A. A Ἀλήθεια e a Wahr-heit
(ὁμοίωσις — rectitudo — iustitia — Gewißheit — Gültigkeit — Sicherheit — Wert)
1. O Seyn — A Wahr-heit — O Er-eignis
1. Investiga-se a ambiguidade do τὸ ὄν entre ente e ser, remontando à οὐσία τοῦ ὄντος como ser-idade do ente e como o mais ente enquanto causa e princípio, para perguntar pelo que concede a clareira enquanto tal — a Ἀλήθεια —, concluindo-se que a verdade que assim se clareia é o próprio Seyn, que a verdade é a Wahr-heit, e que a Wahr-heit é o Er-eignis.
2. Ἀλήθεια — Φύσις
2. O termo “resguardar” (Bergen) significa tanto pôr em segurança e salvar (σῴζειν) quanto manter fechado em si e conter de modo preservador como o não erguido, sendo o primeiro sentido uma espécie de retorno ao segundo, o que leva a perguntar em que medida a desvelação (Unverborgenheit) pode, enquanto tal, preservar algo, já que a Ἀλήθεια resguarda a Φύσις, ambas pensadas aqui apenas em vista do aberto e do abrir-se.
3. Sobre a conferência “Da essência da verdade”
3. O pensar aqui é um retornar ao sempre questionável, cuja região mais digna de ser questionada é a própria região do ser, e não algum ente como o sujeito enquanto condição de possibilidade da representação, nem uma causa superior como condição de um efeito, não restando aqui mais nenhuma consideração transcendental nem qualquer questionar ao longo de uma série de condições, mas apenas a instância (Inständigkeit) na referência ao Seyn.
4. A questão do ser
4. Distinguem-se três momentos na verdade do Seyn: primeiro, a verdade do Seyn ainda como abertura, condição de possibilidade do projeto, isto é, da desvelação; segundo, a verdade do Seyn como o próprio Seyn autêntico, a Wahr como o resguardo velado-desvelante; terceiro, a Wahr como o Ereignis, do qual se ramificam o ser-homem e a verdade do Seyn através do carecer e do começo, constituindo a passagem de (1) a (3) através de (2) uma mudança segundo o modo do outro começo.
5. A Wahr-heit. A verdade do Seyn
5. Não se trata de uma representação correta sobre o ser como objeto desse representar, mas a Wahr-heit pertence ao Seyn como sua propriedade, aquilo que o Seyn tem por próprio como seu próprio autêntico, o autêntico mesmo.
6. A Wahr-heit do Seyn
6. O Seyn é o ser que retorna à sua própria Wahr-heit, sendo a Wahr-heit do Seyn este mesmo enquanto retorno à chegada, de modo que a Wahr-heit é a Wahr-heit do Seyn, constituindo a gramática histórico-do-ser (seynsgeschichtliche Grammatik).
7. Liberdade
7. A liberdade, como determinação do ser-homem e como o determinante dessa determinação, consiste na pertença à propriedade do Seyn, aquilo em que o Seyn essencializa propriamente como ele mesmo, apropriando-se a si e assim justamente se-apropriando (er-eignend).
8. A liberdade
8. O Seyn precisa do homem e o liberta para a liberdade, sendo a liberdade a generosidade (Weitmut) do responder que alcança a Wahr-heit, na qual a utilizabilidade do homem se resguarda para a preservação da Wahr-heit, sendo a liberdade a pertença apropriada à região e o contentamento em que repousa a ampla generosidade.
9. Tudo o que é essencial é sereno
9. O que é sereno resguarda ao mesmo tempo o que é resguardante da luz obscura.
10. Da verdade do Seyn
10. É a partir da verdade do Seyn que se transforma o “é” e tudo o que é dizível na dição pensante, devendo todo entendimento partir dessa transformação.
