1. “A história do ser” (die Geschichte des Seyns) designa a tentativa de repor a verdade do ser enquanto evento (Ereignis) na palavra do pensar, confiando-a assim a um fundamento essencial dos seres humanos históricos, à palavra e à sua dizibilidade, sem que se possa jamais discernir por cálculo se o dizer aqui tentado pertence ele mesmo ao evento e participa, com isso, da quietude daquilo que é sem exercer nem carecer de efeito.
2. A história do ser há de ser narrada somente na palavra simples, tal como a diz o intermédio que, transformando toda relação ao ser, sustenta abissalmente aquilo que os homens são em geral capazes de suster nesse âmbito inceptivo, articulando-se em mundo, terra, disputa, homens, deus, contraposição, clareira, sustentação, história, abertura da apropriação e evento apropriador.
3. A filosofia ocidental é, em seu fundamento essencial, metafísica porque é, em sua essência, “física”, sendo a “física” aqui entendida como saber, isto é, preservação da verdade da φύσις, determinação do ser encontrada no início e que, por isso, rege toda a história da filosofia ocidental, restando em aberto por que e de que modo a física vem a ser meta-física, o que significa φύσις propriamente, e se e por que ela é, ou é sequer determinante para, a interpretação do ser dos entes na totalidade encontrada no início.
4. A verdade do ser jamais até agora reconhecida, embora tivesse de vir à tona no âmbito aberto pertencente ao próprio início da filosofia ocidental, ainda que não como verdade do ser, e por isso jamais tenha entrado em seu questionamento, teve sua primeira aparição, ainda inteiramente velada, doravante soterrada, sem que pudesse ou possa, contudo, ser eliminada, só podendo ser interrogada a partir da necessidade do ser, conforme indica a interpretação da Física B, 1 de Aristóteles, com um aceno à verdade do ser proveniente do τò γὰρ αὐτò de Parmênides.
5. Quem somos nós, onde estamos, em que instante nos encontramos e, de novo, quem somos: essa configuração de perguntas faz surgir uma única questão que jamais se refere a “nós”, mas sempre “conforme” ao ser, estado de coisas inquietante em que o ser se apropria, nunca de modo “dialético”, nunca como jogo de opostos, mas inteiramente como evento apropriador, algo singular.
6. A pergunta “quem somos nós” e mesmo “somos nós, de fato” reconduz à questão do que significa “ser”: se “somos” porque e na medida em que nos deparamos conosco mesmos do mesmo modo como nos deparamos com uma árvore ou uma casa, e se, de fato, nos deparamos conosco desse modo, e se, ainda assim, com isso alcançamos o modo como somos, permanecendo em aberto quem decide sobre o “ser”, ou se é o próprio ser que decide sobre todo “quem” e todo questionar, o que é o ser, como deveria ser desvelado e trazido à sua verdade, e o que é a verdade — questões na região mais extrema das quais nos encontramos.
7. O Da-sein, a clareira do ser, e o ser o fundamento fundante dessa clareira não se identificam ao ser-humano enquanto tal, mas antes a este como guarda e fundação, havendo no aí (Da) um rastro na ἀλήθεια da φύσις que há muito se apagou e que jamais pode simplesmente ser retomado, devendo antes ser reencontrado a partir da própria trilha.
8. O ser, em sua hora determinada, há de repelir a fabricação humana e tomar a seu serviço até mesmo os deuses, lançando fora a corrupção de sua essência mais própria: a maquinação.
9. Por permanecer a ἀλήθεια apenas uma ressonância e sem fundamento, a própria pergunta pela clareira já se mostra inteiramente inquietante, podendo a pergunta pelo ser desdobrar-se somente a partir dela, permanecendo o ser ainda mais oculto e, contudo — a viravolta (die Kehre)!
10. Que a verdade seja, em sua essência, sem-fundamento, e que o ser humano reivindique verdades sem verdade, é algo que a humanidade histórica talvez jamais venha a compreender como o não-fundamento de toda a história contemporânea.