Guillaume Fagniez

Nota sobre o curso e sua tradução

O curso intitulado Fenomenologia da intuição e da expressão. Teoria da formação dos conceitos filosóficos apareceu pela primeira vez em 1993 como tomo 59 da edição integral das obras de Heidegger publicada pela Klostermann, tendo sido ministrado durante o semestre de verão de 1920 em Friburgo, onde Heidegger era então Privatdozent e assistente de Husserl, e constitui peça central da chamada fenomenologia da vida característica do primeiro período de ensino friburguês, ainda que irredutível a mera gênese de Ser e tempo.

A colocação em questão da própria fenomenologia é imediatamente contemporânea da apropriação de seu olhar por Heidegger, para quem a fenomenologia deve ser visada como ciência da origem absoluta do espírito em e para si — a vida em e para si —, divergindo assim já de saída da fenomenologia husserliana enquanto ciência transcendental da consciência.

Porque todo vida comporta um mundo próprio, ela se desdobra e se elabora em figuras expressivas, de modo que o pensamento filosófico deve passar pela mediação da expressão — a vida vivida — para reapreender aquém desta a vida como origem, ainda que a intuição permaneça o paradigma metodológico determinante dessa compreensão originária.

Já na parte conclusiva do curso de inverno de 1919-1920, Heidegger começa a evocar a ideia de uma Destruktion como método da fenomenologia da vida, compreensão da origem que trabalha caracteristicamente com negações para dissolver o sentido depositado e fixado nas expressões em direção à vida do sentido mesmo.

O curso de 1920 consiste integralmente na efetivação dessa dé-struction a respeito de dois problemas centrais — o do a priori e o do vivido —, sendo o primeiro também e sobretudo o problema da história, que o neokantismo de Heidelberg opõe ao a priori como o contingente ao necessário, cabendo a Heidegger assouplir (auflockern) esse quadro para recuperar a historicidade imanente à própria vida.

A segunda parte do curso procede a uma dé-struction do problema do vivido (Erlebnis), categoria central da psicologia da virada do século XX carregada de pressupostos antropológico-subjetivistas, confrontando para tanto a psicologia reconstrutiva de Paul Natorp e a psicologia descritiva e analítica de Wilhelm Dilthey a fim de expor os limites da psicologia enquanto tal.

Notas editoriais e agradecimentos

Segundo o uso corrente, a paginação do volume correspondente da Gesamtausgabe é indicada entre colchetes à margem do texto traduzido a partir da edição revista de 2007, sendo também assinaladas entre colchetes as conjecturas do editor do volume, remetendo-se à posfácio deste para os detalhes do estabelecimento textual.

A tradução foi longamente discutida com François Fédier, cuja incomparável experiência de tradutor e conhecimento íntimo do pensamento e da língua de Heidegger foram postos a serviço deste trabalho, a quem se agradece calorosamente, sendo as pesquisas vinculadas a esta tradução apoiadas pela Universidade Livre de Bruxelas.