HEIDEGGER, Martin. Mindfulness. Tr. Parvis Emad & Thomas Kalary. London: Continuum, 2006.
97. O pensamento histórico-do-ser (seynsgeschichtlich) e a questão do ser mostram-se, num primeiro momento, como um mero deslocamento do enunciado “a questão do ser pergunta 'pelo' o ser” para a questão do ente enquanto tal, na medida em que todo perguntar “pelo” o ser retorna necessariamente ao ente e à sua ἀρχή, tomada esta em sua dupla significação de γένος e αἴτιον.
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A questão do ser, ao perguntar “pelo” o ser, pergunta na verdade pelo ser “do” ente, de modo que o “questionável” nessa pergunta revela-se ser o próprio ente, e não o ser mesmo.
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O ente é interrogado quanto à sua ἀρχή, termo que designa aquilo a partir de onde o ente, como ente, “é” o que é, contendo a duplicidade do γένος (κοινόν), pelo qual o ente se determina em seu quê, e do αἴτιον, a causa, pela qual o ente é produzido.
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Essa duplicidade da ἀρχή move-se numa significação diretriz de presença e constância, cuja primazia (
Erstlichkeit) permanece, contudo, ela mesma não questionada.
334-338. A questão do ser, ao converter-se em questão pela ἀρχή, decide de antemão que o ser seja representado como presença (Anwesung) e constância (Beständigkeit), e esse perguntar “passa ao lado” (vorbei) do ser mesmo, permanecendo por isso vinculado à história da metafísica.
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Perguntar pelos “princípios” não é uma forma neutra e indiferente de questionamento, mas já significa tomar o ser como aquilo que se pré-representa (
vor-gestellt) na forma de presença e constância.
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Esse perguntar “pelo” o ser é ao mesmo tempo realizado por um ente, o homem, e para este, de modo que o próprio perguntador é também o respondente, e responder significa aqui trazer a ἀρχή à representação e estabelecê-la (
herstellen).
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O perguntar que passa ao lado do ser jamais o experimenta a partir daquilo que uma tal representação pressupõe sem o questionar: presença e duração como uma determinada temporalização do tempo.
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A esse conjunto (
Gefüge) da abertura do ente em seu ser, determinado como constância e presença, coube o nome de “metafísica”, a qual, em sua essência, “é” esse próprio conjunto e está fundada naquilo de que ele se compõe.
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Nada indica que essa questão do ser, tal como perguntada nesse modo lembrado, esgote sua única possibilidade ou corresponda à sua necessidade mais própria; contudo, a exigência de perguntá-la de modo essencialmente distinto não pode brotar do próprio pensamento metafísico, que permanece nele mesmo consolidado.
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Na história da metafísica, a distinção entre ser e ente vai se apagando a ponto de equivaler a um obliterar do distinto, e o “ser” se exterioriza a um mero som vocal (
Wortlaut) de conteúdo nulíssimo.
337-338. Somente do outro início pode advir a superação do conjunto que determina a abertura do ente enquanto tal, de modo que, quando o ente e sua entidade (Seiendheit) perdem a primazia, “então é o Seyn”, e a questão do ser passa a perguntar o próprio Seyn, para que este responda e outorgue a palavra que diz a verdade “do” Seyn.
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Essa superação não provém do ente que expulsa o ser até o esquecimento, mas do próprio Seyn, que pode arrebatar do ente essa primazia; a história desse arrebatamento (
Entreißung) é de espécie distinta da história daquela expulsão (
Entlassung).
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Perguntar assim exige uma escuta diversa, um ouvir (
Horchen) transformado, obediente a partir de um pertencimento outorgado pelo próprio Seyn na verdade do Seyn.
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Na metafísica, o ente se torna questionável quanto ao ser, cuja essência permanece de tal modo não-perguntada que o ser sequer pode ser chamado de o inquestionável (
Fraglose).
338-339. Para a questão do ser transformada, o Seyn se torna o digno-de-questionamento (Fragwürdige), distinguindo-se essa dignidade de questionamento da mera questionabilidade (Fraglichkeit), e tal questão pertence à essenciação (Wesung) da verdade do Seyn, constituindo-se como a própria história originária do Seyn, motivo pelo qual todo pensar do Seyn a partir desse perguntar é histórico-do-ser (seynsgeschichtlich).
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O perguntar que somente pergunta o Seyn mesmo não faz do Seyn algo digno-de-questionamento apenas posteriormente; antes, o próprio perguntar já é uma forma de dignificação (
Würdigung), pois atribui ao Seyn a resposta de sua verdade.
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A questão histórico-do-ser não pode ser alcançada nem sequer compreendida a partir da metafísica, e sua interrogação constitui a superação (
Überwindung) da metafísica, superação esta que provém do próprio Seyn.
