A filosofia da religião de Ernst Troeltsch procura alcançar uma determinação cientificamente válida da essência da religião mediante a articulação de psicologia, teoria do conhecimento, filosofia da história e metafísica, combinando sucessivamente influências de Kant, Schleiermacher, Lotze, Dilthey, Windelband, Rickert, Bergson, Simmel e Hegel sem abandonar sua posição religiosa fundamental, de modo que a religião é progressivamente descrita em suas manifestações psíquicas, submetida à determinação de um a priori religioso, interpretada em seu desenvolvimento histórico e finalmente integrada numa metafísica de Deus, estrutura que manifesta a orientação dominante de tratar o religioso como objeto inserível em campos científicos e filosóficos previamente constituídos.
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A primeira tarefa consiste em descrever imediatamente os fenômenos religiosos, livre de teorias previamente constituídas, segundo uma orientação positivista comparável à exigência metodológica de Max Weber na sociologia.
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Orações, cultos e liturgias devem ser considerados em sua manifestação ainda não desgastada nem nivelada, particularmente no comportamento de grandes personalidades religiosas, pregadores e reformadores, para depois serem caracterizados segundo suas condições transcendentais originárias.
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Troeltsch distingue fenômenos religiosos centrais e periféricos, situando no centro a crença na obtenção da presença de Deus, à qual se encontra principialmente ligado o mandamento moral.
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As formas periféricas abrangem a sociologia e a ética econômica da religião, isto é, as configurações fáticas que o religioso assume no mundo histórico e que foram investigadas, entre outros, por Max Weber.
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A descrição deve mobilizar psicologia individual, psicologia dos povos, psicopatologia, pré-história, etnologia, levantamento estatístico e métodos de pesquisa empírica, fazendo convergir diferentes vias científicas para a apreensão do fenômeno religioso.
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William James, especialmente em A experiência religiosa em sua diversidade, oferece para Troeltsch a descrição até então mais bem-sucedida das manifestações religiosas, e essa valorização evidencia a influência simultânea da psicologia descritiva de James e de
Dilthey.
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A incorporação dessas tendências psicológicas mostra que o primeiro acesso à religião ocorre através de suas manifestações psíquicas facticamente constatáveis, antes de se perguntar por seu direito de validade.
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A descrição psicológica deve ser seguida por uma teoria do conhecimento da religião capaz de isolar, nos processos psíquicos, o momento de validade que distingue o religioso de uma simples ocorrência psicológica.
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A tarefa consiste em investigar a legalidade racional das formações religiosas de ideias, pressupondo que determinadas estruturas apriorísticas atuem sempre como fundamento das manifestações religiosas.
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A teoria geral do conhecimento já teria estabelecido previamente a problemática do a priori, sendo a posição de Troeltsch aqui dependente sobretudo da teoria do conhecimento de Windelband e Rickert.
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Ao lado dos a priori lógico, ético e estético, é postulado um a priori sintético especificamente religioso, cuja determinação deve fixar aquilo que pode ser denominado “verdade” religiosa e esclarecer o momento de validade universal presente na religião.
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“Racional” não significa necessariamente racionalismo teórico, mas validade universal ou necessidade conforme à razão; posteriormente Troeltsch abandona inclusive a qualificação do a priori religioso como racional e passa a caracterizá-lo como um a priori irracional.
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O problema desloca-se então para a relação entre o a priori religioso e os a priori lógico, ético e estético, devendo esclarecer-se de que modo estes recebem consolidação e articulação a partir do religioso.
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A teoria do conhecimento da religião possui caráter crítico porque deve separar o Faktisch-Psychologische (fático-psicológico) daquilo que possui validade apriorística.
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A faktische Lebenserfahrung (experiência fática da vida) não constitui, nesse contexto, uma região objetiva onde objetos simplesmente ocorram nem se relaciona a qualquer monismo da experiência destinado a explicar a realidade a partir de um único princípio.
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A experiência fática da vida constitui o Vorgegebene (pré-dado) a partir do qual se deve proceder sem transformá-la em fundamento explicativo, e a fenomenologia contemporânea permanece insuficientemente rigorosa quando recebe nexos de significatividade previamente dados sem perguntar bastante pelo direito de validade dessas dadidades.
