1.1

PRIMEIRA PARTE

Introdução metodológica

Filosofia, experiência fática da vida e fenomenologia da religião

PRIMEIRO CAPÍTULO

Formação filosófica de conceitos e experiência fática da vida

§ 1. A peculiaridade dos conceitos filosóficos

Os conceitos filosóficos distinguem-se principialmente dos conceitos das ciências particulares porque não podem receber determinação estável pela inserção num contexto objetivo previamente constituído, permanecendo necessariamente oscilantes, vagos, múltiplos e fluidos não por deficiência acidental ou mera diversidade histórica de posições, mas porque seu próprio sentido exige uma modalidade de acesso diferente daquela própria dos conceitos científicos, fazendo da diferença entre filosofia e ciência uma questão que somente pode esclarecer-se no próprio movimento do filosofar.

§ 2. Sobre o título da preleção

O título “Introdução à fenomenologia da religião” precisa ser provisoriamente esclarecido a partir dos três termos “introdução”, “fenomenologia” — tomada aqui no mesmo sentido de filosofia — e “religião”, porque cada acentuação revela uma dimensão diferente do problema e conduz rapidamente ao fenômeno central do histórico, tornando necessário mostrar que uma introdução filosófica não pode simplesmente reproduzir o esquema das introduções científicas, já que a filosofia exige permanente autocompreensão de sua própria essência e somente pode conquistá-la no próprio filosofar, cuja proveniência e retorno se encontram na experiência fática da vida.

§ 3. A experiência fática da vida como ponto de partida

A experiência fática da vida (faktische Lebenserfahrung) constitui simultaneamente o ponto de partida, o meio no qual se torna possível a transformação que conduz ao filosofar e a resistência fundamental contra essa transformação, porque “experiência” designa inseparavelmente tanto o experimentar quanto aquilo que é experimentado, sem separar o si-mesmo experienciante do mundo experimentado como coisas independentes, enquanto “fático” não significa realidade natural, causal ou simplesmente objetiva, mas somente pode ser compreendido a partir do histórico; nessa experiência, Umwelt (mundo circundante), Mitwelt (mundo compartilhado) e Selbstwelt (mundo próprio) aparecem originariamente segundo Bedeutsamkeit (significatividade), ao passo que o Wie (como) da relação permanece indiferenciado e encoberto pelo conteúdo vivido, fundando a Selbstgenügsamkeit (autossuficiência) que torna a própria experiência fática simultaneamente origem e impedimento do filosofar.

§ 4. A tomada de conhecimento

A Kenntnisnahme (tomada de conhecimento) emerge dentro da própria experiência fática como uma tendência de relacionar, ordenar e estabilizar nexos de Bedeutsamkeit (significatividade) até transformá-los em Objektszusammenhänge (nexos objetivos) regidos por uma Sachlogik (lógica da coisa), processo que pode culminar na objetivação científica e numa filosofia concebida como ciência de objetos superiores, mas que justamente por conservar inalterado o Bezugssinn (sentido de relação) da atitude objetivante não alcança a transformação originariamente filosófica, tornando necessário encontrar, dentro da experiência fática, um motivo para uma Umwendung (virada) capaz de superar sua tendência de queda na significatividade sem abandonar a própria vida da qual o filosofar procede e à qual retorna.