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Hölderlins Hymne “Andenken” (WS 1941-1942) [1982]

Primeira Parte Principal

23. Indicações preliminares mediante citação de passagens da poesia

As mulheres morenas que andam em dias de festa sobre solo sedoso não são pessoas quaisquer em hora comum, pois os dias de festa e a festa são nomeados repetidamente na poesia hímnica de Hölderlin como algo essencial, e não como mera descrição poética para criar atmosfera.

24. Festar como pausa no trabalho e transição para a reflexão sobre o essencial

Festar significa, em primeiro lugar, interromper o trabalho cotidiano, o que libera para outra coisa, mas o festar não é apenas o negativo da cessação do trabalho, pois o seu ser essencial provém de uma força própria, e se o festar se limita a ser uma pausa, ele se torna um meio de distração a serviço do trabalho.

25. O esplendor do essencial na festa. Jogo e dança

Ao festivo pertence o esplendor, que provém do brilhar e do aparecer do essencial, e este esplendor exige do homem o adorno, mas o adorno por si só não produz o esplendor da festa, pois quanto mais festivo for o dia de festa, mais solto do habitual é todo o comportamento, e quanto mais solto o comportamento, mais vibrante e flutuante é a postura.

26. A relação essencial entre festa e história. A “festa de núpcias” de homens e deuses

Para Hölderlin, a festa não é um acontecimento no quadro e no fundamento da história, mas ela mesma é o fundamento e a essência da história, de modo que, ao se buscar compreender a essência da festa, abre-se a perspectiva da conexão essencial entre festa e história que subjaz ao poema “Andenken”.

27. O festivo como origem dos estados de ânimo. Alegria e tristeza. O Epigrama “Sófocles

O festivo é o fundamento essencial da festa e, como o saudar inaugural que é o Sagrado, nele vigora o tonalizar de um estado de ânimo que permanece mais inaugural e originário do que qualquer estado de ânimo que nos atravessa e determina, e o pensamento moderno, que apreende os estados de ânimo como estados de sentimento, perde de vista essa origem mais elevada.

28. As mulheres na festa e sua co-preparação. As mulheres do sul da França e a festa passada da Grécia

Hölderlin nomeia as mulheres porque elas são as que, pelo pressentimento da festa, são mais imediatamente sustentadas e mais intimamente tonalizadas para a preparação da festa, encontrando o conveniente e desprendendo seu esplendor, e no poema “Canto do Alemão” ele diz que as mulheres alemãs preservaram o espírito amigo das imagens dos deuses.

(Reiteração)

A segunda estrofe nomeia as mulheres porque o poeta pensa nos dias de festa e na festa, que é o acontecimento do vir-ao-encontro de homens e deuses e o fundamento essencial da história, e a saudação saúda a festa grega passada, para deixá-la ser em sua essência.

29. Transição como reconciliação e equilíbrio

O verdadeiro equilíbrio não é um nivelamento que tudo iguala na identidade vazia, nem a supressão da luta, mas a liberação dos contendores no direito próprio de sua essência, um trazer cada um para a calma de sua essência, onde reconhece o contra-essência e, nesse reconhecimento, encontra-se a si mesmo, encontrando-se não como teimosia, mas como travessia do próprio para o estrangeiro do outro e retorno deste estrangeiro reconhecido para o próprio, e a época de março é o tempo em que noite e dia são iguais.

30. A “noite”: tempo-espaço do pensar nos deuses passados. Transição na acolhida do ocaso e preparação do nascer

A noite não é uma mera imagem para a ausência dos deuses, mas o tempo-espaço da relação própria com os deuses e com o que sustenta o vir-ao-encontro, o tempo-espaço do lembrar triste, do pensar nos deuses passados, que não são meramente transitórios, mas que ainda vigoram, pois o ocaso (Untergang), no sentido histórico, só pode ser o que se entrega à vigência do ter-sido (Gewesenheit), e a noite acolhe o ocaso em sua guarda como preparação do nascer (Aufgang).

31. O acomodar-se (Sichschicken) de deuses e homens no conveniente (Schickliche). O conveniente e o destino (Schicksal)

Deuses e homens são, mas de tal modo que se acomodam no conveniente (Schickliche), que não é uma prescrição ou costume, mas o que pertence no sentido da guarda da pertença à essência, o que dispõe sobre o que pertence e o fügt, de modo que tudo o que deve permanecer na essência deve se adequar a essa fügung.

32. Concepção do destino no pensar calculador da metafísica e destino no sentido de Hölderlin

O pensar calculador da metafísica, desde a filosofia platônica, apreende todo ente como real-efetivo-efetuado na sequência de causa e efeito, pensando o destino como uma causa obscura, como predestinação ou providência, e essa concepção técnica do ente segundo causa e efeito é a origem da moderna técnica.