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Encontramo-nos hoje, quer se experimente isso quer não, na transição (
Übergang) da questão do ser metafísica para a questão do ser histórico-do-ser, o que aponta para um único instante (
Augenblick) na história do Seyn.
339. O questionar histórico-do-ser da questão-do-Seyn constitui o caminho para aquela história cujos “acontecimentos” nada mais são que decisões sobre a capacidade decisória do homem frente àquilo que sustenta sua essência como guardião da verdade do Seyn, e o aceno mais silencioso do Seyn mostra-se sob a figura do abandono do ser (Seinsverlassenheit) do ente, que se afirma como maquinação (Machenschaft) em sua vigência dominante.
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Perguntar pelo Seyn significa antes de mais nada: perceber esse aceno (
Wink), sem recorrer a expedientes evasivos; saber o domínio do Seyn e não saber a fundação de sua verdade, permanecendo no duplo (
Zwiefache).
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A questão do ser como pergunta “pelo” o ser projeta o ente sobre a entidade segundo um velamento (
Verbergung) do Seyn, ao passo que a questão do ser como perguntar “do” Seyn projeta o Seyn sobre a verdade, lançado por este mesmo Seyn que se clareia como recusa (
Verweigerung).
340-341. No pensamento metafísico da questão do ser, o ser converte-se em predicado do ente, dando a aparência de que seria ou encontrado pelo homem ou concebido como mero recurso de necessidade, quando na verdade essa aparente indiferença do ser funda-se em um modo de recusar-se a si mesmo (Sichverweigern), do qual o próprio projeto representativo do ser como entidade do ente é, ele mesmo, lançado (geworfen) pelo Seyn, permanecendo essa condição de lançado necessariamente velada para o perguntar “pelo” ser.
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Essa ocultação, desconhecida da própria metafísica, permite-lhe alcançar a segurança incondicional do saber absoluto, que não tolera nenhum condicionante cuja proveniência não possa ser demonstrada a partir da lei do projeto representativo.
341-342. O pensamento histórico-do-ser jamais chega a experimentar até que ponto ele mesmo é determinado pelo Seyn a partir de uma disposição afetiva (Stimmung) que brota de uma voz (Stimme), e a supremacia (Vormacht) do “pensar”, enquanto trajetória do projeto da determinação da entidade em geral, brota do próprio ser, sendo essa dominância do pensar o traço distintivo (Kennzeichen) da metafísica.
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O homem, na metafísica, não vale como algo qualquer ou como mera espécie animal, mas como o ente cuja essência foi delimitada, a partir da estrutura da metafísica, como animal rationale, configurações essas que, em
Hegel e
Nietzsche, correspondem às posições de encerramento e conclusão alcançadas pela metafísica.
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A questão do ser metafísica não consegue mais levar-se a sério, motivo pelo qual se aproxima das “ciências” e busca, como elas, a salvação no “concreto” e no “comprovado”, extraído da “vivência” do “ente”.
342-345. A distinção entre a questão do ser metafísica e a histórico-do-ser não deve ser tomada como mera tipologia histórica, pois somente a pertença da essência do homem, e portanto de sua história, à verdade do Seyn decide se ao homem será ainda uma vez outorgado o único de um início (Anfang), sendo que, no dizer metafísico “o ser é”, busca-se salvar o ser como o mais-ente e primeiro do ente, ao passo que o dizer histórico-do-ser “o Seyn é” pensa algo distinto, não o mais-ente como primeiro, e sequer, apesar do dizer do “é”, o Seyn como ente.
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O dizer histórico-do-ser diz a pura essenciação (Wesung) do Seyn, a outorga (
Verstattung) do caráter decisório e, ao mesmo tempo, a retomada do Seyn no silêncio do abismo (
Abgrund).
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“O Seyn é” diz que o acontecimento-apropriador (
Er-eignis) apropria a clareira do intervalo (
Inzwischen) e funda o não-público (
Unöffentliche) das decisões essenciais, preservando o incomparável e o inaparente de sua essência.
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A questão do ser metafísica possui seu “método”, consistente numa maneira de proceder representativamente ao ente quanto à sua entidade, sendo esse procedimento historicamente identificável em posições fundamentais como a ὑπόθεσις de
Platão, a ἐπαγωγή de
Aristóteles, a mathesis universalis de
Descartes, a sistemática transcendental e especulativo-prática de
Kant e a “dialética” de
Hegel.
345-347. A pertença do pensar à essência do ser é compreendida a partir do caráter essencial do “pensar” como fio condutor (Leitfaden) para o projeto do ente sobre a entidade, de modo que, porque o ser se ergue como φύσις, ele domina o homem de tal forma que este se torna o percipiente e reunidor (voεῖν - λόγος), e a “unidade” se converte em traço essencial do ser.
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A posição de supremacia do pensar como trajetória e âmbito do projeto do ente sobre o ser constitui o traço distintivo da metafísica, e onde essa supremacia se afirma falta toda intuição e toda disposição para a questão do ser histórico-do-ser.
