1 Aristóteles

Aristóteles e a recepção de sua filosofia

A. O que significa história da filosofia?

O exame de uma filosofia do passado, no caso a de Aristóteles, é considerado trabalho de história da filosofia, cuja Geschichte sempre foi apreendida a partir de uma consciência cultural determinada, distinguindo-se o modo objetivante e tipologizante de investigar os fatos historicamente (Historische), próprio da moda dominante, do modo pelo qual o que há de propriamente histórico na filosofia só se deixa apreender no próprio filosofar, a partir da vida puramente factícia, exigindo clareza quanto ao sentido em que se cumpre o filosofar e quanto ao vínculo essencial que o une ao histórico e à história.

B. A recepção da filosofia aristotélica

a) Idade Média e tempos modernos

a) Na concepção de vida e civilização professada pela Igreja católica, Aristóteles goza de estima positiva apoiada na alta escolástica medieval, ao passo que a renovação da filosofia kantiana a partir dos anos sessenta do século anterior conduziu a uma posição oposta por princípio, fundada numa interpretação de Kant centrada na teoria do conhecimento que via na crítica kantiana a fundação das ciências matemáticas da natureza e o aniquilamento da antiga metafísica.

b) A helenização prévia da consciência cristã de vida

b) A consciência cristã de vida, tanto na primeira quanto na alta escolástica, onde se realizou a verdadeira recepção de Aristóteles com interpretação inteiramente determinada, já havia atravessado uma helenização, amadurecendo a relação com a vida originariamente cristã (urchristlich) num mundo circundante marcado pela interpretação especificamente grega da existência (Dasein) e pela conceitualidade grega, processo cumprido através de Paulo e da patrística.

c) A pesquisa filológica propriamente histórica

c) Ao lado das duas orientações opostas de estimação positiva e rejeição de Aristóteles, desenvolveu-se ao longo do século XIX e até hoje uma fecunda pesquisa filológico-histórica do corpus aristotélico, mal tocada por ambos os grupos, originada da ideia schleiermacheriana de uma edição integral e crítica de Aristóteles, encampada pela Academia de Ciências de Berlim e da qual deriva a citação corrente de Aristóteles.