11. A Wahr-heit e o Espaço-tempo
11. Trata-se da região (die Gegend) como articulação entre a Wahr-heit e o espaço-tempo.
12. A verdade
12. A Wahr enquanto resguardo velado da desvelação (em que o desvelar propriamente começa a partir do resguardo da velação) constitui a concessão (Gewährung) cujo garantir resguarda, sendo o começo a cisão, o “Não” que nunca nega nem apenas afirma, mas confronta (gegnet) na con-frontação (Vergegnung), de modo que a Wahr-heit do Seyn é o Seyn incipiente e, no entanto, ainda não ele mesmo — o Ereignis.
13. Heráclito
13. O ἀλήθεια λέγειν consiste em reunir o desvelado e preservar o velado na desvelação, inserindo isso na essência do representar segundo o desabrochar de si mesmo próprio do ente.
14. [O Seyn]
14. O Seyn confronta, o Seyn é-se (istet), o Seyn nadifica (nichtet).
15. [Deixar-ser]
15. O deixar-ser conduz à serenidade (Gelassenheit) na Wahr-heit, não apenas de modo moral mas comportamental, conduzindo ao agradecimento.
16. A Wahr-heit e o Seyn
16. A essência histórico-do-ser e apropriadora da verdade consiste em ser o resguardo clareante, incipiente e apropriado, da velação do começo, sendo que o Ereignis se clareia confrontando o homem ao chamar sua essência desde o começo para a con-frontação na região como sítio apropriado da perseverança do que vem.
17. A Wahr-heit
17. A Wahr-heit é a Wahr enquanto Ereignis, o resguardo preservador-concedente do aberto no qual o desabrochar surge e desaparece, sendo esse desabrochar clareado na Wahr-heit sem que esta mesma seja apropriada propriamente como o Seyn incipiente.
18. A clareira
18. Iniciante e apropriadora, a clareira consiste em liberar a liberdade como essência do resguardo do ser no começo, sendo o aberto livre a partir do livre para o livre.
19. [Começar]
19. A raiz de “fangen” (capturar, tomar, reter) conduz a “anfangen” (começar), no sentido de receber e acolher de antemão.
20. A Ἀλήθεια e o Aberto
20. O aberto é a essência da Ἀλήθεια, o ser que se abriu ao “ente” que dele essencializa, sendo a abertura do aberto a essência mais incipiente do ser ainda a ser pensada, a abertura como a clareira enquanto liberação da liberdade, esta como o simples que, no excesso de si mesmo, se captura e se retém — o simples do Ereignis —, sendo esse resguardar que se captura a capacidade de resguardo (Bergsamkeit) do começo.
21. “O Aberto”
21. Citam-se versos das Elegias de Duíno de Rilke sobre os pássaros que talvez sintam o ar ampliado com voo mais íntimo, sobre os viventes que erram ao distinguir demais entre vivos e mortos, sobre o volatilizar-se no sentir, sobre se o espaço cósmico em que nos dissolvemos tem gosto de nós, e sobre tudo nos ocultar enquanto árvores e casas persistem e nós apenas passamos como intercâmbio aéreo.
22. Ἀλήθεια e o aberto — Abertura — Clareira — Ereignis
22. Quanto mais essencialmente se pensa a essência da Ἀλήθεια e não apenas se a significa numa acepção verbal, tanto mais insistente se torna o pensamento de que a desvelação e a desocultação teriam sempre de ser “para” uma percepção, questionando-se se uma desocultação seria pensável “em si”, havendo aqui talvez uma encruzilhada da meditação entre extraviar-se no subjetivo e no representar ou ingressar no caminho para um “essenciante” que pertence originariamente ao começo sem que este dependa daquilo de que seria começo.
23. A Desvelação
23. A desvelação subtrai o aberto, que assim entra na aparência do vazio, perguntando-se se não é antes a plenitude do simples, plenitude essa recolhida no resguardar do qual provém o desvelar, resguardo do simples como fundamento da dilatação.