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Para o pensamento histórico-do-ser, a metafísica jamais se torna um estágio (Stufe) ultrapassado, mas alcança, em sua mais própria origem, um erguer-se (Ragen) que a torna inacessível ao percurso desse pensamento, e esse inacessível é, ele mesmo, um acontecimento-apropriador, um aceno do próprio Seyn.
347-348. A questão do ser exteriorizou-se na mais vazia erudição, permanecendo o homem histórico, contudo, remetido ao Seyn, ainda que apenas no abandono do ser, de modo que a meditação sobre a questão do ser deve considerar o mais exterior sempre que ousar interrogar o mais íntimo do Seyn mesmo.
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O mais exterior é precisamente aquela indecisão (
Unentschiedenheit) da questão do ser segundo a qual esta simplesmente ocorre como qualquer outra questão de investigação e de “interesse” por conhecimentos, sem estar remetida a nenhuma necessidade nem a nenhum digno-de-questionamento.
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Essa indecisão, infundada e inapreensível, provém ela mesma do abandono do ser do ente e do domínio ininterrupto do “efetivo” (
Wirklichen) de ocasião, o qual impede que o ente se torne o impulso para a dignidade de questionamento daquilo em que, mesmo assim, permanece mantido em sua não-essência: o ser.
348-349. É necessário saber quão pouco “questão do ser” (Seinsfrage) e “questão do Seyn” (Seynsfrage) significam o mesmo, distinção esta que não pode permanecer presa a modos de comportamento ou de representação, mas deve ser pensada, juntamente com seus termos e consigo mesma, como uma decisão que o homem não deve a nenhuma resolução, mas na qual é antes apropriado pelo próprio ser como acontecimento.
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Assim como em seus inícios o ser expõe a essência de sua história e o modo de sua abertura, também a apropriação (
Ereignung) se dá a cada vez, sendo essa entrega de si mesmo não um descarte do ser ao ente, mas uma exposição de si como o preço em razão do qual o ente é um ente, exigindo por isso uma recusa (
Verweigerung) na qual a intimidade da apropriação se doa e ao mesmo tempo se oculta.
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Somente à distância é possível reconhecer e interpretar os sinais da apropriação, sendo tal sinal a palavra inicial de
Parmênides: o mesmo é percepção (
Vernehmung) e ser, no qual o “ente” (
ἐόν) foi originariamente pensado como pertencente à percepção representadora.
349-351. No primeiro início, o ser é o vigorar desencobridor (entbergendes Walten) que, como não-encobrimento, apenas se dá àquilo que representa em sua presença, ao passo que, a partir do outro início, no qual o ser se apropria como acontecimento em sua clareira, é possível lembrar a apropriação como essenciação da φύσις, sabendo-se, a partir dessa lembrança, o que ali se apropria: o fato (Daß) da copertença de percepção e ser.
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No dizer histórico-do-ser, o Seyn essencia-se como o fundamento da mesmidade (
Selbigkeit) dos distinguidos desde o primeiro início, fundamento este que não oferece explicável nem explicante, não permitindo refúgio nem saída em direção a um ente.
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O perguntar “do” Seyn não é capaz de mediar o perguntar “pelo” o ser, podendo apenas oferecer-lhe um impulso, sendo esse impulso possível somente porque ele mesmo já está apropriado; a questão do ser metafísica e a histórico-do-ser não se deixam colocar como pontos de vista mútuos e comensuráveis, sendo sua conexão de natureza histórica.
351-353. O perguntar renovado (“Ser e Tempo”) da questão do ser não significa “repetição” no sentido de uma reiteração histórica do passado, mas antes deve significar que a questão do ser seja lançada, futuramente, em um outro início, através daquilo que no primeiro início teve de permanecer não-perguntado: a verdade do Seyn.
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Qualquer tentativa de mediação histórica encobre o abismo (
Kluft) entre o perguntar metafísico e o histórico-do-ser, servindo apenas de pretexto para atenuar a singularidade do primeiro e computar a inicialidade futura do segundo em meras variações do que já existiu.
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O perguntar do pensamento histórico-do-ser não se deixa comunicar no sentido de uma transmissão de representações, sendo todo perguntar e dizer aqui apenas um afrouxamento (
Lockerung) daquilo que, vinculado à apropriação, ainda não encontrou sua necessidade como caminho para a fundação da verdade do Seyn.
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Perguntar o Seyn significa também: ter de experimentar o que todo ente “é”, sem que este necessite de um saber a esse respeito, e as formas de “comunicação” do pensamento histórico-do-ser não se deixam inventar nem adotar arbitrariamente, pois dizibilidade e audibilidade permanecem reservadas à essência do Seyn.
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Pergunta-se o Seyn, e em seu silêncio, como início da palavra, responde o deus; todo ente pode ser percorrido, mas em nenhuma parte se mostra o rastro do deus.