A tradução literal de tà ónta por “os entes” (die Seienden) em lugar de “as coisas” (die Dinge) é apresentada como uma provocação inicial para o pensamento, na medida em que o termo “coisa” oculta a referência ao caráter verbal e participial do ente, enquanto “entes” mantém viva a questão do seu ser.
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A escolha pela tradução literal não visa mera correção filológica, mas a fidelidade à palavra do pensador, que exige do pensamento um movimento de escuta e espera pelo que ainda está encoberto e precisa ser pensado.
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A tradução por “entes” soa estranha e deselegante, mas tal estranheza é necessária para despertar a atenção para o que propriamente está em jogo no dito do pensador, diferentemente da tradução por “coisas”, que se acomoda ao senso comum e à facilidade de compreensão.
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O apelo ao “sentimento natural da linguagem” pode ser, nesse contexto, um indício de falta de pensamento, pois ele esquece justamente aquilo que os pensadores tentam pensar, recaindo na trivialidade.
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A fidelidade à palavra, no traduzir, deve orientar o pensamento para o que é digno de ser pensado segundo o próprio dito do pensador, a saber, tà ónta, os entes, sobre os quais fala a primeira parte do fragmento.
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A questão sobre a referência do pronome “eles” (sie) no segundo período do fragmento — “pois eles pagam pena e expiação” — remete aparentemente a “as coisas” (die Dinge) do primeiro período, mas essa identificação imediata é problemática.
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O primeiro período do fragmento menciona, no neutro plural, não apenas os entes (tà ónta), mas também “de quais” (aus welchen) e “para estes” (zu diesen hin), indicando uma relação de proveniência e retorno que não pode ser simplesmente referida a “coisas”, sob pena de se dizer que uma coisa perece em outra coisa, o que é absurdo.
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A tradução corrente opta por “de onde”, “do que” e “para lá”, evitando a estranheza de “de quais” e “para estes”, mas a tradução literal e incomum é necessária para permanecer na palavra do fragmento e no que nela permanece oculto e ainda por pensar.
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O fragmento nomeia, além dos entes (tà ónta), “outros” (andere) — “de quais” e “para estes” — que são aqueles a partir dos quais o surgir e o perecer “é” para os entes, o que exige uma interpretação mais cuidadosa da relação entre os termos.
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A referência do pronome “eles” (sie) no segundo período pode ser aos entes (tà ónta) do primeiro período, mas também pode ser a esses “outros” mencionados, sendo precipitado decidir definitivamente sobre essa referência antes de compreender o que significam “pagar” e “expiação”.
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A referência mais imediata do “eles” aos entes (toîs oûsi) do primeiro período é a que mais claramente mostra como os dois períodos, embora nomeiem coisas diferentes, falam do mesmo, a saber, dos entes (den Seienden).
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Tà ónta nomeia aquilo de que fala o fragmento: o todo (das Ganze) a partir do qual o fragmento nos interpela; é o que nos toma em exigência (in den Anspruch nimmt) e para onde devemos ouvir previamente e constantemente.
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Torna-se necessário considerar mais detidamente a palavra tà ónta e o que ela nomeia antes da interpretação dos dois períodos, pois ela é o fio condutor para a compreensão do dito do fragmento.
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A advertência de que apenas o próprio fragmento pode dar a informação adequada sobre como as coisas se dão com os entes é correta, mas isso não dispensa a necessidade de uma interpretação prévia que elucide o que o fragmento diz sobre os entes.
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A interpretação dos períodos do fragmento requer um olhar e uma escuta prévia para tà ónta, os quais precisam da clareza (Helle) adequada, que é tanto luz para o ver quanto som para o ouvir, e que é mais originária que ambos.
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A elucidação (Erläutern) visa trazer à pureza (ins Reine) o que se tornou turvo e surdo, e por isso é necessário tentar dizer a palavra tà ónta de modo mais claro e pensante, sem consideração explícita pelo conteúdo do fragmento.
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Pensar mais pensantemente essa palavra significa considerar que ela é uma palavra grega que nomeia, em nossa língua, “o ente” (das Seiende), o que já nos remete à sua relação com o ser.