27. História do Ser

HEIDEGGER, Martin. Mindfulness. Tr. Parvis Emad & Thomas Kalary. London: Continuum, 2006.

97. O pensamento histórico-do-ser (seynsgeschichtlich) e a questão do ser mostram-se, num primeiro momento, como um mero deslocamento do enunciado “a questão do ser pergunta 'pelo' o ser” para a questão do ente enquanto tal, na medida em que todo perguntar “pelo” o ser retorna necessariamente ao ente e à sua ἀρχή, tomada esta em sua dupla significação de γένος e αἴτιον.

334-338. A questão do ser, ao converter-se em questão pela ἀρχή, decide de antemão que o ser seja representado como presença (Anwesung) e constância (Beständigkeit), e esse perguntar “passa ao lado” (vorbei) do ser mesmo, permanecendo por isso vinculado à história da metafísica.

337-338. Somente do outro início pode advir a superação do conjunto que determina a abertura do ente enquanto tal, de modo que, quando o ente e sua entidade (Seiendheit) perdem a primazia, “então é o Seyn”, e a questão do ser passa a perguntar o próprio Seyn, para que este responda e outorgue a palavra que diz a verdade “do” Seyn.

338-339. Para a questão do ser transformada, o Seyn se torna o digno-de-questionamento (Fragwürdige), distinguindo-se essa dignidade de questionamento da mera questionabilidade (Fraglichkeit), e tal questão pertence à essenciação (Wesung) da verdade do Seyn, constituindo-se como a própria história originária do Seyn, motivo pelo qual todo pensar do Seyn a partir desse perguntar é histórico-do-ser (seynsgeschichtlich).

339. O questionar histórico-do-ser da questão-do-Seyn constitui o caminho para aquela história cujos “acontecimentos” nada mais são que decisões sobre a capacidade decisória do homem frente àquilo que sustenta sua essência como guardião da verdade do Seyn, e o aceno mais silencioso do Seyn mostra-se sob a figura do abandono do ser (Seinsverlassenheit) do ente, que se afirma como maquinação (Machenschaft) em sua vigência dominante.

340-341. No pensamento metafísico da questão do ser, o ser converte-se em predicado do ente, dando a aparência de que seria ou encontrado pelo homem ou concebido como mero recurso de necessidade, quando na verdade essa aparente indiferença do ser funda-se em um modo de recusar-se a si mesmo (Sichverweigern), do qual o próprio projeto representativo do ser como entidade do ente é, ele mesmo, lançado (geworfen) pelo Seyn, permanecendo essa condição de lançado necessariamente velada para o perguntar “pelo” ser.

341-342. O pensamento histórico-do-ser jamais chega a experimentar até que ponto ele mesmo é determinado pelo Seyn a partir de uma disposição afetiva (Stimmung) que brota de uma voz (Stimme), e a supremacia (Vormacht) do “pensar”, enquanto trajetória do projeto da determinação da entidade em geral, brota do próprio ser, sendo essa dominância do pensar o traço distintivo (Kennzeichen) da metafísica.

342-345. A distinção entre a questão do ser metafísica e a histórico-do-ser não deve ser tomada como mera tipologia histórica, pois somente a pertença da essência do homem, e portanto de sua história, à verdade do Seyn decide se ao homem será ainda uma vez outorgado o único de um início (Anfang), sendo que, no dizer metafísico “o ser é”, busca-se salvar o ser como o mais-ente e primeiro do ente, ao passo que o dizer histórico-do-ser “o Seyn é” pensa algo distinto, não o mais-ente como primeiro, e sequer, apesar do dizer do “é”, o Seyn como ente.

345-347. A pertença do pensar à essência do ser é compreendida a partir do caráter essencial do “pensar” como fio condutor (Leitfaden) para o projeto do ente sobre a entidade, de modo que, porque o ser se ergue como φύσις, ele domina o homem de tal forma que este se torna o percipiente e reunidor (voεῖν - λόγος), e a “unidade” se converte em traço essencial do ser.

347-348. A questão do ser exteriorizou-se na mais vazia erudição, permanecendo o homem histórico, contudo, remetido ao Seyn, ainda que apenas no abandono do ser, de modo que a meditação sobre a questão do ser deve considerar o mais exterior sempre que ousar interrogar o mais íntimo do Seyn mesmo.

348-349. É necessário saber quão pouco “questão do ser” (Seinsfrage) e “questão do Seyn” (Seynsfrage) significam o mesmo, distinção esta que não pode permanecer presa a modos de comportamento ou de representação, mas deve ser pensada, juntamente com seus termos e consigo mesma, como uma decisão que o homem não deve a nenhuma resolução, mas na qual é antes apropriado pelo próprio ser como acontecimento.

349-351. No primeiro início, o ser é o vigorar desencobridor (entbergendes Walten) que, como não-encobrimento, apenas se dá àquilo que representa em sua presença, ao passo que, a partir do outro início, no qual o ser se apropria como acontecimento em sua clareira, é possível lembrar a apropriação como essenciação da φύσις, sabendo-se, a partir dessa lembrança, o que ali se apropria: o fato (Daß) da copertença de percepção e ser.

351-353. O perguntar renovado (“Ser e Tempo”) da questão do ser não significa “repetição” no sentido de uma reiteração histórica do passado, mas antes deve significar que a questão do ser seja lançada, futuramente, em um outro início, através daquilo que no primeiro início teve de permanecer não-perguntado: a verdade do Seyn.