24. A Abertura
24. A abertura não é meramente manifestação, mas a possibilitação essencial desta, não sendo primeiramente um contraposto objetual ou propriedade de um ente, mas a clareira “do” Seyn, ou seja, o próprio Ereignis, sendo até a noite clareira, e a abertura não é nem espacial nem temporal, prévia ao fundamento.
25. Abertura
25. O aberto não é o ilimitado nem o acessível, mas a abertura na singularidade de sua essência, que não pode ser determinada a partir de limite, acesso, obstáculo ou barreira, pois tudo o que se pudesse ainda invocar já necessita da abertura e “é” a partir dela, arrebatando a ἀλήθεια numa inaudita incipiência para dentro da essência, sendo a abertura a essenciação do próprio Seyn.
26. O Aberto
26. O aberto como o infinito é evocado a partir das Cartas de Muzot de Rilke, referindo-se ao espaço ininterrupto.
27. O Aberto
27. O ilimitado não se opõe ao separado, mas pertence ao mesmo todo único a que pertencem morto, futuro e presente, sendo o irrestrito o que o infinito admite, evocado por Rilke como o mundo mais aberto, o todo do qual passado e porvir não se delimitam do presente que “é”, o mais profundo ser, o aberto como o mais vasto contorno e o todo, inclusive como o ferido-aberto da outra metade da vida — os mortos.
28. “O Aberto” —
28. O ilimitado, sem forma (πέρας), livre de morte e de limite, é evocado como o animal mais livre, isento de limite, do “Nada” e do “Não”, entrando no ilimitado como a eternidade — “Deus” —, no puro espaço, no infinito sem fratura nem interrupção, sem contraponto limitante, não vigiado mas contemplado, no puro sair para fora e livre, enquanto a “despedida” surge como negação.
29. Abertura
29. Também tudo o que é “fechado” onticamente permanece ainda no aberto — como se poderia de outro modo nomeá-lo, conhecê-lo e experimentá-lo, estar diante do museu fechado —, sendo esse “estar diante” possível apenas numa clareira, numa abertura, que não é propriedade coisal das coisas nem simples consequência da objetivação, mas se dá apenas na condição-de-abertura (Offenständigkeit) do “homem”.
30. Rilke — “o Aberto”
30. O ilimitado, o infindável, o infinito (nos sentidos “mau” e “bom”) aparece em Rilke ainda como um vorhandene em que outro vorhandene está inserido, interpretado segundo traços antropológicos comuns, mas removendo-se a barreira, o “contraposto”, enquanto este contraposto, o objetual, ainda que resto e confuso, é do ser e aceno do ser, a única distinção pela qual há sequer uma referência.
31. O Aberto
31. O aberto (offen) significa o que está “aberto para cima” — desabrochado (apertus), aberto ao estar (patens), aberto-manifesto (manifestus), público (publicus) —, sendo a abertura reconhecível de modos diversos conforme o fechamento e a abertura que a determinam e possibilitam: olho aberto, porta aberta, céu aberto, mar aberto, museu aberto.
32. Rilke
32. A metafísica biologista de Rilke exibe o esquecimento do ser em sua culminação, comparável a Nietzsche, ao que corresponde a reinterpretação e o uso cristãos.
33. Ἀλήθεια — Abertura. Ἀλήθεια — ἀληθές e seu alojamento e resguardo
33. Pergunta-se de imediato para quem e onde o desvelado é tal, como se isso só pudesse ser para um eu, sem se pensar o Ereignis da clareira que primeiro concede ao homem a essência clareada a partir da qual ele percebe, nem se considerar que a desvelação se resguarda na clareira que a sustenta.
34. πῶς ἄν τις λάθοι (DK 22 B 16)
34. Ninguém pode estar oculto (λάθοι) diante daquilo que nunca desaparece — sempre desabrochar, φύσις —, sendo o desabrochar não algo objetual mas desvelante, colocando no aberto, e determinando a essência do homem de tal modo que este, enquanto ente, é da espécie do ser — desabrochando, portanto desvelado; assim Ἀλήθεια — εἶναι — ἄνθρωπος.
