1.F. Anfang

F. O primeiro início — rememoração do primeiro início

72. O tempo chega em que raramente se pode conhecer o início da história ocidental, a partir do qual uma essência da verdade foi decidida e o Ocidente predeterminado em seus limites.

73. No primeiro início, o pensar (Denken) consiste em noein-legein, apreensão reunidora no e com o desvelado, não sendo intuição — esta somente surge quando noûs e noein tornam-se idein relativos à physis como ideia — nem tampouco representação, entrega a si mesmo de algo como algo, cujo “como algo” é o conceptum de um concipere enquanto percipere.

74. A apresentação do primeiro início exige, primeiro, tomar a série Anaximandro-Heráclito-Parmênides cada qual por si; segundo, reconhecer que cada um já difere implicitamente ao pensar adiante e em referência à metafísica; terceiro, atentar especialmente à inceptualidade do primeiro início; quarto, considerar que aqui início e algo inevitável fundam a história, o que vem, o outro início e o perdurar, dizendo-se o essencial da interpretação apenas a partir desse nexo início-início, de modo que ela mesma se torne experimentável como história e todo semblante de metodologia desapareça; quinto, atender à intimação do seer, sem apresentações historiográficas, apenas rememorando tudo numa firmeza reticente, ainda que apenas preparatória.

75. A essência do ser no primeiro início revela-se, isto é, essencializa-se inceptualmente, emergindo e avançando, só sendo possível pressentir o primeiro início se os traços básicos da inceptualidade forem constantemente rememorados em sua unidade inceptual, sendo o ser o início, e o início o desvelamento (Entbergung) rumo ao desvelado (aletheia), desvelamento este o emergir que retorna a si mesmo por possuir o velamento de onde emerge.

76. A rememoração no primeiro início aparenta capturar algo historiograficamente remoto e inacessível através de um salto sobre toda a história anterior, como se se tratasse de um passado subsistente e inapreensível apenas em seus resquícios; contudo, o que deve ser rememorado não é passado algum, mas a essencialização do que vem, o próprio ser em sua verdade, exigindo não fuga de nós mesmos nem a vindicação de sermos meros errantes bem informados, mas atenção à relação essencial mutável do ser autoprojetante à essência do humano, requerendo apenas firmeza no excessivamente próximo.

77. Nesta apresentação inceptual do primeiro início, o ser deve receber precisamente o nome de physis, embora esta não expresse a essência da verdade do seer tal como pensada no outro início, sendo esse nome necessário na medida em que physis, corretamente apreendida, aponta para a emergência e intima a aletheia, além de bastar para desestabilizar de imediato a interpretação equivocada do início como filosofia da natureza.

78. No primeiro início ainda não se inicia o seer como evento; a physis diz a emergência, o lançar-raízes emergente e o conferir postura ao que se mantém constante ao sobressair-se no domínio aberto emergente, sendo emergência portanto presença e constância — cabendo perguntar em que medida a constância é a essência distorcida da presença.

79. O primeiro início é o ato de começar no sentido do desocultar do desocultamento, portanto a emergência na constância do desocultamento em desvelamento, portanto o aparecer-adiante deste no ato de aparecer, portanto o impor-se do aparecer como aparência, portanto a subjugação do desvelamento, portanto o abandono da inceptualidade do início, portanto o entregar o início ao avanço, portanto o começo da verdade do ser como entidade dos entes, portanto a prioridade dos entes mesmos como o propriamente presente antes da presença — não havendo aqui dialética alguma, nem do ser nem do pensar sobre o ser, essencializando-se apenas o começar do primeiro início e nada além desse ato, sendo a rememoração nele já apropriação.

80. O desocultamento é o tautó de noein e einai, implicando que o ser já alcança uma essencialização que impele o presenciar (como desocultamento) à presença e à constância, sendo aqui o einai já determinado pelo hen, este por sua vez fundado antecipadamente no tautó, contendo o impulso de reinar inteiramente dentro de seus próprios limites e fixar tudo na unicidade da presença como unicidade do um (tò nyn), mantendo reunidos todos os sémata.

81. No primeiro início essencializa-se o ser como emergência; o dizer do ser é o “dito” (Spruch), que não significa simplesmente “adágio” nem “enunciado” como proposição individual, mas a reunião e nomeação do inceptual, que perdura e se decide no velamento — sendo secundário que esses “ditos” tenham chegado como fragmentos e não significando “máxima”, não devendo induzir à busca de regras de vida, pois dito é julgamento no sentido de sentenciar ao pensamento, à interrogação do ser, abrangendo uma multiplicidade de proposições cujo modo de dizer dificilmente se esclarece.