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A fenomenologia não constitui uma ciência preliminar da filosofia, mas é a própria filosofia, razão pela qual a determinação de seu acesso ao fático não pode ser subordinada a uma ciência anterior encarregada de fornecer-lhe seus objetos.
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A filosofia da religião contemporânea desenvolve-se predominantemente dentro da teologia, sobretudo da teologia protestante, cuja orientação depende fortemente das correntes filosóficas dominantes em cada época, enquanto a teologia católica aborda os problemas a partir de sua concepção específica do cristianismo.
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Não se pode simplesmente eliminar o problema teológico por decisão filosófica sumária, pois a relação entre filosofia da religião, teologia e psicologia da religião precisa ser esclarecida segundo seus próprios motivos.
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A renovada aproximação contemporânea de
Fichte e
Hegel tende a provocar um renascimento da especulação filosófico-religiosa, introduzindo princípios que encaminham o problema religioso numa direção posteriormente sujeita a crítica.
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A adoção moderna do legado kantiano conduz parte da teologia a abandonar a demonstração científica dos dogmas e a fundamentar a dogmática na certeza pessoal da experiência religiosa; nessa direção, aparecem ainda a valorização lotziana do cristianismo e a avaliação pragmatista de seu valor prático para a vida.
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A metafísica religiosa constitui uma metafísica das ideias de Deus fundada na totalidade das experiências do mundo, podendo mesmo uma teoria crítica do conhecimento inspirada em
Kant conduzir a essa metafísica quando a conexão teleológica da consciência transcendental remete para um sentido último que exige a existência de Deus.
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A filosofia da religião de Troeltsch nasce de dificuldades internas à própria teologia, sobretudo do problema de relacionar história das religiões e sistemática religiosa, questão inicialmente trabalhada sob a influência de Albrecht Ritschl.
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A tentativa de submeter o material histórico-religioso a uma elaboração racional e crítica por meio do “Bewußtsein überhaupt” (consciência em geral) de Rickert fracassa e conduz progressivamente ao rompimento com a teologia.
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Uma “fenomenologia provisória”, compreendida como tipologia preliminar das religiões históricas, deve então fornecer sustentação à nova filosofia da religião e recebe de Troeltsch o nome de psicologia da religião.
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O fenômeno central continua sendo a crença na possibilidade de experienciar a presença de Deus, enquanto mitologia, ethos e sociologia da religião permanecem manifestações periféricas.
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Psicopatologia e etnologia seriam capazes de indicar na mística, compreendida como experiência de unidade em Deus, o Urphänomen (fenômeno originário) de todas as religiões.
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Toda realização psíquica da religião pressupõe fundamentos apriorísticos que conferem aos processos psíquicos sua determinação especificamente religiosa.
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A teoria do conhecimento da religião deve extrair um a priori religioso análogo ao a priori teórico, fixando o conteúdo de verdade e o momento racional sem o qual a religião não seria possível.
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Ratio passa posteriormente a significar conformidade normativa em sentido mais amplo, abrangendo não apenas o lógico, mas também o ético e outras dimensões normativas.
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Cabe à metafísica religiosa reunir novamente o a priori destacado teoricamente com as formas psíquicas em que a religião se manifesta, estabelecendo a relação entre a legalidade apriorística e a experiência efetiva.
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Ao a priori religioso corresponde uma esfera espiritual superior cuja experiência constitui o fenômeno religioso fundamental, fazendo com que a metafísica religiosa se distinga principialmente da metafísica filosófica assim como o a priori religioso se distingue do a priori puramente teórico.
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A apresentação histórica deve apoiar-se num princípio teleológico de desenvolvimento obtido pela filosofia da história, mas a metafísica atuante nesse processo não deve possuir forma construtivo-dialética hegeliana e sim caráter indutivo.
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A filosofia da religião recebe ainda a função de interferir reflexivamente no desenvolvimento futuro da religião, discutindo religião racional pura, sincretismo e possível predominância de alguma grande tradição religiosa.
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A metafísica religiosa deve inserir a realidade de Deus no conjunto do mundo, de maneira que até uma filosofia epistemologicamente orientada pode levar, pela questão da facticidade da consciência e de seu fundamento último, à crença em Deus.
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A arquitetura troeltschiana compreende quatro disciplinas: psicologia, teoria do conhecimento e filosofia da história, conjuntamente constituindo a ciência da religião, e metafísica, que constitui propriamente a filosofia da religião.
