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A tradução não constitui uma operação meramente linguística em que cada palavra de uma língua seria substituída por outra correspondente, pois uma tradução fiel deve trasladar a palavra para o domínio essencial em que aquilo que ela nomeia pode novamente chegar à linguagem.
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Traduzir não significa tornar imediatamente familiar o estrangeiro, mas conduzir o próprio pensamento para dentro da experiência a partir da qual a palavra originária foi dita.
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Quanto mais elevada é a palavra da poesia ou do pensamento, tanto menos suficiente se torna uma equivalência lexical, porque a tradução precisa continuamente interpretar e, ao interpretar, conservar aberta a possibilidade de ser corrigida pela própria palavra originária.
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A tradução proposta para o fragmento deve permanecer provisória, não por insuficiência acidental, mas porque seu verdadeiro sentido somente poderá esclarecer-se à medida que se penetrar no nexo essencial entre dynon, encobrimento e a-se-pensar.
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A frase to me dynon pote pos an tis lathoi não deve ser tratada como sentença já transparente cuja interpretação viria posteriormente, pois tradução e interpretação crescem conjuntamente a partir da pergunta pelo que nela propriamente se diz.
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A fidelidade à palavra não se mede pela literalidade isolada, mas pela capacidade de manter sua força nomeadora e interrogativa sem impor-lhe antecipadamente conceitos posteriores.
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A sentença heraclítica apresenta inicialmente dois membros cuja relação deve ser interrogada: aquilo que “nunca declina” e a possibilidade de alguém manter-se encoberto diante disso.
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To me dynon pote não deve ser imediatamente convertido numa expressão nominal fixa, como se designasse uma entidade determinada chamada “o que nunca declina”; a forma verbal conserva a dinâmica própria do declinar e de sua negação.
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Tis, “alguém”, tampouco deve ser previamente restringido ao homem individual, pois a sentença inicialmente deixa indeterminado quem ou o que poderia encontrar-se na relação com aquilo que nunca declina.
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Lanthanein significa estar encoberto e permanecer no encobrimento, de modo que a pergunta de
Heráclito não concerne simplesmente ao fato psicológico de alguém passar despercebido por um observador.
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A tradução corrente que pergunta como alguém poderia “esconder-se” daquilo que nunca se põe corre o risco de transformar o fragmento numa relação entre um sujeito que observa permanentemente e outro que procura furtar-se à sua vigilância.
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Essa interpretação aproximaria o que nunca declina de um olho cósmico onisciente, mas tal imagem obscurece o problema propriamente heraclítico e introduz representações estranhas à palavra.
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A forma interrogativa precisa ser preservada, porque uma sentença que parece responder de antemão que “ninguém” pode permanecer encoberto transforma a pergunta numa afirmação retórica e elimina justamente aquilo que nela exige pensamento.
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O questionável não deve desaparecer sob a aparência de uma máxima evidente; importa perguntar de que modo “declinar”, “não declinar” e “estar encoberto” pertencem essencialmente uns aos outros.
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A questão não consiste apenas em determinar quem poderia esconder-se, mas em compreender que espécie de relação permite que encobrimento e não-declínio se enfrentem numa mesma sentença.
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O fragmento deve ser mantido aberto como pergunta, pois aquilo que parece inicialmente óbvio — que ninguém poderia esconder-se de algo sempre presente — pode ser justamente a representação que impede alcançar o sentido originário.
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A palavra to me dynon pote contém um aceno para uma essência que não pode ser pensada a partir de um ente determinado, nem mesmo de um ente supremo permanentemente desperto.
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A aproximação decisiva exige abandonar a imagem de um observador cósmico e perguntar pelo próprio dynon, isto é, pelo declinar enquanto acontecimento essencial.
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O verbo dyo e suas formas remetem ao entrar, mergulhar, afundar e declinar, como no declínio do sol que desaparece no horizonte.
