3.1.A Vida e mundo

O significado intransitivo do verbo “viver”, em sua presentificação concreta, explicita-se sempre como viver “em” algo, viver “a partir de” algo, viver “para” algo, viver “com” algo, “contra” algo, viver “em função de” algo, viver “de” algo, sendo esse “algo” — que indica a multiplicidade de relações do “viver” nessas expressões preposicionais — fixado com o termo “mundo”.

Ao se compreender a expressão nominal “vida” em seu múltiplo sentido relacional, rico em si e passível de novas relações, o sentido de conteúdo abordado junto a isso é caracterizado como “mundo”.

Formalmente, e com facilidade para equívocos, a vida está em si mesma relacionada com mundo, não sendo “vida” e “mundo” dois objetos subsistentes por si, como uma mesa para com a qual se relaciona espacialmente a cadeira diante dela.

Dizer “categorias” significa, nesse contexto, algo que, conforme seu sentido, interpreta um fenômeno numa direção de sentido determinada, trazendo-o à compreensão enquanto interpretado, cabendo distinguir com cuidado o conceito de forma do conceito de categoria até que este último não seja haurido originariamente, uma vez que categoria é apropriada na preocupação (Bekümmerung) existenciária interpretando, e só interpretando, a vida fática.

Determinada de forma mais detalhada, a categoria fundamental “mundo” realiza-se categorialmente em novas categorias que surgem e podem ser experimentadas na execução interpretativa própria da interpretação realizada na vida fática, para essa e a partir dessa, chegando as categorias à compreensão somente na medida em que a própria vida fática força a interpretação.

O que isso significa mostrar-se-á mais à frente, na dedução e derivação da interpretação fenomenológica a partir da faticidade da própria vida.

A concepção prévia da interpretação brota, a cada vez, do nível de interpretação da própria vida, não existindo, frente à vida fática, possibilidades teóricas a escolher segundo o humor, podendo um desacerto anunciar-se apenas a partir de uma investida radical, e fantasiar de antemão sobre adequação, validade e validade universal desconhece o sentido fundamental da faticidade.

As categorias não são algo inventado, nem uma sociedade de esquemas lógicos para si, “grade de ferro”, mas estão vivas na própria vida de modo originário, vivas para ali “formar” vida, tendo seu próprio modo de acesso, que não é estranho à própria vida, como se a esta viessem de fora, mas é precisamente um modo todo próprio pelo qual a vida vem a si mesma.

A própria interpretação categorial, a ser agora desenvolvida com mais precisão, deve, ao ser compreendida, ser essencialmente repetida, mostrando-se sua evidência em sua repetibilidade autêntica e cada vez rigorosa, tornando-se a interpretação, na repetição concreta, cada vez mais simples.

No emprego subsequente, a expressão “a vida” abarca no mínimo as estruturas indicadas, sem por isso ser totalmente vaga, elaborando a interpretação subsequente e sua caracterização um conceito rigoroso e filosoficamente preciso, correspondendo apenas à comodidade da própria vida fática salvar-se, na apreensão que a ela se dirige, com o argumento de que a vida seria uma configuração de muitos significados e, por isso, não fácil de apreender com precisão.

Tanto aqui quanto no que se segue, todo e qualquer dar destaque, interpretado expressamente a partir de uma direção de sentido, deve ser compreendido na totalidade do fenômeno e como direção de um sentido pleno, sendo categoria o seguir interpretando rumo à vida plena.