35. Ἀλήθεια
35. Ἀλήθεια liga ἀληθές ao desvelado, ao ὄν e aos ὄντα, e a desocultação ao μῦθος ὅπος, surgindo a opinião cega de que um ἀληθές dos ὄντα só seria possível numa atividade humana receptiva e reativa que se esforça por aproximar-se do ente, quando na verdade nem o “caminho” em si é o percurso aberto nem a atividade receptiva é desvelante e determinada pela Ἀλήθεια.
36. O Homem e o Ser
36. Tratando-se aqui do homem histórico-ocidental — “histórico” significando que o ente enquanto tal é experimentado no seu conjunto e a partir dessa experiência se age e se realiza —, colocam-se as questões de como o homem se relaciona com o Seyn, como essa referência determina o homem em sua essência, de onde e como o vínculo do Seyn com o homem essencializa e o funda e atinge, em que medida se exige do homem um ser inteiramente outro — a instância no Da-sein —, como esse vínculo e o Da-sein se comportam e são “históricos” no Ereignis, e a supressão do homem como animal rationale, cuja essência incondicionada aparece no “além-homem”.
37. Ἀλήθεια
37. Essa relação não se deixa pensar como simples relação recíproca, pois se a desvelação “é” quando o ser essencializa e dela brota o “quando”, não seria então “tudo” desvelado, permanecendo em aberto onde estão os limites e onde começa o velado — decisão que cabe sempre ao modo de essenciação do Seyn, não à capacidade e ao saber do homem, embora esta última também não seja algo acessório.
38. Wahr-heit e Wach-heit — Capacidade de resguardo
38. Ἀλήθεια relaciona-se com ἐγρήγορσις, a vigília, e com φύλακες, os guardiões, discutindo-se se a vigilância remete a uma segurança ou a uma essência outra, e situando-se a capacidade de resguardo na essência da desvelação, uma vez que a desvelação não é mera publicação e entrega ao público, mas sobretudo a retomada para o puro e não perturbado desabrochar.
39. Capacidade de resguardo
39. O resguardo do desvelado no “ser” — que deixa essencializar o abrigo na desvelação e a própria desvelação como sua essência (τὸ γὰρ αὐτό) — faz com que o desvelado apareça primeiramente como o ente.
40. A negligência da verdade. A leviandade metafísica
40. Que sua essência não seja tomada em cuidado, que o saber a respeito dela se torne selvagem, que a verdade não seja resguardada — a Wahr sem o ser-homem que lhe é próprio, sem negligência, arrancado dela, abandonado no desamparo do ser — é o ente, sendo essa negligência o processo mais íntimo que atravessa a história metaficamente determinada do Ocidente, e suas manifestações históricas constituem a devastação do ente no perecimento do ser no vazio da desessência liberada.
41. Da essência da verdade
41. O verdadeiro distingue-se entre o que é, o que efetivamente ocorre, e o que deve ser, aquilo que importa, sendo essa a verdade da metafísica, questionando-se o que é — a técnica, a balança eletrônica, o homem, o poder — e o que deve ser — o domínio, o poder —, remetendo-se ao já existente projeto de Nietzsche sobre verdade e mentira no sentido extramoral.
42. Verdade
42. Perguntar por que há verdade exige perguntar por que se pode assim questionar, e o questionador quer saber a essência do cognoscível e do a-conhecer, determinada pelo que-há-de-saber, pelo que-há-de-pensar, pelo agradecer (Verdanken) como pensar-adiante (Er-denken), estando todo pensar-adiante no limite essencial do agradecer, e sendo a Wahr-heit uma guarda, um agradecer como guardar.
