“A verdadeira causa” não é a essência dos deuses, o Celestial, tampouco o feito dos meramente mortais, que não ousam aquilo em que um deve “recolher-se” (verso 51), ao ousar simultaneamente e em uma unidade o Celestial (Sem-Dúvida) e o Abissal, o “dia nupcial”.
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O que quer permanecer “informe” e tomar-nos “com avidez excessiva” e poderia oprimir-nos como o meramente temível — esse Informe é reunido pelos heróis na unidade do Verdadeiro, ao ousá-lo como Abissal simultaneamente com o Sem-Dúvida, que sem lei se modifica e assim se instaura inicialmente como lei.
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Aos Celestiais isso é recusado, pois não alcançam o abismo e, portanto, jamais podem reunir da unidade a contraposição extrema do Informe e do Sem-Dúvida — unidade que é o Verdadeiro, a originariedade do Seyn mesmo.
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O Verdadeiro “se acontece” — subitamente —: aparentemente perdido e destruído no longo tempo, irrompe entre os homens e os deuses e assim os força pela primeira vez ao confronto.
O Verdadeiro é o Es-pantoso, o Originário, que por isso mesmo nunca pode ser encontrado em nenhum lugar e em nenhum momento no meditar e no Andenken; esse Es-pantoso, o Seyn, porém, se acontece não por si mesmo, mas para que o ente seja primeiro — aquilo que é sempre preservado no Gedanken e ao qual o amor se prende — o Amado.
Como a Mnemosyne se relaciona com o dizer do “Verdadeiro”? Obscura o suficiente é a estrofe dos versos 46 ss., ausente em Zinkernagel, mas que traz para este poema, para nós, uma fraca luz.
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A cidade e lugar de Mnemosyne é Eleutherá.
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Liberdade e Andenken entram aqui em relação.
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Liberdade (originariedade do deixar-brotar como fundamento de todo fundar) é o lugar do Andenken, toma-o sob sua guarda e ao mesmo tempo lhe presta serviço.
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A Mnemosyne, porém, como olho do amor, é ela própria a amada do “deus vespertino” — ela é o arriscado do arrisco abissal e pertence assim ao Andenken dos heróis que arriscam, que ousam o Entre do Abissal e do Sem-Dúvida.
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Mas ela não é arrastada ao Informe, e sim protegida no domínio daqueles que — arriscando-se ao extremo — ainda assim se recolhem e aos quais nenhuma angústia acometerá.
“Como, porém, o amado?” (verso 20): a resposta está dada — ao ser tudo aquilo ao qual o Andenken se prende e que ele encerra em sua simples amenidade e generosa pacificidade, redimido no instaurar recolhido do Seyn, que carrega consigo a abissalidade das “madeixas soltas”.
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Assim o Seyn jamais se torna vão desejo representado e construção verbal; tampouco lhe falta a igualação com o Celestial.
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Mais originário do que este, o Verdadeiro recolhe em si todo Amado em sua mais pura integridade e plenitude luminosa; a Mnemosyne pertence ao herói para com ele celebrar o dia nupcial do Seyn nos únicos instantes do Seyn.
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Quanto mais decidido e ousado o poeta fala para a essência extrema do Verdadeiro e seu pensar não teme mais abismos e despedidas, tanto mais íntimo se torna o chamado rememorante aos heróis “que morreram grandes”, pois no fundar do Seyn tornaram-se vencedores sobre os mortais, poderosos sobre os deuses.
O pensar mais originário do poeta fala nas brasas luminosas e plenas das coisas simples; também aqui está velada, pela Mnemosyne, a originariedade da liberdade.
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O dizer do Andenken é pensar-inventivo; o mais íntimo ater-se ao ente é o salto mais ousado no Seyn.
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O longo tempo, de que a preparação do Verdadeiro necessita, encontrou, por este próprio poema e pelo breve ser-aí deste poeta, seu instante, em que no mais fundo do Informe “com está o deus” — e tudo se volta para uma origem a partir do Seyn.
Que este poema não se deixe dissolver num cálculo tranquilo de nexos racionais, que um Solto envolva o Reunido e o Arrisco force o Informe, que o Abissal seja protegido e o Decidido traga outra lei, que os deuses não contemplem tudo, sublimes e indiferentes, mas invejam nos heróis o abismo e o Entre com desagrado, que os homens não derivem na prazeridade esclarecida, mas o seu Amado receba do obscuro do Questionável (“Como, porém, o amado?”) os grandes fundamentos e amplitudes — tudo isso subtrai tal poetar ao rebaixamento para a compreensibilidade comum e culta, que só quer explicar e contabilizar, para então, tranquilizada, passar ao próximo e deixar suas artes se exercitarem.
Mas será a poesia forte o suficiente para lançar sua instauração como início de uma Outra História na confusão e impotência de metas do Ocidente?
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Ela certamente o é — e não se deve sequer formular tal pergunta.
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O que é questionável é apenas se estamos preparados para ainda pressentir o que aqui está fundado como o “Permanente”: o reino intermediário entre os deuses e os homens, sustentado por seu abismo e reunido em sua decisão.
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É questionável apenas se somos capazes de, em longo meditar e pensar-antecipador, alcançar a vantagem que a instauração de
Hölderlin desse reino realizou — reino que não é novo nem velho, mas que, fora do antigo e do novo, encontrou no Antiquíssimo ainda não fundado o Intocado, do qual o ente deve emergir mais uma vez, se há de tornar-se a guarda da verdade do Ser e exigir dos deuses a conquista do homem e do homem a pertença aos deuses.