1.1.4 Vontade de Poder, Eterno Retorno, Transvaloração

6.1. Nietzsche1 (1936–1939), ed. B. Schillbach, 1996, XIV, 596p / 6.2. Nietzsche2 (1939–1946), ed. B. Schillbach, 1997, VIII, 454p.

1. A Vontade de Poder como Arte

4. A Unidade da Vontade de Poder, do Eterno Retorno e da Transvaloração

1. A doutrina do eterno retorno do mesmo coere intimamente com a doutrina da vontade de poder, e a unidade entre esses dois ensinamentos configura, historicamente, a transvaloração de todos os valores até então vigentes.

2. A questão sobre até que ponto o eterno retorno do mesmo e a vontade de poder pertencem essencialmente um ao outro constitui a questão decisiva a ser desenvolvida, ainda que apenas uma resposta provisória seja oferecida inicialmente.

3. A expressão vontade de poder designa o caráter fundamental dos entes, de modo que todo ente, na medida em que é, constitui vontade de poder, estipulando assim apenas o caráter que os entes possuem enquanto entes.

4. Essa determinação não responde à questão primeira e própria da filosofia, respondendo apenas à questão preliminar última, uma vez que a questão decisiva ao final da filosofia ocidental não é mais “que caráter fundamental os entes manifestam” ou “como se caracteriza o ser dos entes”, mas sim “o que é esse ser mesmo”.

5. A questão decisiva é a do sentido do ser, e não apenas a do ser dos entes, sendo o sentido conceitualmente delineado como aquilo a partir do qual e sobre cujo fundamento o ser em geral pode manifestar-se enquanto tal e alcançar a verdade.

6. A ontologia tal como oferecida atualmente nada tem a ver com a questão própria do ser, configurando-se antes como uma análise erudita e sagaz de conceitos transmitidos, que os contrapõe uns aos outros.

7. À pergunta sobre o que é a vontade de poder e como ela é, responde-se: o eterno retorno do mesmo.

8. O ensinamento do eterno retorno recorre continuamente em passagens decisivas ao longo de todos os planos para a obra filosófica principal, sendo listado por Nietzsche, em um plano intitulado “Eterno Retorno”, como o pensamento mais difícil, o que se justifica pelo fato de a questão do ser constituir simultaneamente o pensamento mais íntimo e mais extremo da filosofia, aquele com o qual ela permanece ou cai.

9. Embora o caráter fundamental dos entes seja a vontade de poder, o querer e, portanto, o vir-a-ser, Nietzsche não se limita a essa posição, ainda que seja usualmente associado a Heráclito por essa razão.

10. Em passagem formulada expressamente para oferecer uma visão de conjunto, afirma-se que imprimir ao vir-a-ser o caráter do ser constitui a suprema vontade de poder, sugerindo-se que o vir-a-ser somente é se estiver fundado no ser enquanto ser.

11. A ideia de que tudo retorna representa a aproximação mais próxima entre um mundo do vir-a-ser e um mundo do ser, sendo designada como o cume da meditação.

12. Com a doutrina do eterno retorno, pensa-se, à sua maneira, o mesmo pensamento que perpassa toda a filosofia ocidental, um pensamento que permanece encoberto mas constitui sua força motriz genuína, revertendo-se com isso aos primórdios da filosofia ocidental, mais precisamente ao início que essa tradição filosófica se acostumou a reconhecer ao longo de sua história, apesar da compreensão originalmente própria dos pré-socráticos.

13. Na visão popular e segundo a noção comum, reconhece-se em Nietzsche a figura revolucionária que negou, destruiu e profetizou, imagem que corresponde a uma necessidade íntima de sua época e não apenas a um papel desempenhado.

14. O essencial no revolucionário não reside no ato de subverter enquanto tal, mas no fato de que, ao subverter, ele traz à luz o que é decisivo e essencial, o que ocorre sempre em filosofia quando se levantam as poucas questões momentosas.