43. O esquecimento do ser. O inaparente Ereignis. A verdade do Seyn
43. Explica-se provisoriamente a nomeação em três direções: a partir do Seyn, tendo em vista o ser em relação ao ente e a respectiva diferença; a partir da verdade, como retidão, como Ἀλήθεια, como Wahr-heit, clareira do resguardo; e a verdade do Seyn como indicação da superação (Verwindung).
44. Litígio
44. Distingue-se o litígio como rixa, discórdia e dilaceramento aniquilador, e como disputa verbal — rancor, inveja, zelo, contenda de emulação, ambição de glória (δόχα) —, envolvendo o reconhecimento do outro e a mesura.
45. [Fechamento]
45. O fechamento espreitador e ameaçador, sombrio e sem remédio, é a noite.
46. Ἀ-λήθεια | ἔρις |
46. O caráter litigioso de sua essência determina todo o agonal em sua essência de fazer aparecer, não vendo ainda Nietzsche o decisivo.
47. ἀλήθεια — ὁμοίωσις — ὀρθότης
47. Aristóteles enfatiza a ὀρθότης referindo-se primeiramente ao ὄρεξις — ποίησις e πρᾶξις, τέχνη e φρόνησις —, sendo a partir daí que a ὀρθότης passa a sobrepujar a ἀλήθεια.
48. [ἀλήθεια]
48. ἀληθείην — καταλέγειν articula-se com κατά, καθ' ὅλου e κατηγορία, recolhido a partir do todo.
49. “Verdade”
49. Estamos demasiado habituados a decidir sobre verdade e falsidade segundo as alternativas da lógica, em vez de considerar que na essência da aparência enquanto aparência jaz oculta uma riqueza ainda não erguida de referências próprias.
50. Maldição
50. A maldição recai sobre aqueles que não mostram o caminho aos que erram, sendo a bênção mostrar o caminho, e ligando-se salvação, consagração e Ἀλήθεια ao “caminho” e ao erro.
51. [ἀλήθεια]
51. Pergunta-se em que sentido a ἀλήθεια é εὐκύκλεος — o círculo como envolver, incluir, delimitar sem escoar, andando encadeadamente sem lacuna — a partir da essência da desvelação “do” ser, ligando-se εὐκύκλεος ao πάντα, a completude e a desvelação, trazendo tudo à luz sem reter nada, o todo não como soma mas como unidade essencial do ser.
52. ἀληθές — λήθη
52. ἀληθέα (ἀληθείην) μυθήσασθαι e καταλέγειν significam dizer o desvelado e não-dissimulado (μεμνῆσθαι, reter, conforme Homero), isto é, adentrar através da velação, do encobrimento e da dissimulação no domínio do desvelado, pensado gregamente não a partir do representar e do apresentar-se no sentido de trazer o objeto, mas como um ingressar em, um avançar para o domínio do manifesto, um estar de si mesmo em sua própria luz.
53. ἀλήθεια — εἶναι. λήθη, λήθομαι, λανθάνομαι
53. A velação, o estar-velado em algo e para algo (o escapar, em distinção do vir-a-ser e desabrochar), o esquecer como estar em algo na velação, deixado no velado de modo que o velado afunda na velação, o negligenciar e não atentar, expressam-se em λήθει τινά τι — algo escapa a alguém, conforme Heráclito, fragmento 16 —, e em λήθη ποιῶν τι — permaneço velado em fazer algo, ajo amigavelmente —, sendo λήθη a velação, a velatividade, aquilo para onde algo afunda.
54. Ἀλήθεια e o cruzamento de três caminhos
54. Há na Ἀλήθεια uma dupla oposição: à velação, questionando-se como isso foi interpretado no primeiro começo através do μὴ ὄν, pois a velação não foi experimentada propriamente e menos ainda como resguardo; e à dissimulação (aparência), constituindo-se assim na Ἀλήθεια, de modo duplo e diverso, o “Não” como o contrário (δόξα, desessência) e como o sem (μὴ ὄν, ausência), o nadificar na desvelação — a velação do “não” —, o segredo da desessência, sendo a essência da λήθη e a essência do não- alcançáveis apenas mediatamente, uma vez que a ἀλήθεια não é pura abertura e nada mais.
