “vida” está colocada sobre si mesma; e a vontade de potência impele a humanidade à subjetividade extrema.
122. A figura
Articulam-se cinco momentos de exposição: a figura em geral e a postulação jungeriana da figura; o conteúdo da figura articulado entre o “elementar”, a liberdade e a potência; a referência da figura à essência do ser-homem, entendida como confirmar-se em algo e, por meio disso, doar segurança a si mesmo; a determinação dessa referência a partir de algo distinto da causalidade; e a referência de figura e liberdade, entendida a liberdade como trabalho e posse de potência, sendo o trabalho confirmação do ente na totalidade que “trabalho” é, e identificado com o “ser” que a figura mesma é.
123. O pensamento de figura
A figura é identificada como “arquétipo” (Urbild), remetendo-se à noção de tipo enquanto tentativa simultânea de superar o causalismo, de conservar a efetividade como eficácia e de elevá-la à pura capacitação de potência, cuja confirmação não se dá no êxito ou no efeito, mas na própria confirmação e cumprimento da figura, configurando a derradeira formação da subjetividade em meio à efetividade como eficácia, isto é, a capacitação da potência como figura suprema do próprio essenciar-se da potência.
124. Figura e tipo
A figura é caracterizada como algo intuível e, contudo, não singular, mas cunhante, doador de essência, ente e efetivo, não a generalidade de uma regra, mas o único recortado e talhado de um aspecto constrangedor, definitivo, movendo-se o pensamento para longe do indivíduo, da regra, da prescrição e da vazia desejabilidade — “ideia”, “perceptum” — em direção ao que atua e é eficaz, e finalmente ao singular, devendo ser o próprio homem, mas nem o indivíduo nem o mero conglomerado, permanecendo sempre e antes de tudo em primeiro plano a figura do homem e da humanidade, o que só ocorre onde o homem já e apenas enquanto sujeito é pensado.
125. “Figura”. O trabalhador como única potência cunhante
O trabalhador é pensado como a única potência cunhante do espaço, do tempo e dos homens, distinguindo-se a figura, enquanto cunhante, da causa, visto que a causação designa aquilo segundo o qual algo segue outra coisa conforme uma regra, num sucessivo, ao passo que a cunhagem (Prägung) consiste antes num sobrepor-se determinante e exemplar, não em sucessão espacialmente orientada, mas em determinação prefigurante, aproximando-se da condição transcendental de possibilidade, ainda que permanecendo subjetividade, não fazendo seguir, mas subjugando e atraindo a si.
126. A figura do trabalhador. Sobre a posição fundamental de Ernst Jünger
O trabalhador é descrito como o novo dominador, dominador do domínio incondicional do mundo, portador da nova ordem mundial daí decorrente, portador da nova justiça enquanto “verdade”, figura criadora, o detentor incondicional do poder que, enquanto figura, representa tudo o que é configurado, todo ente que, como tal, tem direito à figura, de modo que o ente em sua totalidade propriamente é num único “ponto”.
127. Trabalhador, figura e ser
O trabalhador pertence a uma ordem hierárquica determinada pela figura, devendo por isso ser visto metafisicamente, cabendo perguntar de onde e como provêm a figura e a ordem, respondida pela verdade do ente na totalidade e enquanto tal, sendo ainda mais essencial do que “o trabalhador” a revelação e o despertar do metafísico por meio dele, permanecendo em aberto de onde e como provém a figura enquanto tal, o caráter figural, o qual haveria de ser pensado como um essenciar-se (Wesung) do ser, ainda que não seja assim que Jünger pensa.
128. Figura e “essência”
A essência, isto é, o ser, é aqui apreendida como figura, relacionando-se a figura com a “consciência da figura”, com a “lembrança” e, por conseguinte, também com a “expectativa” e o olhar erguido, questionando-se que espécie de saber seja esse, ao passo que a figura se opõe, enquanto eterno, ao temporal, sendo pensada como “potência” efetiva, corpórea e necessária, restando em aberto se vinculante, coercitiva ou cunhante.
129. A figura
Trata-se aqui da figura de um ser-homem, sendo o ser-homem pensado como ser-sujeito, de modo que a figura constitui a subjetividade essenciante, objetiva, do sujeito, articulando-se sujeito e ente na totalidade, sendo aqui a essência da figura precisamente o trabalho.
130. “Figura”
Relaciona-se a figura ao pensamento nietzschiano de perspectiva como essencial à vida, articulando-se perspectiva e liberdade, perspectiva e verdade, verdade e justiça.
131. A figura do “trabalhador” (Essência da “figura”, tipo, cunho)
A figura é “um ser” ao qual se refere todo o dinâmico, tornando-se, por isso, “positiva” em vez de dissolvente, sendo ela, no sentido mais relevante, “um ser” — entenda-se, um ente —, de modo que o indivíduo é trabalhador ou não o é, não havendo aqui pretensão nem intenção, mas apenas ser e a “legitimação” para esse “que” (Daß).
132. Jünger — Trabalho e trabalhador
O trabalho é pensado como esforço total, isto é, esforço rumo à mobilização total, entendida esta como transformação da vida em energia, configurando-se como armamento da força originária, sendo esse esforço, ele mesmo, trabalho no sentido mais alto, e constituindo representação da figura do trabalhador, de modo que o “trabalhador” e sua figura antecedem o “trabalho”.
[133. Figura e essência humana moderna]
Interroga-se em que medida o pensamento de figura e a essência da figura, como subjetividade objetiva, são pré-exigidos e pré-formados na essência do homem moderno, associando-se a necessidade da figura ao mundo enquanto caos, na esteira da inversão do platonismo.
134. A figura do trabalhador
Associam-se a figura do trabalhador e o Zaratustra enquanto tipo, ambos concebidos como contratipo, como sucede com tudo em Nietzsche, remetendo-se ao prefácio de O Anticristo, observando-se que, em Jünger, não há visão, mas antes o nome “trabalhador” persegue, já em seus primeiros anúncios, essa dupla figuração, ao mesmo tempo em que seu aparecimento é experimentado e coexperimentado no guerreiro da guerra mundial.