1. A clareira (seer)
1. A representação de algo como algo à luz da entidade já pressupõe uma articulação unitária entre o “de”, o “como” e o “à luz de”, articulação que constitui a clareira na qual o ser humano se encontra e pela qual sua própria essência é previamente determinada, de modo que o estar na clareira não seja uma propriedade acrescentada posteriormente ao homem, mas o fundamento de seu ser-aí (Da-sein), cuja insistência originária se determina pela disposição afetiva (Stimmung).
2. A clareira não pode ser explicada a partir dos entes, pois constitui o entre (Zwischen) e o entre-tempo (Inzwischen) no sentido espaço-temporal do espaço-tempo originário, no qual determinações como o “de”, o “como” e o “à luz de”, embora não sejam entes e nesse sentido sejam nada, possuem o maior peso porque somente nelas tudo aquilo que é ente pode propriamente “ser” como ente.
3. A clareira é o sem-fundo (Ab-grund) enquanto fundamento e contraposição nadificante a todo ente, constituindo um fundamento jamais simplesmente presente-à-mão, que se recusa no próprio nadificar enquanto clareira e, justamente por essa recusa, sustenta, funda, decide e acontece-apropriadoramente como acontecimento-apropriador (Ereignis).
4. O sem-fundo (Ab-grund) é o nada e, enquanto o mais abissal, o próprio seer (Seyn), não porque este seja o mais vazio, universal ou evanescente, mas porque constitui o mais rico, o singular e o meio que não medeia, permanecendo por isso irredutível a qualquer retomada ou integração posterior.
2. Ser: o sem-fundo
2. A determinação do ser como sem-fundo (Ab-grund) pode tornar-se visível na experiência do ser humano a partir de sua destinação ao ser, ainda que inicialmente essa relação permaneça compreendida metafisicamente como relação com a entidade dos entes, por exemplo sob a forma do a priori transcendental e no interior do comportamento cognoscitivo que representa algo como algo sob a perspectiva do ser.
3. O ser humano encontra-se no aberto em direção a algo que, por sua vez, se mostra no domínio livre do “como”, enquanto toda essa articulação permanece na abertura do seer (Seyn), que não é objeto, mas o próprio aberto simultaneamente sem-fundo e fundador, no qual o aí e a aí-dade (Daheit) se articulam na insistência humana como fundamento essencial do próprio homem, e não como propriedade pertencente a ele.
3. Seer e nada
3. A negatividade hegeliana não constitui negatividade em sentido originário porque não assume seriamente o não nem o nadificar, uma vez que o não já se encontra suprassumido no “sim” da entidade própria ao pensamento incondicionado, enquanto o nadificar deve ser pensado como recusa (Ver-sagen) do fundamento e, portanto, como sem-fundo (Ab-grund).
4. O seer (Seyn) “é” o nada não porque ambos compartilhem simplesmente a mesma indeterminação ou imediatidade, mas porque constituem uma unidade originária que permanece simultaneamente fundamentalmente diferenciada e somente enquanto tal abre a possibilidade de uma decisão.
5. A chamada “finitude” do ser deve ser compreendida apenas provisoriamente como expressão contrastiva e não como oposição entre finito e infinito, pois o que nela está em questão é a conexão essencial entre ser e nadificação.
4. Sem-fundo, nada e não
4. O sem-fundo (Ab-grund) constitui o fundamento da necessidade do nada e da necessidade do nadificar, possibilitando, ainda que apenas em um percurso prolongado, a própria diferenciação entre ser e ente.
5. O nada, enquanto sem-fundo (Ab-grund), consiste na recusa de todo fundamento, sustentação e abrigo nos entes, mas essa própria recusa concede da maneira mais elevada a necessidade da decisão e da diferenciação.
6. O nada jamais significa o simplesmente nulo, aquilo que não está presente-à-mão, não é efetivo, não possui valor ou constitui um não-ente (Un-seiendes), mas designa o acontecimento essencial do próprio seer (Seyn) enquanto este nadifica de modo abissal.
7. O sem-fundo (Ab-grund) acontece essencialmente como o entre no qual se torna necessária a decisão acerca do divino e da humanidade e, por conseguinte, acerca do ser-aí (Da-sein), do ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), do mundo, da terra e do combate.
8. O ser-aí (Da-sein) constitui o “sim” à verdade do seer (Seyn), não no sentido de aprovação ou consentimento aos entes, mas como afirmação do nadificar e da necessidade do “não”, de modo que o próprio “não” se torna o sim ao nadificar e a investigação do sem-fundo (Ab-grund) constitui a guarda da verdade do seer mediante o reconhecimento (Er-würdigung) daquilo que é maximamente digno de questão.
9. A própria distinção entre ser e ente deve permanecer submetida à interrogação quanto à sua legitimidade, pois ainda resta decidir se essa caracterização pode efetivamente continuar servindo como indicação orientadora para a investigação originária.
5. Seer e nada
5. A pergunta pela proveniência do “não” e de tudo aquilo que possui caráter de não exige simultaneamente esclarecer o próprio sentido dessa proveniência, pois perguntar “de onde” significa perguntar pelo porquê, pela razão e pelo modo, isto é, pelo fundamento.
6. A investigação do fundamento do “não” torna-se problemática quando se pergunta se o próprio questionamento do fundamento ocupa uma posição superior àquilo cujo fundamento se investiga ou se, ao contrário, fundamento e não pertencem essencialmente um ao outro de maneira ainda não esclarecida.
7. O sem-fundo (Ab-grund) é o seer (Seyn), que enquanto sem-fundo constitui simultaneamente nada e fundamento, de modo que o nada, embora abissalmente distinto do seer enquanto nadificação, pertence à mesma essência, enquanto o próprio sem-fundo é fundamento com caráter de não, e não um ente sustentador e protetor.
6. “Negatividade”
6. O seer (Seyn), enquanto abismo, é o nada, e este constitui o extremo oposto de tudo aquilo que é simplesmente nulo, pois o nada nadifica e somente assim possibilita o projeto do não, a partir do qual podem posteriormente ser compreendidos o ser-negado, sua representabilidade e finalmente a própria negação.
7. O ser humano deve agora ser determinado como ser-aí (Da-sein), pois a transformação da questão do ser impede que sua essência continue sendo fixada prioritariamente a partir das determinações metafísicas tradicionais.
8. Essa transformação não constitui simples inversão das determinações anteriores, porque o próprio ser passou a ser pensado essencialmente de outra maneira e já não é interrogado como entidade dos entes.
7. O nada
7. Em toda metafísica na qual o ser, enquanto entidade, aparece já como um acréscimo aos entes, o nada também somente pode aparecer como acréscimo ao ser, razão pela qual a determinação metafísica do nada depende sempre da maneira como a entidade é previamente concebida.