6.1. Nietzsche1 (1936–1939), ed. B. Schillbach, 1996, XIV, 596p / 6.2. Nietzsche2 (1939–1946), ed. B. Schillbach, 1997, VIII, 454p.
1. A Vontade de Poder como Arte
6. O Ser dos entes como Vontade na Metafísica Tradicional
1. Inicia-se pela segunda questão, observando-se que a concepção do ser de todos os entes como vontade situa-se em profunda continuidade com a melhor e mais grandiosa tradição da filosofia alemã.
2. Ao olhar retrospectivamente a partir de Nietzsche, o pensamento recai imediatamente sobre Schopenhauer, cuja obra principal, intitulada O Mundo como Vontade e Representação, primeiramente impele Nietzsche em direção à filosofia para, posteriormente, dele afastá-lo.
3. Aquilo que Nietzsche mesmo compreende por vontade constitui algo inteiramente distinto, não sendo adequado apreender sua noção de vontade como simples inversão da concepção schopenhaueriana.
4. A obra principal de Schopenhauer surgiu no ano de 1818, sendo profundamente devedora das obras principais de Schelling e Hegel, já publicadas àquela época.
5. A melhor prova dessa dívida intelectual consiste nas censuras excessivas e destituídas de bom gosto que Schopenhauer dirigiu vitaliciamente a Hegel e a Schelling, chamando este de tagarela vazio e aquele de charlatão desajeitado.
6. Tais invectivas, reiteradamente dirigidas contra a filosofia nos anos subsequentes a Schopenhauer, não possuem sequer a duvidosa distinção de serem particularmente inovadoras.
7. Em um dos trabalhos mais profundos de Schelling, o tratado Sobre a Essência da Liberdade Humana, publicado em 1809, afirma-se que, em última e definitiva instância, não há outro ser senão o querer, sendo o querer o ser primordial.
8. Na Fenomenologia do Espírito, de 1807, Hegel apreende a essência do ser como saber, compreendendo, porém, esse saber como essencialmente idêntico ao querer.
9. Schelling e Hegel estavam certos de que, ao interpretarem o ser como vontade, apenas pensavam o pensamento essencial de outro grande pensador alemão, a saber, o conceito de ser em Leibniz.
10. Leibniz definiu a essência do ser como a unidade original entre perceptio e appetitus, isto é, entre representação e vontade.
11. Não por acaso, o próprio Nietzsche referiu-se a Leibniz em duas passagens decisivas de A Vontade de Poder, afirmando que a filosofia alemã em seu conjunto, tomando Leibniz, Kant, Hegel e Schopenhauer como os grandes nomes, representa a forma mais radical de romantismo e de nostalgia jamais existente, expressando o anseio pelo que de melhor já houve.
12. Em outra passagem, Nietzsche menciona Händel, Leibniz, Goethe e Bismarck como característicos do tipo alemão forte.
13. Não se deve, contudo, afirmar que a doutrina nietzschiana da vontade de poder seja dependente de Leibniz, de Hegel ou de Schelling, no intuito de, com tal afirmação, cancelar qualquer consideração ulterior sobre o tema.
14. A noção de dependência não constitui conceito adequado para compreender as relações entre os grandes pensadores, uma vez que são os pequenos que sempre dependem dos grandes, sendo precisamente pequenos por julgarem-se independentes.
15. O grande pensador é aquele capaz de ouvir o que há de mais elevado na obra de outros grandes e de transformá-lo de maneira original.
16. A referência aos predecessores de Nietzsche no que concerne à doutrina do ser como vontade não visa calcular algum tipo de dependência, mas sugerir que tal doutrina, no interior da metafísica ocidental, não é arbitrária, sendo antes, talvez, até mesmo necessária.
17. Todo pensamento verdadeiro deixa-se determinar por aquilo que deve ser pensado, cabendo à filosofia pensar o ser dos entes, compromisso este mais elevado e mais rigoroso que qualquer outro no âmbito do pensar e do questionar filosóficos.
18. Em contraste, todas as ciências pensam sempre apenas um ente entre outros, uma região particular de entes, comprometendo-se com essa região apenas de modo indireto, nunca de forma direta e imediata.
19. No pensamento filosófico, onde vigora o mais alto compromisso possível, todos os grandes pensadores pensam o mesmo, sendo esse mesmo tão essencial e tão rico que nenhum pensador isolado o esgota, comprometendo cada um os demais ainda mais estritamente com ele.
20. Conceber os entes segundo seu caráter fundamental como vontade não constitui posição sustentada por pensadores particulares, mas antes uma necessidade na história do Dasein que esses mesmos pensadores fundamentam.