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A ciência da religião aparece como disciplina filosófica paralela à lógica, à ética e à estética, enquanto a metafísica se funda nessas análises como domínio final.
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Troeltsch dedica-se sobretudo à filosofia da história, além de estudos particulares como As doutrinas sociais das igrejas e grupos cristãos, modificando com o tempo sua própria fundamentação principial da história.
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A interpretação inicialmente teleológica da história como desenvolvimento ascendente é substituída pela concessão de um sentido próprio a cada época histórico-religiosa, que deixa de ser mero estágio intermediário em direção a uma consumação posterior.
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Cada época pode gerar, a partir da Erregtheit des Lebens (agitação da vida), novos motivos não inteiramente apreensíveis racionalmente e capazes de configurar a época seguinte.
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As religiões brotam simultaneamente de momentos racionais e de forças espontâneas da vida, desenvolvendo um sentido próprio que adquire autonomia e se transforma em impulso de novas configurações históricas.
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Um esquema lógico-dialético uniforme não consegue apreender esse desenvolvimento e constitui uma violência contra a historicidade concreta, aproximação que evidencia a influência de Simmel e
Bergson.
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O problema passa a ser formulado como uma “dialética histórica”, afastando-se de Rickert e retornando a
Dilthey, especialmente mediante os conceitos de “totalidade individual” e “continuidade do devir”, próximos do Wirkungszusammenhang (nexo de atuação) diltheyano.
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A correspondente transformação do conceito de a priori ainda não é plenamente desenvolvida por Troeltsch, tornando inclusive incerto se permanece efetivamente mantido o a priori religioso no sentido anteriormente herdado de Rickert.
A posição de Troeltsch torna-se criticamente decisiva não por qualquer insuficiência particular de suas descrições psicológicas, epistemológicas, históricas ou metafísicas, mas porque sua filosofia da religião determina desde o início a religião como objeto inserível em Sachzusammenhänge (contextos objetivos) previamente estabelecidos pela filosofia científica, de modo que os quatro conceitos de essência da religião não emergem do sentido do religioso enquanto religioso, mas das disciplinas às quais ele é subordinado; por isso, a possibilidade de Troeltsch conservar sua posição filosófico-religiosa através de sucessivas mudanças de sistema revela precisamente a objetivação prévia da religião, recolocando o problema fundamental da relação entre filosofia e ciência e exigindo perguntar se uma fenomenologia da religião pode efetivamente partir da facticidade religiosa sem transformá-la desde o início em objeto de uma Betrachtung (consideração) científica.
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A determinação científica da essência da religião apresenta quatro sentidos distintos: essência psicológica, correspondente aos gêneros de suas configurações psíquicas; essência epistemológica, correspondente ao a priori da razão religiosa; essência histórica, compreendida como tipologia geral e realização histórica das duas primeiras determinações; e essência metafísica, na qual o religioso aparece como princípio de todo a priori e recebe sua posição no conjunto da razão.
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Somente a articulação das quatro determinações forma o aspecto global da filosofia da religião de Troeltsch, mas essa própria articulação exige perguntar de que modo a filosofia se relaciona efetivamente com a religião.
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O problema fundamental consiste em saber se a filosofia da religião cresce a partir do Sinn der Religion (sentido da religião) ou se o religioso é imediatamente constituído como Gegenstand (objeto) e introduzido em disciplinas filosóficas já existentes.
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Psicologia, teoria do conhecimento, filosofia da história e metafísica existem também para ciência, arte e outros domínios, razão pela qual suas formas especificamente “religiosas” não nascem necessariamente da religião enquanto religião.
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O religioso é desde o início tomado como objeto e ordenado em Sachzusammenhänge anteriores à sua própria manifestação, fazendo com que a filosofia da religião se converta essencialmente em Religionswissenschaft (ciência da religião).
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O conceito de religião torna-se secundário diante da concepção previamente assumida da filosofia, pois poderiam ser elaboradas segundo o mesmo modelo uma sociologia ou uma estética da religião.
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Um motivo decisivo da posição de Troeltsch encontra-se em sua interpretação da Reforma, considerada ainda pertencente à estrutura medieval de sentido, enquanto o verdadeiramente novo surgiria apenas no século XVIII e no idealismo alemão.
