§7

§ 7. Tradução de “Metafísica” A 1 (As maneiras da apreensão, do trato que se conhece, dos procedimentos e do compreender sapiencial)

A tradução enfatiza os contextos importantes por meio de expressões mais ricas e plenas, permitindo posteriormente um recorte para uma adequação literal ao texto. O que “não está” no texto é justamente a coisa mesma, que deve ser tornada acessível de modo autêntico e concreto.

a) O querer-conhecer do homem nas maneiras da apreensão. Privilégio da visão (980 a 21-27)

O desejo de conhecer é constitutivo do ser do homem, expressando-se no prazer pelas maneiras que sempre trazem novidades. A visão é a mais privilegiada, pois é a que mais faz conhecer e revela múltiplas diferenças, sendo buscada mesmo quando não há qualquer utilidade prática em vista.

b) Excursus: De sensu 1, 437 a 3-15 (Visão e Audição)

A visão é mais importante para as necessidades vitais, enquanto a audição o é para a vida espiritual, pois a visão anuncia muitas diferenças (cores, formas, grandezas, movimento, número), ao passo que a audição traz apenas as diferenças de ruído e, em alguns casos, da voz. A audição, contudo, contribui decisivamente para a compreensão (phronesis), uma vez que a fala, sendo audível, é responsável pela aprendizagem, na medida em que é composta de palavras significativas.

c) O poder-dispor nas maneiras da orientação (aisthesis), da retenção (mneme) e do trato que se conhece (empeiria) (980 a 27 - 981 a 3)

Pertence ao ser da vida que os viventes se tornem portadores da orientação. Em alguns, a partir da orientação, forma-se a retenção, tornando-os mais “prudentes” e aptos a aprender; outros, como as abelhas, têm prudência sem capacidade de aprendizado, por não ouvirem. O aprendizado ocorre quando há audição e retenção. Os demais viventes vivem em fantasias e retenções, participando pouco da empeiria, que é o trato que se conhece e que orienta algo. O gênero humano, porém, vive também na techné e na reflexão (logismoi). A empeiria surge para os homens a partir da retenção, pois as muitas retenções da mesma coisa produzem a capacidade de um trato que se conhece. Essa empeiria parece ser algo como um compreender prévio e uma techné, na medida em que dela provém o compreender e a techné.

d) A formação da techné (procedimento que põe em obra) na apreensão (hypolepsis) voltada para o “em geral” e para o aspecto (981 a 3-12)

A empeiria engendra a techné, enquanto a inexperiência deixa na vida imediata. A techné forma-se quando, a partir de muitas empeirias, surge uma apreensão (hypolepsis) unitária e universal sobre o semelhante. A empeiria, ao contrário, se atém ao caso particular, como saber que tal remédio ajudou Calias ou Sócrates em determinada doença. A techné, porém, sabe que o remédio convém a todos os doentes de um determinado tipo, definido por seu aspecto (eidos).

e) As apreensões (hypolepseis) concernentes ao “ser mais compreendedor” (sophoteron) (981 a 12 - b 13)

α) O “em geral” (katholou) e o “cada vez justamente assim” (kath'hekaston) (981 a 12-24)

Para a ação prática, a empeiria parece não diferir da techné, sendo até mais bem-sucedida, pois a empeiria é conhecimento do particular (kath'hekaston), enquanto a techné é do universal (katholou). As ações e os processos, no entanto, são sempre sobre o particular, como quando se cura não o “homem em geral”, mas Calias ou Sócrates, nos quais o ser-humano está co-dado. Se alguém possui o discurso (logos) sem a empeiria, conhecendo o universal mas ignorando o particular, frequentemente errará na cura, pois o objeto da cura é o particular.

β) O “ver mais” no saber acerca do “Por que assim”: techné e empeiria (981 a 24 - b 6)

Acredita-se que a techné possui mais o saber do que a empeiria, e que os técnicos são mais sábios (sophoi) do que os empíricos, porque conhecem a causa (aitia). Os empíricos sabem o “que” (to hoti), mas não o “por que” (to dioti). Por isso, os arquitetos são mais estimados e mais sábios do que os operários manuais, pois conhecem as causas do que é feito. A superioridade do arquiteto reside no fato de ele possuir o logos e conhecer as causas, sendo considerado mais sábio não por sua capacidade prática, mas por sua capacidade de dar razões. Os que apenas executam o prescrito são comparados a coisas inanimadas que agem sem saber (como o fogo que aquece), agindo por natureza ou por hábito.

γ) O “ver mais” no saber ensinar e no conhecimento do “por quê” (981 b 7-13)

O sinal do que sabe é a capacidade de ensinar, e por isso a techné é considerada mais ciência do que a empeiria. Além disso, não se atribui sabedoria (sophia) a nenhuma das sensações, embora sejam as mais importantes para o conhecimento das coisas particulares, pois elas não dizem o “por que”, mas apenas “o que” (por exemplo, por que o fogo aquece).

f) O ser-admirado e o estar livre das urgências da vida nas maneiras do compreender sapiencial (981 b 13-27)

Quem descobre uma techné além das percepções comuns é admirado como sábio, não apenas pela utilidade, mas por se destacar dos demais. Quando muitas technai são descobertas, umas para as necessidades (anankaia) e outras para o lazer (diagoge), considera-se mais sábios os que visam a esta última, pois sua ciência não visa à utilidade. Foi por isso que, após todas as provisões estarem garantidas, foram descobertas as ciências que não visam ao prazer nem às necessidades, como ocorreu primeiro no Egito, onde a casta dos sacerdotes tinha tempo livre. A diferença entre techné, sophia e as outras formas de conhecimento já foi estabelecida nas investigações éticas (Eth. Nic. Z).

g) O compreender como elucidação que traz à visão o “Por quê” e o “De onde” (981 b 27 - 982 a 3)

A razão da presente discussão é que todos apreendem a chamada sabedoria (sophia) como concernente às causas primeiras e aos princípios (archai). Por isso, como dito, o empírico parece mais sábio que o que tem apenas sensação, o técnico mais que o empírico, o arquiteto mais que o operário, e as ciências teoréticas mais que as poiéticas. A sophia é, portanto, uma maneira de elucidar que traz à visão o “por quê” e o “de onde”.