55. ἀλήθεια — φύσις
55. Discute-se a essência aletiológica da φύσις e do ser, em distinção daquela determinada a partir da οὐσία como ἀεὶ ὄν, remetendo-se à interpretação de Anaximandro na “Passagem”.
56. Verdade
56. “A verdade” reúne o verdadeiro, o correto, o válido e o seguro, referidos às coisas, ao comportamento e ao todo.
57. [πάντα]
57. Tudo é palavra da Ἀλήθεια, sendo o πάντα em seu ἕν o fundamento.
58. A verdade do ser
58. A verdade é aqui o essenciante da essência do ser, de modo algum outra coisa como o conhecimento (intellectus) do ser ou algo dito “sobre” o ser, tampouco algo além (ἐπέκεινα) do ser — antes a superação, mas esta vincula a desconstrução (metafísica) em seu fundamento e coroa, sendo a própria viravolta (Kehre) essencialmente o começo, não “a verdade” por si; a verdade do Seyn é o Seyn da verdade — a viravolta é o Ereignis.
59. Wahr-heit e Ser
59. A “verdade” é a “essência” do ser, isto é, o ser do ser, o incipiente do ser, mas a verdade é incipientemente ἀλήθεια e, no outro começo, a “Wahr-heit”.
60. [ἀλήθεια]
60. Relacionam-se a ἀλήθεια e a Wahr-heit, a ἀλήθεια e a clareira, a clareira e o escavamento, o oco e o luminoso.
61. “A Wahr” e a verdade (Pensar)
61. Como guarda e atenção, o guardar (Wahren) é preservação; atentar significa observar, honrar, prezar, e a verdade consiste no acautelamento e na função de guardião, o resguardo da velação, não de uma abertura, clareira, liberdade, serenidade.
62. A “Wahr-heit”
62. A Wahr em seu guardar e conceder, experimentada histórico-do-ser a partir do primeiro e do outro começo, nomeia a desvelação da clareira e o resguardo da clareira na velação da incipiência do Ereignis, nomeando o Er-eignis ambas as coisas.
63. A verdade do pensar histórico-do-ser. A “confirmação” dessa verdade
63. Do ponto de vista metafísico, poder-se-ia conceber o pensar como “intuição” do ser, a comprovar-se então no ente, de modo que a verdade e sua confirmação “cresceriam” com o número de comprovações, comprovações que consistiriam em mostrar que o ente se revela essencializando à maneira do ser — cálculo esse que constitui pura ilusão, senão algo mais funesto, pois permanece a questão sobre à luz de qual ser é visto o ente comprovante, uma vez que ou é visto à luz de um ser experimentado diversamente, e então nenhuma comprovação é possível, ou é visto à luz do próprio ser a comprovar, e então toda comprovação nunca é uma comprovação, além de já supérflua.
64. A Wahr-heit | a circunspecção
64. A Wahr-heit é a “essência” daquilo que pertence à Wahr da clareira, sendo na clareira que se experimenta a essência da ἀλήθεια, pois a clareira libera o ente e assim o guarda em seu ser, já que a própria clareira é o Seyn essenciante — o Ereignis —, necessitando a Wahr mesma do resguardo.