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Essa interpretação favorece a absorção de elementos medievais e católicos na filosofia da religião troeltschiana e explica a objeção de que, de maneira semelhante a
Dilthey, Troeltsch não alcança uma compreensão suficiente de
Lutero.
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A orientação final para a metafísica da religião e para a prova da existência de Deus não pertence originariamente ao cristianismo, mas resulta historicamente da conexão do cristianismo com a filosofia grega.
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A concepção metafísica determina igualmente a filosofia da história de Troeltsch, impedindo que o fenômeno religioso seja compreendido exclusivamente a partir de sua própria realização.
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A relação entre religião e filosofia precisa ser interrogada segundo o modo como a religião se torna objeto filosófico, evitando uma crítica meramente material das conclusões particulares de Troeltsch.
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Nas quatro disciplinas, a religião é colocada em contextos objetivos já formados pela filosofia: realidade psíquica, legalidade apriorística da razão, realidade histórica e realidade metafísica última.
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Esses quatro campos não diferem apenas metodologicamente, mas em seu próprio caráter objetivo e em seu modo de ser: o psíquico não é o apriorístico, este não é a realidade histórica e esta não coincide com a realidade metafísica na qual Deus é pensado.
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A relação interna desses domínios torna-se secundária diante do fato decisivo de que a filosofia da religião é determinada não pela religião mesma, mas por um conceito científico de filosofia.
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Mesmo a metafísica não rompe essa estrutura objetiva, embora pareça aproximar-se do fenômeno originário da fé na existência de Deus e, portanto, de algo que não seria produzido pelo conhecimento.
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Troeltsch continua exigindo que o “objeto” da fé seja considerado como objeto real em conexão com outros objetos reais, porque a unidade da razão deve integrar toda experiência humana numa consideração objetiva universal.
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Deus torna-se, assim, um objeto real submetido à elaboração conceitual da experiência total, e a metafísica mantém o mesmo Bezugssinn (sentido de relação) objetivante encontrado nas demais disciplinas.
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A estabilidade da posição filosófico-religiosa de Troeltsch através das mudanças de suas posições filosóficas fundamentais explica-se justamente porque a religião permanece sempre um objeto capaz de ser transferido de um Sachzusammenhang para outro conforme o sistema adotado.
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A própria facilidade dessa transferência constitui um dos indícios mais fortes de que o fenômeno religioso já foi previamente objetivado.
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A relação entre religião e ciência não é concebida por Troeltsch como imposição artificial, pois toda religião historicamente inserida numa cultura precisa confrontar-se com a ciência.
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Essa confrontação pode ser defensiva e negativa, como na apologética, mas também positiva, porque a ciência da religião, ao antecipar possibilidades do desenvolvimento religioso, poderia contribuir para o aperfeiçoamento histórico da própria religião.
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A ciência não produz a religião, mas pode tornar-se fator fecundo de seu desenvolvimento, como teria ocorrido historicamente no cristianismo mediante sua aliança com a filosofia antiga.
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As possibilidades atuais de novas construções filosófico-religiosas aparecem, contudo, praticamente esgotadas, restando sobretudo destacar entre elas a possibilidade considerada correta.
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O exame de Troeltsch fornece uma figura concreta da filosofia da religião, quatro determinações da religião — psicológica, racional-apriorística, histórica e metafísica — e, sobretudo, o reconhecimento de uma relação objekterkennend (cognoscente de objetos) da filosofia com o fenômeno religioso.
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Essa constatação parece militar contra a tese de uma diferença radical entre filosofia e ciência, pois, se a filosofia precisa tornar a religião objeto de conhecimento, torna-se difícil compreender em que sentido seu Bezugssinn poderia ser fundamentalmente diferente daquele da ciência como conhecimento de objetos.
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A questão retorna, assim, à própria possibilidade de uma “fenomenologia da religião”: também nela os fenômenos religiosos parecem tornar-se Gegenstände der Betrachtung (objetos de consideração), assim como os fenômenos do prazer estético numa fenomenologia correspondente.
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A necessidade de olhar a religião em sua Tatsächlichkeit (facticidade efetiva) antes de submeter-lhe qualquer consideração filosófica específica mantém aberta a dificuldade decisiva de encontrar um acesso que parta do fenômeno religioso sem objetivá-lo antecipadamente segundo os esquemas científicos da filosofia.