1.D. Da-seyn

C. Anaximandro

D. O pensamento ocidental — Reflexão — Da-seyn

60. O pensar pensante (denkendes Denken) não é um pensamento intensificado ou “mais enérgico” que se impõe com força, sendo antes, em sua pureza, sem força alguma, ao contrário do pensamento ordinário — pressionante, calculador, planejador, engenhoso, inquieto, ocupado em espreitar, assaltar e dominar.

61. Nada “vem à tona” no pensar (como “filosofia”) porque o pensar dos pensadores pensa apenas o que já “veio à tona”, aquilo que constantemente ocorre por essência no que já veio à tona, anterior a todo resultado e produtividade, sendo esse próprio vir-à-tona a aletheia, o ser; com esse pensar nada surge incidentalmente para além do qual se possa depois passar, sendo o pensar antes a preservação do “vir-à-tona”, não espreitando o resultado por já adentrar aquilo de onde todo vir-à-tona provém, a aletheia.

62. O início do pensamento ocidental designa a inceptualidade da filosofia surgida no Ocidente, isto é, do philosophein, termo que nomeia o pensar dos “pensadores” em sentido eminente, tendo estabelecido, em algum momento da antiguidade grega, o padrão e a lei para a essência e o curso histórico do pensar pensante posterior, cabendo esclarecer em que consiste esse pensar em sentido enfático e como se distingue do pensar ordinário.

63. Pensar sobre o pensar coloca-nos numa posição inesperada, pois quem vive natural e diretamente também pensa, ainda que pensando algo urgente, servindo-se do pensar como de uma ferramenta à disposição — tal qual o martelo serve para cravar o prego —, mas pensar sobre o pensar assemelha-se à tentativa de martelar o próprio martelo, o que não está em ordem quando se trata do mesmo martelo, exigindo um segundo instrumento.

64. O início do pensar compreende, primeiro, o começo e a partida; segundo, aquilo que o pensar (agradecer-pensar, poetizar) tem de pensar; terceiro, o que deve ser pensado como fundamento essencial do pensar; quarto, o fato de que o pensar pensante pensa apenas o início — o verdadeiro e a verdade, a essência da verdade —; quinto, o próprio início — o que dá início, a lei do início, o primeiro início, o outro início —, sendo o início o início da emergência, a aletheia, e o pensar inceptual aquele que a ela corresponde.

65. Sob que condições a filosofia é um “ser” no sentido do pertencimento essencial do humano histórico (Da-sein) à verdade do ser, sem exigir um “resultado” que “vem à tona” apenas depois — pois resultados não são de modo algum essenciais e o “ser” precede toda produtividade — e sem, contudo, tornar-se mero circular “existencial” em torno do humano, já que a “filosofia existencial” atém-se aos entes e não se apropria do ser, incapaz disso justamente porque “existência” já não é mais existentia, muito menos o ser mesmo em sua essência de verdade, permanecendo em aberto como a história, essência da historicidade, constitui aqui uma questão do evento.

66. A historicidade (Geschichte) é essencialmente consignação como ordenação (evento), fundando-se nela a tradição — só como fundada é tradição genuína —, sendo os conhecimentos sem rememoração nulos, de modo que a consignação constitui início e rememoração.

67. A historiografia (Historie) conduz-nos, embora essencialmente históricos, a comportar-nos por toda parte de modo não-histórico, porque a historiografia, pertencendo à essência da técnica, tem origem na transformação essencial da verdade e do ser.