-
O Glanz (brilho/resplendor) do ouro traz o nobre desse metal ao Scheinen (aparecer/brilhar), mas isso não significa apenas que esse resplandecer comunica o nobre ao “olho”: o puro Leuchten (luzir) que não emana para fora, mas brota em si e se retém em si, é o próprio nobre; esse Schein é seu Sein.
-
“Sein” não quer dizer outra coisa senão esse aparecer que não oferece mero Anschein (aparência/semblante), mas aquilo em que o ouro, como ouro, desponta e, despontando, chega, presentando-se no brilho como ele mesmo.
-
O “ouro” é, em certo sentido, esse puro Anwesen (presentar-se) ele mesmo, de modo que nele o Seiende (ente) é “mais-essente”, mas ao mesmo tempo de maneira que o Scheinen não se impõe separado do que aparece, permanecendo inteiramente retido nele.
-
Sendo estas ainda palavras gregas de um dizer grego – e de um poético, que presumivelmente pertence a uma relação privilegiada com o Seiende como tal – devem ser pensadas de modo grego.
-
Se o primeiro pensamento é correto para os modernos, mas inteiramente inadequado à experiência do Sein dos gregos, resta apenas a possibilidade de pensar o περιούσιος ἄλλων como fundamento do μεγασθενής.
-
Essa possibilidade torna-se necessidade ao atentar cuidadosamente para a estrutura interna dos três versos: seu dizer só se arredonda com as palavras περιώσιον ἄλλων e com elas ao mesmo tempo retorna à primeira palavra Μᾶτερ Ἁλίου – “Mãe de Hélio” – ; o que há a pensar no “Seiendsein” (ser-ente) do ouro pertence ao que o nome mais próprio da Mãe do Luminoso nomeia, à θεία (divindade/brilho divino) ela mesma.
-
O ouro é περιούσιος ἄλλων – em seu Glänzen tão aparecente que supera em brilho tudo o mais, ao circundar-lhe com seu brilho, retendo no seu, do ouro, aparecer o outro em torno e assim deixando-o primeiro co-resplandecer e assim aparecer, isto é, presentar-se.
-
Ao mencionar o ouro no contexto do “Dasein” (ser-aí/existência) dos homens e dos deuses, não se deve pensar no metal que existe como mineral ou entesourado como barra em bancos; como o ouro é aqui nomeado o presentante em sentido privilegiado, deve-se respeitar seu Scheinen no meio do Anwesenden.
-
O ouro reluz em estátuas e templos, em utensílios e armas, em carros e vasos, em diadema e arreios; assim aparecendo, sobrebritha, circunda e atravessa com seu brilho tudo; reúne em si o brilho de modo que, luzindo, aponta para além de si e deixa o outro co-resplandecer.
-
O enfeite e o adorno em sua essência própria não são o que apenas brilha por si e atrai o olhar para si e para longe do outro; são antes aquilo em que o enfeitado primeiro é “elegante” – isto é, imponente –, tendo um aspecto e se destacando, vindo ele mesmo ao Scheinen; onde algo está apenas carregado de enfeite, o enfeite não orna, o que implica que ele recua deixando o enfeitado aparecer – e isso o ouro é capaz antes de qualquer outro.
-
O ouro em seu Leuchten é “mais-presentante em torno de todo o outro” na medida em que deixa esse outro co-aparecer cada um em seu próprio; e somente porque o ouro é de tal modo mais-presentante, περιούσιος, é também μεγασθενής.
-
Pensando a partir do Anwesen próprio como esse Scheinen, pensa-se também o significado de μεγασθενής de modo grego pela primeira vez: μέγας significa antes de tudo o “vasto”, o “que se estende ao longe”, o “de largo alcance”; o “grande” é o que impera na vastidão, aparecendo nela em toda parte sem todavia presentar-se em cada lugar possível da vastidão aberta.
-
σθένος significa a força, mas não como força de impacto que produz pressão em um nexo causal de efeitos, e sim como Ge-Walt (poder/violência) no sentido do irradiar coletado de um imperar; em tal sentido, potentemente impera o Leuchten como deixar-aparecer que resplandece.
-
O ouro não é de modo algum apenas nomeado como uma coisa reluzente entre outras que as supera gradualmente em intensidade de brilho; antes é nomeado porque, pensado de modo grego, a essência do Sein repousa no Scheinen, de modo que esse Seiende que se chama “ouro” é ele mesmo, em certo sentido, o Sein do Seiende.
-
No ouro, a essência do Sein se reuniu de modo peculiar tal que o Sein pode aparecer no ser desse Seiende como ele mesmo; experimentar isso, os modernos são pouco exercitados, pois não mais estão familiarizados com essa essência do Sein e mal conseguem reconhecer ainda sua sombra como tal.
-
Mesmo onde os modernos ainda “vivenciam” o Glanz e o Glänzen, por exemplo no “estético”, ele não mais tem para eles o poder daquele Scheinen que deixa primeiro o Anwesendes (o que se presenta) chegar, isto é, aparecer e “ser” como o aparecer; e mesmo quando se encontra o caminho para pensar o aparecer como o próprio Sein, interpreta-se o aparecer como “mostrar-se” e este como tornar-se perceptível – mas pensado de modo grego, o aparecer presenta-se no Schein como o Leuchten iluminante; o Schein presenta-se como despontar, sobressair para a luz.
-
νομίζειν significa também crer, ter por, parecer, mas significa propriamente: destinar ao Seiende, ao Anwesenden, o que a ele pertence, isto é, deixar-lhe pertencer o que lhe é devido; respeitar o Anwesendes naquilo que e como é, e deixar esse próprio Sein primeiro mostrar-se no respeitar – mostrar-se, a saber, no próprio despontar e resplandecer; tal respeitar deixa o Anwesende avançar como ele mesmo; tal respeitar é Er-achten (estimar/considerar) no sentido rigoroso da palavra.
-
O “dünken” (parecer) pertence ao “denken” (pensar): “mich dünkt” significa: pensando a própria coisa, encontro nela isso e aquilo – ela mesma em seu aparecer me acomete de tal e tal modo; assim me acometendo, a própria coisa se conduz “ao ânimo”.
-
Ἄνθρωποι νόμισαν não quer dizer: os homens apenas opinam que o ouro é mais-essente, mas eles respeitam e acertam o próprio Sein próprio desse Seiende ao estimá-lo assim, a saber, como περιώσιον ἄλλων, “mais-presentante do que todo o outro”.