65. A verdade e a exigência de sinais distintivos e de medida
65. Pergunta-se por que reconhecemos o verdadeiro como tal e o que nos assegura o verdadeiro, e por que o verdadeiro é medido, sendo o “verdadeiro” tratado como uma coisa da qual devemos tomar posse, diante da qual já nos arvoramos “possuidores” antes de qualquer discussão — pretensão essa talvez contrária à própria verdade, pois talvez sejamos antes fugitivos e caçadores de segurança que pretendem escapar da essência da verdade sem, contudo, poder fazê-lo, opondo-se a questão dos critérios à instância (Inständigkeit), pretensão de calcular e objetivar que apenas conduz à desessência, devendo trazer-se à aparição a experimentação da essência da verdade como Da-sein — mais essencialmente, como instância no Da-sein.
66. [Vinculatividade e validade]
66. Tão errado quanto apegar-se à vinculatividade e à validade é insistir na concordância com o objeto, pois este permanece indiscutido quanto à questão de haver ou não tal concordância com o ente e de este, se essencializa incipientemente, se contentar com essa medida, sendo a vinculatividade e a validade de cunho cristão-moderno.
67. Verdade. O juízo sobre a “verdade”
67. O juízo sobre a “verdade” já está inserido na decisão sobre uma essência da verdade, decidindo essa essência o próprio ser ao “ser”, permanecendo cega pretensão e falsa honestidade ocupar-se do “verdadeiro em si” desconsiderando de antemão o vínculo do ser com o homem, que já decidiu a essência do ser-homem, e sequer conhecê-lo.
68. Não-verdade. A verdade da história | Wahr-heit — ἀλήθεια
68. A Wahr-heit de uma poesia ou de um pensamento é desprotegida e necessariamente entregue, desabrigada e obrigada na clara inospitalidade, sendo a Wahr-heit, como essenciação da Wahr, precisamente não resguardo — portanto Não-Wahr-heit —, provindo esse “Não” de outro lugar que a ἀ-λήθεια, não negativo nem privativo mas talvez declinante.
69. ἀλήθεια e Verdade
69. A desvelação é “essência” da desocultação, e esta “essência” do desabrochar, sendo o desabrochar a pura pre-sença (An-wesen) que nunca percebe a percepção, ainda não οὐσία nem ἰδέα mas superação.
70. Wahr-heit e Abertura. A essência da Wahr-heit no pensar histórico-do-ser do começo
70. A guarda clareante provém do acautelamento no Ereignis como começo declinante, estando essa guarda, por força da clareira, num vínculo histórico-do-ser com a φύσις-ἀλήθεια, que ainda resplandece, embora desconhecida e encoberta, na ἰδέα, na repraesentatio e na objetualidade e certeza como o clareado em que essencializam toda adequação e objetividade.
71. A essência da Wahr-heit e o resguardo
71. O resguardo articula-se à instância e à experiência, em oposição à validade, certeza e vinculatividade, esta última ligada à “religião” — a religio como interpretação romana da con-frontação com os deuses —, ligando-se o resguardo da Wahr-heit à liberdade, que provém da superação do Seyn e da dignidade-de-questionamento do Seyn, sendo essa liberdade incipiente concedida a partir do Seyn apenas ao agradecer.
72. εἶναι — φυά | Litígio
72. O desabrochar, a ascensão, o erguer-se, o aberto que se ergue no esplendor, o aparecer, o brilhar, o resplandecer constituem o “ser”, que não é mera “efetividade” e operar, mas aquilo que ainda não e não mais necessita do operar, fundando-se aí o litígio como confronto enquanto ex-posição do mais alto e do mais puro, sendo o entre-si liberação e abertura, e o contra-si emergência no crescer e superar, residindo a essência aletheica do litígio na própria ἀλήθεια.
73. [Deuses e homens]
73. É igualmente errado dizer que os gregos divinizaram o homem e que humanizaram os deuses, permanecendo essencial que ambos estivessem situados onde um não necessitava e o outro jamais quereria cometer.