15. Pensar o pensamento mais difícil no cume da meditação significa meditar sobre o ser, isto é, sobre a vontade de poder enquanto eterno retorno, o que implica compreender a eternidade não como um agora estático nem como sequência de agoras que se sucedem ao infinito, mas como o agora que se recurva sobre si mesmo, revelando a essência encoberta do tempo.

16. Pensar o ser, a vontade de poder, como eterno retorno equivale a pensar o ser como tempo, ainda que esse pensamento não seja pensado como a questão do ser e do tempo, tal como também ocorre com Platão e Aristóteles ao conceberem o ser como ousia, ou presença, sem, contudo, tematizá-lo como pergunta.

17. Colocar essa questão não significa reivindicar superioridade sobre Nietzsche ou sobre a filosofia ocidental, que Nietzsche apenas leva a seu término, reconhecendo-se que o pensamento mais difícil da filosofia tornou-se ainda mais difícil e que o cume da meditação talvez não tenha sido nem sequer descoberto.

18. Situar a vontade de poder de Nietzsche, ou seja, sua questão sobre o ser dos entes, na perspectiva da questão sobre ser e tempo não implica relacionar sua obra a um livro intitulado dessa maneira nem medi-la segundo o conteúdo desse livro, pois tal obra somente pode ser avaliada pela medida em que corresponde ou não à questão que ela mesma levanta, sendo a questão, e não o livro, o elemento essencial, ainda que o livro conduza apenas ao limiar da questão, sem nela propriamente adentrar.

19. Quem negligencia pensar conjuntamente o eterno retorno e a vontade de poder, como o que deve ser pensado genuína e filosoficamente, não consegue apreender de modo adequado o conteúdo metafísico da doutrina da vontade de poder em toda a sua amplitude, ainda que a conexão entre o eterno retorno como determinação suprema do ser e a vontade de poder como caráter básico de todos os entes não se apresente de modo evidente ou imediato.

20. A interpretação corrente de Nietzsche costuma eliminar o significado propriamente filosófico da doutrina do eterno retorno, impedindo assim uma concepção fecunda de sua metafísica, o que se ilustra por meio de dois exemplos independentes entre si: a leitura de Alfred Baeumler em Nietzsche: Filósofo e Político, de 1931, e a leitura de Karl Jaspers em Nietzsche: Introdução à Compreensão de seu Filosofar, de 1936.

21. Baeumler apresenta o pensamento mais difícil e o cume da meditação como convicção inteiramente pessoal e religiosa de Nietzsche, sustentando que apenas uma das doutrinas pode ser válida, a do eterno retorno ou a da vontade de poder, fundamentando essa alternativa exclusiva no argumento de que a vontade de poder equivale ao vir-a-ser segundo a antiga doutrina heraclítica do fluxo das coisas, enquanto o eterno retorno introduziria uma contradição nessa metafísica ao negar o fluxo ilimitado do devir.

22. Segundo essa leitura, a doutrina do eterno retorno implicaria deter o vir-a-ser, sendo classificada como desprovida de importância do ponto de vista do sistema de Nietzsche, e associada a uma egiptização do mundo heraclítico atribuída a um Nietzsche compreendido como fundador de religião.

23. Contesta-se essa leitura ao observar que a concepção de Heráclito como pregador de um fluxo eterno e contínuo das coisas é estranha ao pensamento grego, sendo igualmente questionável atribuir à vontade de poder nietzschiana, sem mais, o sentido de um vir-a-ser meramente fluente, uma vez que tal concepção de devir mostra-se superficial demais para ser prontamente ascrita a Nietzsche.

24. Reconhece-se que as afirmações “o ser é vir-a-ser” e “o vir-a-ser é ser” não guardam necessariamente contradição entre si, sendo precisamente esse o ensinamento de Heráclito, e que, mesmo admitindo-se contradição entre vontade de poder e eterno retorno, desde Hegel sabe-se que uma contradição não prova necessariamente a falsidade de um enunciado metafísico, podendo antes evidenciar sua verdade.