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Pensado de maneira grega, declinar não significa simplesmente cessar de existir, mas entrar no encobrimento, retirar-se do aparecimento e recolher-se na ocultação.
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O declínio do sol não significa que o sol seja aniquilado; ele desaparece da abertura do aparecimento ao entrar no encobrimento.
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Dunon deve, portanto, ser ouvido em proximidade essencial com lanthanein, pois o declinar é uma modalidade do recolher-se ao encoberto.
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O fragmento reúne, assim, duas determinações do encobrimento: de um lado, o declinar; de outro, o permanecer encoberto expresso por lanthanein.
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Se aquilo que nunca declina não entra jamais no encobrimento, a pergunta passa a exigir que se pense como qualquer coisa poderia permanecer encoberta diante daquilo cuja essência não se recolhe.
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Essa relação não se resolve pela representação de uma vigilância universal, mas conduz à questão acerca daquilo que, por não declinar, possibilita justamente aparecer e encobrir-se.
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A tradução “nunca declina” deve permanecer provisoriamente próxima do fenômeno do pôr-se do sol, porque essa imagem ainda conserva a experiência grega de entrada e retraimento no encobrimento.
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O pensamento moderno tende a interpretar aquilo que “não declina” como permanente, universal e invariável, aproximando-o do universum e das determinações metafísicas do ente supremo, mas essa interpretação pode desviar imediatamente do sentido heraclítico.
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A palavra latina universum, como reunião do todo numa unidade, pertence a uma experiência histórica posterior e não deve ser projetada sobre o fragmento.
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Também a pergunta pelo “homem” precisa permanecer suspensa, pois não está decidido que tis nomeie exclusivamente o homem nem que o fragmento coloque em primeiro plano uma relação antropológica.
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A sentença exige, antes, reconhecer uma conexão essencial entre não-declínio e encobrimento, conexão que somente poderá ser esclarecida quando as próprias palavras forem novamente experimentadas em sua proveniência.
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To me dynon apresenta uma estrutura morfológica ambígua, pois dynon é particípio e, como tal, participa simultaneamente do caráter verbal e nominal, razão pela qual não deve ser imediatamente substantivado como “o não-declinante”.
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O particípio conserva o acontecer verbal do declinar e, ao mesmo tempo, permite que aquilo que declina seja nomeado, mantendo numa única forma aquilo que a gramática posterior separará em verbo e nome.
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A riqueza dessa forma gramatical oferece um caminho para perceber como a linguagem grega pode conservar uma experiência do ser anterior à separação rígida entre coisa e acontecimento.
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Dyo significa declinar, mergulhar, afundar; dynon pode, portanto, indicar tanto aquilo que declina quanto o próprio vigorar do declinar.
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O problema não pode ser resolvido por uma análise gramatical isolada, pois a gramática somente fornece um aceno exterior para uma diferença que pertence originariamente ao pensamento.
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A questão decisiva torna-se saber se o fragmento pensa primordialmente uma coisa que possui a propriedade de não declinar ou o próprio não-declinar como vigência.
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Para aproximar-se dessa diferença, torna-se necessário considerar a questão que orienta o pensamento metafísico desde
Platão e
Aristóteles: ti to on, “o que é o ente?”
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Aristóteles determina explicitamente essa pergunta como aquela que, desde sempre, agora e continuamente, permanece procurada e constitui a questão do pensamento.
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To on, “o ente”, apresenta a mesma estrutura participial: pode significar aquilo que é e, simultaneamente, o próprio ser daquilo que é.
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A pergunta ti to on pode ser entendida como “o que é o ente?”, mas essa tradução corre o risco de transformar imediatamente o particípio numa coisa substantivada e de perder a força verbal do einai, ser.
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O ente é aquilo que é, mas aquilo pelo qual o ente é ente não pode ser novamente apenas um ente entre outros.
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A metafísica pergunta pelo ente enquanto ente, procurando aquilo que pertence a cada ente no que ele é e torna possível dizer dele que “é”.
