HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Metafísica e Niilismo. Tr. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
1. A superação da metafísica exige tornar experienciável o abandono do ser característico do ente (Seinsverlassenheit des Seienden), o infundado da verdade do seer (Seyn), a necessidade de fundação (Gründung) de sua essência e o afastamento da concepção antropomórfica e subjetivista do homem, culminando na compreensão da verdade como clareira do seer e na história do seer.
2. A superação da metafísica configura-se como a essencialização notável da verdade do seer em contraposição ao descaso de sua fundação principial, retirando a metafísica da aparência de mera opinião doutrinária para inseri-la na decisão histórico-ontológica entre ser e ente.
3. A história do seer e a superação da metafísica não são pensáveis metafisicamente, pois o tempo que funda a essência do seer é o ab-ismo, e o seer, ao liberar em sua verdade a essência da história, escapa do predomínio do ente e do perigo que este representa para todo pensamento.
4. A volatização (Verflüchtigung) do seer expressa a impressão equivocada de que o seer nada poderia empreender contra ou a favor do ente, impressão que decorre do hábito de conceber o ente como um atuante e de estender essa mesma exigência ao ser.
5. A metafísica e o predomínio do ente resultam da impotência e volatização do seer, na medida em que a physis (φύσις) impele o ente para a retração (Entzug), tornando questionável se essa retração corresponde ao próprio sentido do seer ou se, ao contrário, é a ausência de começo e fim da configuração metafísica que renega a dignidade do seer enquanto questão.
6. A “superação” distingue-se da suspensão hegeliana (Aufhebung) por não consistir em eliminar, conservar e elevar (tollere, elevare, conservare), mas em libertar uma essência originariamente infundada, recolocando o superado em sua essência perfeita (Gewesene) e devolvendo-o ao âmbito do começo do começo.
7. A configuração do texto preserva o estágio e a direção originais da colocação da pergunta em cada ensaio revisado, evitando qualquer unicidade inautêntica posterior em favor de uma cunhagem mais incisiva das perguntas singulares.
8. A concepção correta da totalidade requer um dizer simples, sem narração nem exortação, apenas uma mudança de ligação com o seer empreendida no silêncio da essencialização da verdade.
9. A superação da metafísica através do seer traz à luz o ab-ismo como clareira do seer e revela a recusa (encobrimento do velamento do seer) não como limitação ou erro, mas como o primeiro, a dádiva e o começo a partir do qual a história surge.
10. A superação enquanto história do seer determina pela primeira vez, a partir do acontecimento apropriativo, a história mesma e revela a essência da metafísica como a ela pertencente, ao mesmo tempo em que expõe o erro de cálculo historicista que reduz a história ao mero passado.
11. O outro começo situa o seer não como adendo ou predicado do ente, mas como a verdade enquanto clareira do acontecimento apropriativo, cuja transposição em penúria torna necessária, sem obrigar, uma mudança da essência do homem fundada no ser-situado enquanto fundar instante (inständig).
12. A passagem descreve a alteração do pensamento diante da primeira instrução do aceno de superação do pensamento metafísico rumo ao pensamento histórico-ontológico, constituindo não a superação mesma, mas apenas a entrada nesta enquanto história, na qual a palavra da metafísica permanece necessária para lançar sentido no âmbito da verdade do seer.