33. A festa como pausa (Weile) equilibradora para o destino

A festa é o fundamento e a essência da história, e o acontecimento da festa, como o mais alto equilíbrio, traz todo o acomodar-se e o conveniente, e com eles o destino, para uma harmonia, sendo o tempo-espaço e a estrutura essencial do mais íntimo equilíbrio, onde cada coisa é como é em sua essência, e na festa acontece a pausa (Weile) em que o destino permanece, quando o conveniente de um para o outro se encontrou e se cumpriu.

34. A transição do passado da Grécia para o futuro. A verdade velada da poesia hímnica

A época de março é um tempo de transição do passado para o futuro, e os versos sobre as passarelas lentas e as auras embaladoras, que parecem uma descrição poética ideal, velam na verdade a verdade própria da poesia hölderliniana, pois o que é nomeado no saudar tem um sentido duplo, ou mesmo triplo: refere-se à terra saudada e sua história, ao modo transformado do futuro e, propriamente, à transição do passado para o futuro.

(Reiteração)

Os dias de festa são os dias que precedem a festa, as vigílias noturnas para o destino, e por isso são nomeados juntamente com a época de março, quando noite e dia são iguais, e a transição é o vir-ao-encontro de homens e deuses, a festa, e também a transição da festa passada para a futura.

(Continuação da reiteração)

O conveniente para homens e deuses é o Sagrado, que os envia (schickt) para sua posição essencial, e o envio (Schickung) füge as relações do Sagrado com os homens e deuses, relações que são a fuga (Fuge) que tudo füge e determina, o Seyn, onde todo ente vigora.

(Final da reiteração)

Quando a festa é, então, por uma pausa (Weile), o destino está equilibrado, e a pausa, que para o pensar calculador é curta duração, é o tempo da festa, que não se mede pelo relógio, pois a pausa do único tem sua própria maneira de permanecer, que não precisa do retorno e não pode ser superada, porque tudo o que vem tem sua chegada apenas na pausa da singularidade do que foi.

35. “Auras embaladoras…”: o abrigo na origem, o mais próprio de homens e deuses. “Sonhos dourados”

O vento que sopra indica a diversidade da exigência sobre uma humanidade e, assim, a diferença do que lhe é atribuído e do que ela traz consigo, e o vento nomeia a diferença da relação entre o atribuído e o trazido, e o modo do que lhe é imposto como seu ser histórico e como a maneira de sua festividade.

36. Observação intermediária sobre as explicações científicas dos sonhos

A psicologia e a psicopatologia dão definições do sonho como um estado de consciência alterado, mas essa explicação já se baseia em proposições sobre consciência, homem, essência do homem, e a pergunta pelo ser do sonho é complicada, pois a explicação científica só oferece uma ajuda muito condicionada, já que tais explicações repousam sobre pressupostos não fundamentados.

37. O sonho. O onírico como o irrealizado ou o não-ente

O onírico é considerado, por um lado, como o irrealizado, sem consistência e, portanto, nulo, um “mero sonho”, medido pelo efetivo (Wirkliche), que é entendido como o que efetua, é eficaz e acessível, palpável e disponível no círculo do nosso próprio agir calculador.

38. Pensamento grego do sonho. Píndaro

No passado e na terra cuja história e festa Hölderlin saúda, o ente era pensado de outro modo, e, portanto, também o não-ente, e para perguntar sobre o sonho, pode-se recorrer a um poeta grego, Píndaro, que, em uma de suas últimas odes, pergunta: “O que é um? O que não é um? Sombra de sonho são os homens.”

39. O sonho como aparecimento sombrio do desaparecimento no sem-luz. Presença e ausência

A sombra já é, como sombreamento, não mais o luminoso e nem a luz mesma, mas já uma espécie de ausência do luminoso, e o homem é um sonho dessa sombra, ou seja, a extrema ausência no sem-luz, mas ainda assim um aparecimento, o aparecimento da partida para o totalmente sem brilho.

40. O possível como presença do desaparecimento e como aparecimento da chegada na “efetividade” (no Seyn)

Se o sonho é o aparecimento de um desaparecimento, então o desaparecido é apenas um modo da admoestação (Anweisung) do possível, do que não pode mais ser, e outro modo do aparecimento do possível é o aparecimento da chegada, do anúncio, do vir, que também é uma admoestação, e no pensamento moderno, o que chega não é nem já efetivo nem apenas não-efetivo, sendo o possível como o que chega um “estado entre Seyn e Nichtseyn”.

41. O tratado de Hölderlin “O Devir no Perecer”. Sonho como trazer o possível e preservar o efetivo transfigurado

O pequeno tratado de Hölderlin, “O Devir no Perecer” (Das Werden im Vergehen), contém uma reflexão sobre a pátria em perecimento e sobre as razões essenciais e a verdade oculta desse acontecimento, e diz que no estado entre ser e não-ser o possível se torna real e o efetivo se torna ideal, e isso é, na livre imitação artística, um sonho terrível mas divino.