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Aristóteles chama ousia aquilo a partir do qual o ente é compreendido em seu ser, mas ousia não deve ser reduzida imediatamente à posterior tradução latina substantia.
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O caminho da tradução de ousia por substantia contribuiu para consolidar uma compreensão nominal do ser e para obscurecer a proveniência verbal da experiência grega.
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Platão e
Aristóteles estabelecem a metafísica ao perguntar pelo ser dos entes a partir do próprio ente, procurando aquilo que permanece comum ao ente enquanto ente.
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O pensamento metafísico desloca-se, assim, do acontecimento verbal do ser para a determinação da entidade do ente.
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Essa transformação oferece um exemplo histórico decisivo para compreender o perigo de tratar dynon imediatamente como substantivo.
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Assim como to on conserva uma ambiguidade essencial entre “ente” e “ser”, também to dynon deve ser mantido na tensão entre aquilo que declina e o declinar.
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O particípio constitui uma forma linguística particularmente apta a preservar a oscilação entre presença nominal e vigência verbal.
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A questão não consiste em escolher arbitrariamente um dos dois significados, mas em perguntar qual deles possui primazia no pensamento originário.
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A experiência posterior da metafísica tende a privilegiar o substantivo e a entidade, enquanto o pensamento inicial pode exigir que se escute primeiramente o acontecer verbal.
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A dificuldade de traduzir o fragmento decorre, portanto, não de uma peculiaridade filológica marginal, mas do modo como a própria linguagem conserva a diferença entre ser e ente.
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A pergunta metafísica ti to on torna visível como uma forma participial pode tornar-se o centro de uma história inteira do pensamento.
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O esclarecimento de dynon precisa, por isso, permanecer atento à possibilidade de que
Heráclito não esteja nomeando simplesmente “algo” que nunca declina, mas pensando o próprio não-declinar em sua vigência.
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A relação com o encobrimento ganha então maior profundidade, pois já não se trataria de um ente permanente diante do qual outros entes não conseguem esconder-se, mas de uma vigência em cuja abertura encobrimento e desencobrimento se tornam possíveis.
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A familiaridade cotidiana com as palavras “ser” e “é” encobre a estranheza de seu significado, pois elas são continuamente pronunciadas sem que se pergunte aquilo que propriamente nomeiam.
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A palavra “é” aparece em cada frase e em cada relação ordinária, mas precisamente sua ubiquidade faz com que passe despercebida e pareça não exigir pensamento.
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Aquilo que se apresenta como mais simples pode ser o mais difícil de pensar, porque a familiaridade cotidiana produz a impressão de que já se compreendeu aquilo que apenas se utiliza.
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Perguntar pelo “é” não consiste em buscar uma definição lexical, mas em interrogar aquilo que permite dizer de qualquer ente que ele é.
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A palavra “ser” parece extremamente vazia porque pode ser aplicada a tudo, mas essa aparente vacuidade pode esconder justamente a amplitude de sua vigência.
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O homem move-se constantemente numa compreensão do ser, mesmo sem tematizá-lo, porque todo relacionamento com qualquer ente já pressupõe que o ente seja compreendido como ente.
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Essa compreensão prévia não constitui conhecimento conceitual elaborado, mas o horizonte silencioso no qual coisas, pessoas, obras e acontecimentos podem aparecer.
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A linguagem é continuamente atravessada pelo “é”, mesmo quando ninguém o pronuncia expressamente, pois toda palavra que nomeia algo já se move no âmbito em que esse algo pode ser compreendido como sendo.
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O homem, determinado tradicionalmente como zoon logon echon, é o ente que possui a palavra, mas essa posse não significa dominar a linguagem como instrumento; antes, o homem permanece colocado pela palavra na abertura do ser.
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Mesmo pinturas, templos, sons e gestos somente podem manifestar algo porque já se encontram numa abertura de sentido em que aquilo que aparece pode ser compreendido como aquilo que é.
