Agostinho, Confissões (§§10-12)

PARTE PRINCIPAL

INTERPRETAÇÃO FENOMENOLÓGICA DO LIVRO X DAS CONFISSÕES

§ 10. Sobre a beata vita — capítulos vigésimo a vigésimo terceiro

A procura de Deus transforma-se na procura da beata vita porque Deus é vita vitae e a vida feliz somente pode ser procurada se já for possuída de algum modo, fazendo com que a investigação se concentre não prioritariamente no conteúdo objetivo da felicidade, mas no Wie des Habens (como do ter), no Bezugssinn (sentido de relação) e no Vollzugssinn (sentido de realização) pelos quais todos querem a felicidade, conhecem-na de algum modo e, contudo, podem desviar-se para alegrias que assumem indevidamente o lugar da verdadeira beata vita; por isso, a felicidade culmina como gaudium de veritate, alegria na verdade, cuja realização existencial pode degenerar quando o existente transforma em “verdade” aquilo a que já se entregou por tradição, comodidade, medo ou fuga de si mesmo.

a) O modo de ter a vita beata

b) O gaudium de veritate

c) A veritas na direção da queda

§ 11. O modo de perguntar e de ouvir — capítulos vigésimo quarto a vigésimo sétimo

A procura de Deus não encontra um objeto situado simplesmente fora ou dentro da memoria, pois Deus é encontrado onde se encontra a própria veritas e simultaneamente supra me, acima de quem procura, fazendo com que o problema do lugar se transforme no problema existencial do modo de perguntar, ouvir, recordar, alegrar-se e amar; Deus responde ubique, mas nem todos o ouvem liquide, porque o verdadeiro acesso depende da apropriação do Wie da escuta e da disposição para receber justamente aquilo que não corresponde às expectativas previamente fixadas, de modo que o encontro com Deus reconduz finalmente a questão à facticidade do próprio existente.

§ 12. O curare (estar preocupado) como caráter fundamental da vida fática — capítulos vigésimo oitavo e vigésimo nono

O curare (preocupação) constitui um caráter fundamental da experiência fática porque a vida se encontra dispersa em múltiplas significatividades, arrastada por delectatio, desiderium e timor e simultaneamente convocada à continentia como movimento de recolhimento, de modo que a existência não possui lugar intermediário livre da tentatio, mas vive numa Zwiespältigkeit (duplicidade conflitiva) em que prospera e adversa, desejo e medo, alegria e tristeza se implicam historicamente e fazem da própria realização da experiência uma região permanente de insegurança, possibilidade de queda e exigência de resistência.

a) A dispersão da vida

b) A duplicidade conflitiva da vida