O panorama da filosofia contemporânea deve funcionar apenas como constatação histórica preliminar e exotérica capaz de deixar entrever a disposição esotérica da consciência fenomenológica dos problemas, distinguindo os motivos filosóficos efetivamente vivos das formas meramente escolares, sistemáticas ou pseudofenomenológicas e mostrando que realismo crítico, neokantismo, neo-hegelianismo, filosofia dos valores, filosofia da vida e pragmatismo contêm impulsos relevantes, mas permanecem insuficientes enquanto transformam posições históricas, sistemas, valores, consciência ou vida em fundamentos não submetidos ao radicalismo originário da investigação fenomenológica.
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O panorama não pretende reconstruir detalhadamente doutrinas, mas caracterizar a presença e a eficácia geral das principais orientações no ambiente filosófico contemporâneo, especialmente para discernir aquilo que se apresenta sob o nome de fenomenologia.
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O realismo crítico constitui uma forma difundida de não-filosofia sustentada pelo senso comum e particularmente apreciada por representantes das ciências particulares, porque lhes fornece confirmação filosófica tranquilizadora de suas práticas previamente estabelecidas.
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Essa orientação repousa num
Aristóteles mal compreendido, presta apoio à teologia sistemática degradada de ambas as confissões e reconduz grande parte das questões filosóficas à problemática da existência efetiva do mundo exterior.
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A obsessão em provar cientificamente ao cidadão inquieto que o mundo exterior “realmente existe” manifesta a centralidade das questões epistemológicas na filosofia contemporânea.
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Essa centralidade remonta à renovação filosófica do último terço do século XIX sob o lema “retorno a
Kant”, da qual emergiu o
neokantismo.
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As duas principais orientações neokantianas aparecem na Escola de Marburgo — Cohen, Natorp e Cassirer — e na filosofia dos valores — Windelband, Rickert e
Lask.
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Ambas atravessam uma transformação em direção a
Fichte e sobretudo
Hegel, preparando formas de neo-hegelianismo, embora seus motivos sejam diferentes: na Escola de Marburgo predomina a continuação e fundamentação radical da lógica, enquanto na filosofia dos valores sobressaem os problemas da história e da religião.
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Apesar da crítica fenomenológica a esse tipo de filosofia, nele permanecem motivos genuínos e trabalho filosófico efetivo que não podem ser simplesmente ignorados.
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Neokantismo e neo-hegelianismo tornam-se filosofias de ponto de vista enquanto mantêm determinadas posições históricas como fundamentos últimos, tomando-as como fio condutor sem transformar radicalmente em problema o próprio direito de assumi-las.
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Teses e princípios são frequentemente herdados sem recondução à evidência última nem justificação do alcance metodológico dessa evidência, permitindo que intuições parcialmente claras sustentem reivindicações de validade ainda insuficientemente fundamentadas.
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A ausência de problemática investigativa rigorosamente científica favorece a busca precoce de fechamento sistemático e permite que tendências de sistema delimitem e deformem antecipadamente o trabalho filosófico.
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Deve-se distinguir a sistematicidade da investigação metodicamente rigorosa da construção sistemática que pretende reconduzir tudo a conceitos últimos que permanecem eles próprios sem esclarecimento suficiente.
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Wilhelm
Dilthey, enraizado nas tendências vivas do idealismo alemão, sobretudo em
Schleiermacher e
Hegel, abre uma nova perspectiva sobre a história do espírito sem construir um sistema e, embora não alcance a origem, contribui decisivamente para uma concepção genuína desse domínio.
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A contribuição de
Dilthey contrasta com a pretensão ruidosa de
Spengler, cujas formulações grandiosas são recusadas precisamente onde pretendem apresentar como novidade aquilo que já encontrava formulações muito mais rigorosas em problemas anteriores.
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Georg Simmel acolhe a orientação de
Dilthey, recebe esclarecimentos sistemáticos do
neokantismo e influências de
Bergson e da fenomenologia, contribuindo para uma nova visão do espírito vivo e de suas produções.
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O pensamento de Simmel permanece ameaçado pelo formalismo e pela combinação móvel de grupos conceituais fixos, mas é repetidamente atravessado por intuições genuínas e, em sua fase final, procura uma visão fundamental próxima de
Bergson.
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A intuição de
Bergson não deve ser desqualificada por tendências racionalistas nem confundida com sua recepção como moda cultural; justamente por sua importância, precisa ser submetida à crítica investigativa mais rigorosa e positivamente produtiva.
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Uma avaliação semelhante deve ser aplicada a William James, cuja contribuição não se esgota em rótulos escolares.
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Na Escola de Marburgo, a ideia de ciência culmina na problemática da objetivação no sujeito e na procura de uma fundamentação lógica das ciências, conduzindo ao problema fundamental da objetivação em geral.
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Na filosofia dos valores, os valores últimos e seu sistema fornecem a base final para a interpretação da vida e dos domínios da natureza e da cultura.
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Em
Dilthey, o centro encontra-se na história do espírito, nas formas e tipos morfológicos de sua configuração histórica e nos modos de compreendê-los.
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Em Simmel,
Bergson e James aparecem diferentes concepções da vida — desenvolvimento criador, filosofia da vida e pragmatismo — cujos motivos, embora procedentes de situações distintas e orientados para horizontes diversos, parecem remeter obscuramente a uma fonte fundamental ainda não esclarecida.
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A fenomenologia somente pode julgar radicalmente essas orientações se ela própria conquistar uma base originária do ver e da abertura de horizontes, pois sua crítica não pode repousar em outro ponto de vista meramente concorrente.