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A ausência da palavra “ser” numa expressão não significa ausência de sua vigência, pois o “é” pode permanecer silenciosamente pressuposto em todo dizer e mostrar.
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A familiaridade extrema com “ser” torna possível o esquecimento extremo do ser: justamente porque o homem já sempre compreende de algum modo o “é”, pode deixar de interrogá-lo inteiramente.
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A perda dessa compreensão não seria comparável a uma catástrofe exterior, pois significaria a destruição do próprio âmbito em que algo pode aparecer como ente.
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O esquecimento do ser não consiste, contudo, na simples ausência completa de qualquer compreensão, mas no fato histórico de que o homem continua relacionando-se com entes enquanto deixa impensado aquilo que torna possível essa relação.
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Mesmo a metafísica permanece numa relação com o ser quando o esquece em sua proveniência, pois sua própria determinação dos entes pressupõe continuamente aquilo que não interroga originariamente.
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Platão e
Aristóteles são chamados “vigias” do ser dos entes porque fundam a pergunta metafísica pela entidade, embora com eles comece também a história na qual a questão originária do ser é progressivamente deslocada.
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Nietzsche, como último pensador da metafísica, interpreta o ser a partir da realidade entendida como vontade de poder, levando a história metafísica à sua consumação.
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A afirmação nietzschiana segundo a qual “ser” seria um “vapor” ou erro derradeiro da realidade não elimina a questão do ser; antes, testemunha a culminação histórica do esquecimento da diferença entre ser e ente.
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O niilismo não supera o ser simplesmente por declarar sua inexistência, pois a própria interpretação da realidade como vontade de poder permanece uma decisão acerca do ser dos entes.
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A possibilidade de experimentar o esquecimento do ser como esquecimento pressupõe ainda alguma relação com aquilo que foi esquecido.
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Uma humanidade inteiramente privada de qualquer compreensão do ser deixaria de poder experimentar entes enquanto entes e, portanto, deixaria de ser aquilo que historicamente se compreende como homem.
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O retorno à palavra “é” não constitui exercício linguístico secundário, mas preparação para a questão fundamental que o fragmento de
Heráclito mantém aberta.
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Se dynon deve ser compreendido verbalmente, torna-se necessário reaprender a escutar palavras fundamentais como “ser”, “é” e “declinar” antes que sejam transformadas em substantivos disponíveis ao pensamento.
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A reflexão sobre o “é” prepara a possibilidade de compreender que o “nunca declinar” talvez não indique primordialmente uma coisa permanente, mas uma vigência da qual depende todo aparecer e encobrir-se.
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A tradução do fragmento 16 permanece necessariamente provisória: “Quem pode manter-se encoberto face ao que a cada vez já não declina?”
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Toda tradução perde algo, mas uma tradução verdadeiramente pensante pode, em determinados casos, revelar aspectos que uma equivalência aparentemente mais literal deixa ocultos.
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A tradução de uma palavra essencial jamais consiste numa operação neutra, pois todo traslado já interpreta aquilo que traduz.
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O exemplo de uma tradução de
Sófocles mostra que a tradução pode aproximar-se da palavra originária somente quando se move no horizonte do pensamento e não apenas no da equivalência lexical.
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Tradução e interpretação não são duas etapas independentes, porque compreender a palavra exige traduzi-la e toda tradução pressupõe uma compreensão daquilo que nela se diz.
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Mesmo a língua materna necessita continuamente ser “traduzida” para uma compreensão mais originária, pois a familiaridade ordinária com as palavras pode ser precisamente aquilo que mais oculta sua essência.
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Ler
Kant,
Platão ou qualquer grande pensador exige um trabalho de tradução interna pelo qual as palavras deixam de ser tomadas segundo seu significado cotidiano e começam a ser escutadas dentro da experiência que as sustenta.
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A pretensão de compreender imediatamente um pensador porque suas palavras parecem familiares constitui uma das formas mais persistentes de incompreensão.