74. A guarda — a Wahr-heit
74. O Seyn mesmo carrega o pudor de ser, estando por isso incipientemente de guarda para com sua essência, sendo esse “estar de guarda” e a própria guarda, onde ele começa (an-geht) e de onde essencialmente parte, a incipiência do começo, essência esta do Ereignis, sendo essa incipiência a origem da Wahr-heit, questionando-se se poderíamos trazer a palavra alemã Wahrheit a um fundamento originário de uma essenciação dizente e nela escutar a dicção do outro começo.
75. A ἀλήθεια e a Verdade
75. A ἀλήθεια ainda não é a clareira do velar-se, não o desabrochar da capacidade de resguardo como tal, isto é, ainda não o declínio essenciante, mas primeiro e apenas desvelação, abertura, desabrochar, em que essencializa a pre-sença e o presente digno-de-agradecimento “é”, isto é, vem ao ser a partir da anterior falta de ser.
76. ἀλήθεια e a Wahr-heit. A guarda (capacidade de resguardo) da viravolta
76. A ἀλήθεια, de essência incipiente, é ambígua para nós enquanto resguardo, sendo antes o aberto, a clareira; a Wahr como guarda, e propriamente guarda da clareira do Seyn; e a Wahr-heit a essenciação da guarda, esse essenciante sendo o começo mais incipiente.
77. Ἀλήθεια (ambígua)
77. A ambiguidade só se desvela no outro começo, havendo aqui um segundo sentido a partir da Wahr e do resguardo: primeiro, a desvelação como essência do desvelado enquanto tal, o desvelado no sentido do aberto-para-tudo, a abertura experimentada no aberto — o λάθ estreitando-se em esquecimento —, negligenciando-se o velamento e seu fundamento essencial apropriador; segundo, a desvelação como desocultação do apropriar-se do resguardo e da capacidade de resguardo incipientes-essenciais e não anteriores do ser — a verdade do Seyn como Seyn da verdade: a viravolta.
78. ἀλήθεια
78. A ἀλήθεια é “originariamente”, isto é, incipientemente, a essenciação do próprio começo, não sendo esse “começo” o mero “início” nem a causa de uma gênese e desenvolvimento, podendo o começo ser pensado apenas incipientemente em sua própria propriedade essencial, que é “o nada” no sentido do não-ente.
79. Ἀλήθεια
79. A não-velação, cuja procedência como essência essenciante permanece a perguntar, consiste em nada mais permanecer velado, sem pano de fundo nem segredo, tudo na clareza e simplicidade de sua presença.
80. Ἀλήθεια — εἶναι
80. O “ser” e também o ente não se “manifestam” como se o ser fosse por si e o “manifestar-se” um acaso, sendo antes o tornar-se-manifesto o desabrochar na clareira do aberto que se expande no desabrochar, sendo esse desabrochar apropriador o próprio ser como essenciação da desvelação resguardante, não estando o apropriador além de … ser e “devir”.
81. Pre-sença e Permanência
81. Concebe-se “o permanente” como aquilo que subsiste sobre o singularmente emergido, nisso se enrijecendo e regulando por isso tudo o que “é”, constituindo a fixação no limite circunscritor uma certa interrupção da referência à pre-sença como passagem do emergir ao desaparecer, sendo a “presença” a pre-sença fixada, interrompida, fraturada, colocada em cortes e limites, tornando-se assim fundamento da permanência.
82. A pobre-alegria (Arm-seligkeit)
82. Pergunta-se o que acontece se não tivermos a coragem da pobreza.
83. Wahr-heit
83. Deixar-se tornar claro, para que sejamos mesmos significados pelo Ereignis e inseridos no indicar dos sinais, constituindo isso a clareza da Wahr-heit.
84. A Wahr-heit. A Ver-bergung (velação)
84. A palavra costuma significar esconder, tornar inacessível e manter distância — um afastar —, questionando-se se ela não deveria antes nomear o puro resguardar que se recolhe em si, este como manter-se pronto para a liberação da apropriação, do qual e com o qual brotariam em uno o velar e o preservar no inaparente, sendo isso, no dizer, o não-dito.