82. Anaximandro, Heráclito e Parmênides não podem ser chamados pré-socráticos ou pré-platônicos, pois assim não são pensados como aqueles que realizam o início, mas compreendidos a partir de Sócrates-Platão; do mesmo modo, Platão não é simplesmente um Parmênides plenamente desenvolvido, nem Aristóteles a completude de Heráclito, não sendo os pensadores inceptuais estágios preliminares de supostos ápices nem os posteriores meros que abandonaram o início.

83. É apenas aparente acaso que o primeiro início nos tenha chegado em fragmentos; na verdade, trata-se de necessidade, pois só assim o início aparece como algo a ser almejado em sua inceptualidade e nunca possuído, não fazendo disso virtude de nossa condição, já que sequer estamos em posição de levar a sério tal condição — a do início e do pensar inceptual.

84. A interpretação do primeiro início é rememoração no passado e exige regresso a tempos remotos, não bastando aproximar zelosamente o passado do presente através de uma interpretação não examinada da representação corrente, apelando-se erroneamente à exigência de atentar ao “contemporâneo” da era inceptual e da posterior e usar sempre o matiz de “cor” apropriado, o que na “história do conceito” implica atentar aos usos vocabulares da época.

85. Explicar a “filosofia” a partir do “mito” é erro por várias razões: primeiro, o pensar inceptual a ser “explicado” ainda não é “filosofia”, que só surge com Platão; segundo, o pensar do ser é intrínseca e essencialmente um início, não podendo ser “herdeiro” do mito; terceiro, o pensar inceptual não pode de modo algum ser “explicado”, devendo apenas, a cada vez, ser começado, exigindo que quem o pensa pense inceptualmente; quarto, a mistura da historiografia bloqueia todo caminho ao primeiro início, impondo a opinião de que se saberia o que são “mito” e “filosofia” a ponto de deduzi-los um do outro e tornar tudo “compreensível”.

86. O único, porém decisivo, pressuposto de toda rememoração no primeiro início do pensamento ocidental é que ali um pensar começou, isto é, que o ser foi pensado, que o ser se apropria do pensar, que a verdade se essencializa — simplicidade que, não obstante, exige longa meditação e preparação para se realizar.

87. O procedimento exige, primeiro, escolher pressupostos tão inceptuais, decisivos e plenos quanto possível — o mais alto —, de modo que a carência resida, no fim, não no excesso de pressupostos, mas em sua essencial escassez; segundo, dominar esses pressupostos supremos enquanto tais para que se tornem essenciais para nós no mesmo movimento início-metafísica-fim; terceiro, considerar o estranhamento (Befremdung).

88. A objeção óbvia de que Anaximandro não poderia ter pensado o que aqui se discute procede em parte — não o pensou com a mesma explicitude e terminologia —, mas não porque a interpretação imponha algo estranho e exija demais do dito; ao contrário, porque toda interpretação alcança de menos aquilo que inceptualmente se desvela no saber inceptual, sendo a interpretação inadequada não por atribuir demais, mas por atribuir sempre algo de menos, algo insuficientemente inceptual, ao início.

89. Em Anaximandro e Heráclito, o mesmo se dá entre chreón e chrónos, entre arché e ápeiron, entre chreón e adikía, sendo a preservação o início e o início o velamento.

90. Se o ser é a repulsa do limite, isto é, da constância na permanência, então tem sua essência distorcida extrema no aeí, nada que seja permanente podendo ser um ente, sendo todo permanente meramente semblante — a essência distorcida do ser (ser como emergência no retornar); cabendo perguntar que conteúdo recebe o tò gàr autó e o que diz o hen de Parmênides, sempre platonicamente malinterpretado em vez de apreendido a partir do tautón da arché de Anaximandro.

91. Cabe perguntar o que é, para Anaximandro, o lanthánein como essencialização do ser — por que não dito, não dizível e não a ser dito; se se trata apenas de um dizer pensante ou do próprio ser; se o velamento mais inceptual tem sua forma extrema no abandono à brutalidade dos entes; e como o alfa privativo perpassa todo o início, permanecendo em aberto a diferença entre ser e entes — o abismo entre ser e entes.