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O pensamento originário esconde aquilo que diz como um tesouro que não se entrega à leitura apressada, exigindo repetidos retornos à mesma palavra.
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Não existe um intérprete que possa possuir definitivamente “a melhor tradução”, pois a grande palavra permanece maior do que qualquer tradução singular.
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A compreensão pode ser continuamente retomada porque o mesmo a-se-pensar não se esgota numa interpretação determinada.
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A inquietação diante do mesmo constitui uma condição do pensamento: aquilo que já parecia compreendido volta a tornar-se questionável e exige nova escuta.
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A superioridade do pensador não reside em possuir de antemão respostas definitivas, mas na capacidade de permanecer exposto à exigência renovada daquilo que deve ser pensado.
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A tradução deve, portanto, conservar a estranheza necessária da palavra, em vez de fazê-la desaparecer mediante uma adaptação confortável ao idioma de chegada.
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O verbo empregado por
Heráclito precisa ser libertado da compreensão moderna e ouvido a partir da experiência grega do declinar como entrada no encobrimento.
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O exemplo do pôr do sol mostra que declinar não é simplesmente deixar de existir, mas desaparecer da abertura visível, recolhendo-se para aquilo que permanece encoberto.
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A tradução por “pôr-se” pode conservar parcialmente essa experiência, desde que “pôr” não seja entendido como simples deslocamento espacial de um corpo celeste.
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A poesia de Stefan George e Jean Paul mostra que a imagem do sol declinante ainda pode conservar, na língua moderna, algo da experiência de entrada no ocultamento.
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O declínio não é pura aniquilação; aquilo que declina recolhe-se e permanece numa relação com aquilo de onde desapareceu.
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Pensar dynon exige, portanto, abandonar a representação segundo a qual um ente simplesmente some e deixar aparecer o movimento de retração que o leva ao encobrimento.
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A modernidade tende a substituir essa experiência por explicações astronômicas, físicas ou perspectivísticas, corretas em seu âmbito, mas incapazes de responder à questão essencial da palavra.
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As observações de Copérnico ou da ciência moderna sobre o movimento aparente do sol não tornam falsa a experiência do declinar, porque o problema não é determinar cientificamente o movimento astronômico, mas compreender a estrutura do aparecer e desaparecer.
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A palavra poética mantém aberta uma experiência do fenômeno que a explicação científica pode deixar de lado quando transforma tudo em processos objetivos.
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As referências a
Nietzsche e ao niilismo mostram o perigo de interpretar imediatamente o “nunca declinar” como permanência de um ente supremo ou princípio metafísico fixo.
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A vontade de poder nietzschiana não deve ser projetada retrospectivamente sobre
Heráclito sob a aparência de uma suposta identidade entre ambos.
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Quando
Nietzsche reconhece em
Heráclito um precursor, interpreta-o a partir de sua própria posição metafísica e, portanto, a partir de uma história já muito distante do começo grego.
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Não se deve corrigir simplesmente
Nietzsche mediante uma historiografia mais exata, porque a questão decisiva não é quem teria interpretado “corretamente”, mas que transformação histórica do ser tornou possíveis essas leituras.
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O acesso ao fragmento exige abandonar modelos históricos que tratam pensadores antigos como estágios preliminares de sistemas posteriores.
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O pensamento originário precisa ser escutado a partir de sua própria palavra, ainda que essa palavra somente possa ser alcançada através da história que a transmitiu e deformou.
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Dunon, declinar, conduz novamente ao encobrimento e mostra que o primeiro movimento interpretativo deve partir dessa relação, não de uma suposta entidade permanente que jamais se põe.
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A questão aristotélica ti to on, “o que é o ente?”, constitui um caminho privilegiado para perceber a estrutura do particípio dynon, pois to on apresenta a mesma oscilação entre significado verbal e nominal.
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Aristóteles afirma que aquilo que sempre foi procurado, agora é procurado e continuará sendo procurado é a questão do que é o ente.