25. Questiona-se por que Baeumler decide contra o pensamento mais difícil de Nietzsche, o cume de sua meditação, e a favor da vontade de poder, respondendo-se que suas reflexões não avançam efetivamente na direção de uma investigação genuína a partir de nenhum dos dois lados, mas resultam do fato de que a doutrina do eterno retorno, temida como egipticismo, conflita com sua concepção de vontade de poder, concepção essa que, apesar da linguagem metafísica empregada, é interpretada politicamente e não metafisicamente.

26. Assinala-se como digno de nota que Baeumler, apesar de figurar entre os poucos comentadores que rejeitam a interpretação psicológico-biologista de Klages sobre Nietzsche, ainda assim submete o eterno retorno a uma leitura condicionada por sua própria concepção política.

27. A segunda concepção examinada é a de Karl Jaspers, que discute o ensinamento do eterno retorno com maior detalhe e reconhece nele um dos pensamentos decisivos de Nietzsche, mas, apesar de tratar da questão do ser, não conduz esse pensamento ao âmbito da questão fundante da filosofia ocidental nem estabelece sua conexão efetiva com a doutrina da vontade de poder.

28. Enquanto para Baeumler a doutrina do eterno retorno não pode ser conciliada com sua interpretação política de Nietzsche, para Jaspers não é possível tomá-la como questão de grande importância, visto que, segundo sua posição, não existe verdade conceitual ou conhecimento conceitual em filosofia.

29. Caso a doutrina do eterno retorno coincida com o próprio centro do pensamento metafísico de Nietzsche, questiona-se se não seria enganoso, ou ao menos unilateral, reunir todos os esboços preliminares da obra filosófica principal sob o plano que adota como título definitivo “A Vontade de Poder”.

30. Reconhece-se considerável compreensão por parte dos editores ao selecionarem, entre as três posições básicas presentes nos planos, a posição intermediária, uma vez que Nietzsche precisou primeiramente empreender um esforço decisivo para visualizar o caráter básico da vontade de poder através da totalidade dos entes, sem que esse fosse, contudo, o passo último de seu pensamento.

31. Caso Nietzsche seja de fato o pensador que se supõe, a demonstração da vontade de poder haveria sempre de gravitar em torno do pensamento do ser dos entes, que para ele significava o eterno retorno do mesmo.

32. Ainda que se admita que a edição dos esboços preliminares para a obra maior, organizada em torno do tema da vontade de poder, constitua a melhor edição possível, o livro resultante permanece algo suplementar, pois ninguém sabe o que teria resultado desses esboços caso Nietzsche tivesse conseguido transformá-los na obra principal planejada.

33. O material atualmente disponível é suficientemente essencial, rico e, do ponto de vista do próprio Nietzsche, definitivo, de modo a fornecer as condições necessárias para o que verdadeiramente importa: pensar efetivamente o pensamento filosófico genuíno de Nietzsche.

34. Esse objetivo é mais alcançável quanto menos se restringe a exposição à sequência de fragmentos particulares tal como se apresentam, reunidos e subsumidos em forma de livro, uma vez que tal ordenação de fragmentos e aforismos segundo um esquema de divisões, ainda que proveniente do próprio Nietzsche, revela-se arbitrária e inessencial.

35. O procedimento adequado consiste em pensar através dos fragmentos particulares, guiado pelo movimento de pensamento que emerge ao se colocarem as questões genuínas, o que implica deslocar-se livremente entre as diversas divisões estabelecidas pelo texto disponível, admitindo-se certa arbitrariedade dentro de limites inevitáveis.

36. O que permanece decisivo em todo esse percurso é ouvir o próprio Nietzsche, interrogando com ele e através dele, e portanto ao mesmo tempo contra ele, em nome da única questão mais íntima comum à filosofia ocidental, tarefa que somente pode ser empreendida sob certa delimitação de escopo, sendo fundamental saber onde tais limites devem ser estabelecidos.

37. Essa limitação não impede, mas antes pressupõe e exige que, com o tempo, com o auxílio do livro A Vontade de Poder, complete-se o que não for explicitamente tratado nas exposições, no espírito e na maneira do procedimento aqui adotado.