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A questão não pergunta primordialmente pelas características particulares de pedras, plantas, animais, homens ou deuses, mas por aquilo segundo o qual qualquer um deles pode ser chamado ente.
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Perguntar “o que é o ente?” significa interrogar o ser do ente, e não acrescentar mais uma informação particular sobre um objeto.
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A perspectiva metafísica busca aquilo que pertence universalmente a todos os entes enquanto entes.
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O universal metafísico não deve ser confundido com uma generalização empírica que elimina diferenças, como se se produzisse uma categoria abstrata pela comparação de árvores, animais e homens.
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A entidade do ente é aquilo a partir do qual cada ente, em sua singularidade, pode ser compreendido como ente.
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Platão e
Aristóteles instauram uma forma de pensar em que o ser é interrogado a partir dos entes e em direção ao fundamento de sua entidade.
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Essa passagem constitui o início da metafísica, mas não deve ser retroprojetada sobre os pensadores originários como se estes já colocassem a mesma questão da mesma maneira.
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Parmênides,
Heráclito e
Anaximandro não devem ser simplesmente classificados como “pré-platônicos” ou “pré-socráticos”, porque tais nomes os definem a partir daquilo que veio depois e ocultam sua posição própria.
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A interpretação historiográfica tende a considerar os pensadores anteriores como formas ainda incompletas de
Platão e
Aristóteles, transformando o começo numa etapa rudimentar de uma evolução posterior.
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Aristóteles, ao interpretar seus predecessores, já os lê a partir da pergunta metafísica pela entidade e procura neles antecipações das próprias determinações.
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Essa leitura não constitui simples erro individual, mas pertence à transformação histórica pela qual o primeiro começo é reinterpretado desde a metafísica.
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O pensamento posterior pode compreender o anterior apenas a partir de suas próprias questões, mas uma meditação histórica precisa tornar visível essa distância em vez de apagá-la.
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A representação historiográfica do tempo coloca o passado atrás do presente numa sequência cronológica, fazendo o começo parecer algo definitivamente ultrapassado.
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A história essencial exige inverter essa orientação comum: o começo não está simplesmente atrás, mas permanece por vir na medida em que sua essência ainda não foi pensada.
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A origem somente pode ser encontrada mediante um movimento que abandone a mera sucessão cronológica e procure aquilo que, desde o começo, continua determinando silenciosamente a história.
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Pensadores originários e metafísicos não devem ser nivelados numa linha progressiva, porque a diferença entre eles concerne ao próprio modo da pergunta acerca do ser.
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A questão do particípio on revela como a metafísica começa a privilegiar a entidade e a substantivação do ser, oferecendo uma advertência decisiva para a interpretação de dynon.
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O fragmento de
Heráclito não deve ser forçado a responder antecipadamente à pergunta aristotélica, embora a análise dessa pergunta possa ajudar a reconhecer uma diferença que o pensamento posterior tende a encobrir.
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A tarefa consiste em deixar a morfologia da palavra abrir uma via para a experiência originária, sem transformar a gramática numa instância capaz de determinar por si só o pensamento.
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O particípio dynon reúne verbalidade e nominalidade, mas a interpretação do fragmento exige perguntar se a primazia deve pertencer ao acontecer verbal do declinar em vez de ao significado nominal de “aquilo que declina”.
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A tendência ordinária consiste em transformar imediatamente o particípio numa coisa: “o não-declinante”, como se
Heráclito já estivesse nomeando um ente determinado.
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Tal substantivação pode repetir, sem perceber, o movimento histórico pelo qual a metafísica privilegia a entidade e deixa em segundo plano a vigência verbal do ser.
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Se dynon for escutado verbalmente, o fragmento deixa de perguntar primordialmente por uma coisa que nunca declina e começa a perguntar pela essência do próprio não-declinar.
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Essa mudança não é um artifício gramatical, mas uma tentativa de permanecer mais próximo do modo como a palavra originária ainda conserva em sua forma o acontecer que nomeia.
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O fato de dynon poder significar simultaneamente “declinante” e “declinar” testemunha uma riqueza que a separação moderna entre substantivo e verbo tende a empobrecer.
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A palavra “ser” oferece o caso mais decisivo dessa dificuldade, pois pode transformar-se num nome extremamente abstrato e, contudo, sua proveniência permanece verbal.
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O “é” cotidiano é pronunciado constantemente e, ao mesmo tempo, permanece quase completamente impensado, mostrando como aquilo que está mais próximo pode ser também o mais esquecido.
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Heráclito não oferece uma definição pronta daquilo que “nunca declina”; sua sentença mantém o pensamento numa abertura em que declinar, não-declinar e encobrimento precisam ser experimentados conjuntamente.
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A pergunta deve permanecer sem resposta enquanto não se esclarecer se o “nunca declinar” constitui apenas uma modalidade de ser entre outras ou se nele se anuncia algo essencialmente ligado ao próprio ser.
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Transformar imediatamente a sentença numa doutrina acerca de um ser eterno significaria abandonar prematuramente a pergunta e impor ao fragmento uma metafísica posterior.
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A abertura da questão exige reconhecer que a história da interpretação se encontra sempre próxima, e que nenhuma aproximação ao pensamento originário acontece fora dessa história.
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O homem contemporâneo já pensa espontaneamente segundo determinações produzidas por
Platão,
Aristóteles e pela tradição metafísica, mesmo quando desconhece essa proveniência.
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A distância histórica não pode ser anulada por erudição filológica, pois se encontra inscrita no próprio modo habitual de compreender palavras fundamentais como ser, ente, verdade, realidade e natureza.
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O caminho para
Heráclito exige, por isso, um desaprendizado cuidadoso da evidência conceitual acumulada durante séculos.
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Pensar dynon verbalmente significa tentar devolver à palavra sua mobilidade originária e resistir à tendência de convertê-la imediatamente numa coisa ou num princípio.
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Essa tentativa prepara a pergunta decisiva: como pode alguém manter-se encoberto diante do próprio não-declinar, se o não-declinar estiver essencialmente relacionado com aquilo que deixa tudo aparecer?
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A sentença de
Heráclito permanece propositalmente aberta, porque a resposta só poderá surgir quando se esclarecer mais originariamente a relação entre declinar, encobrimento, aparecer e ser.
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A familiaridade cotidiana com o ser constitui simultaneamente condição e obstáculo para essa investigação: condição porque todo homem já compreende de algum modo o “é”; obstáculo porque essa compreensão habitual parece dispensar a pergunta.
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O esquecimento do ser manifesta-se justamente no fato de o homem mover-se incessantemente entre entes sem interrogar aquilo que permite que eles sejam experimentados como entes.
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Mesmo a consumação metafísica em
Nietzsche, que reduz o ser a um conceito vazio e interpreta a realidade como vontade de poder, permanece historicamente determinada por aquilo que pretende abandonar.
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A declaração de que o ser seria o último “vapor” da realidade revela não a superação do problema, mas a extrema distância em relação ao começo em que a palavra ainda permanecia ligada à vigência originária.
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Se o homem perdesse totalmente a compreensão do “é”, não perderia apenas uma palavra ou um conceito, mas o próprio âmbito no qual qualquer ente poderia aparecer-lhe como ente.
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O fragmento 16 conduz, por isso, para muito além de uma sentença acerca de algo permanentemente desperto: ele exige reaprender a pensar o não-declinar como acontecimento essencial e perguntar de que maneira esse acontecimento pertence ao encobrimento.
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A formulação provisória — “Quem pode manter-se encoberto face ao que a cada vez já não declina?” — deve continuar sendo ouvida como pergunta e não como resposta disfarçada, pois somente sua abertura pode preservar o acesso àquilo que
Heráclito deixa a-se-pensar.