1.1

Hölderlins Hymne “Andenken” (WS 1941-1942) [1982]

Primeira Parte Principal

Entrada no âmbito do poema como palavra

11. Início e fim do poema

O poema “Andenken” começa com a nomeação do vento nordeste, que não é uma constatação meteorológica, mas a abertura do tempo-espaço da poesia, onde vigora a claridade fria e a decidida pureza de um saber simples.

12. Sobre a linguagem: palavra poetizante e palavras sonantes

A linguagem é a faculdade para a palavra, e as formações que surgem no falar chamam-se palavras de uma língua, mas as palavras são algo diferente de palavras (Worte), pois há palavras (Worte) apenas onde há a palavra (das Wort), que é a origem da linguagem.

13. A linguagem em nosso instante histórico

Nossa relação com a linguagem, com as palavras e com a palavra está há muito confusa, indeterminada e sem fundamento, e a linguagem é tratada como um instrumento de organização e de armamento do homem, um meio de poder e uma forma de domínio, num processo metafísico que escapa ao arbítrio do indivíduo.

14. Visão prévia da unidade do poema

O primeiro verso, “O nordeste sopra”, menciona um acontecimento isolado na natureza sensível, enquanto o último, “O que permanece, porém, os poetas fundam”, enuncia uma lei essencial no âmbito mais elevado do espírito, mas já se anunciou que o primeiro verso não é uma descrição da natureza, e sim nomeia a graça do poético e seu tempo-espaço, e o verso final talvez não diga simplesmente uma sentença sobre a essência da poesia.

(Reiteração)

Ao tentar interpretar as poetizações de Hölderlin, deu-se o primeiro passo sobre o limiar, que é o lugar da passagem de um âmbito para outro: o âmbito corrente, onde o poema é como uma coisa dada (escrita, lida, falada), e o outro âmbito, onde o poema é a palavra que, por si mesma, deve nos acolher no espaço de sua verdade.

15. Poetizar e explicação moderna da natureza. Sobre a doutrina da imagem e da metáfora

O “ardente” (Feurige) refere-se ao fogo do sol, mas, assim como o vento, não se trata de fenômenos naturais que depois significariam outra coisa como símbolos; ao contrário, o sol e o vento só vêm à aparência a partir de um mundo e só são o que são na medida em que são poetizados a partir desse mundo.

16. “O nordeste sopra”. A graça da pertença ao ofício de poeta

O nordeste é a graça e a mercê dos navegantes, que são os poetas, e é o “mais amado” para Hölderlin porque ele fala de sua pertença aos navegantes como poetas, e essa preferência não se deve a um bem-estar pessoal, mas ao querer-junto (Mitwollen) do ente que nos determina na essência.

17. O “saudar”. Sobre o perigo da mania de explicação psicológico-biográfica

O verso “Vai, porém, agora, e saúda…” parece contradizer a partida com o vento favorável, sugerindo uma despedida e renúncia, o que facilmente leva à interpretação biográfica de que Hölderlin, exausto e fugindo para a mera recordação, teria renunciado à poesia devido à doença mental que se aproximava.

18. Norbert von Hellingrath sobre a loucura de Hölderlin. Comemoração de von Hellingrath

Hellingrath já disse o essencial sobre a loucura de Hölderlin, mostrando que quem vive entre deuses não é mais compreendido pelos homens, e que pela primeira vez na Alemanha a linguagem poética se arrisca tão sem disfarce, crescida de solo e ar nativos, sendo compreensível que os alemães não tenham lido esses hinos, mas se alegrado com os “traços da loucura” neles.

19. O des-locamento (Ver-rückung) de Hölderlin como inserção em um outro lugar essencial

Todo o biográfico-psicológico não ajuda na interpretação dos poemas, pois o biográfico só pode receber sua interpretação e determinação a partir da obra, que deve ser reconhecida em todas as suas formas essenciais, incluindo as traduções de Píndaro e Sófocles, que não são uma ocupação secundária.

20. O “ir” do nordeste. O “saudar” como co-ir do poeta

“Vai, porém, agora” não significa que o vento pare de soprar, mas que ele “vá” no sentido de soprar, um ir que é ambíguo porque, ao ir, o vento sopra, e ao soprar, permanece; o interpelar o vento o mantém voltado para si, mas não o detém, pois detê-lo seria destruí-lo e perdê-lo.

(Reiteração)

“Vai, porém, agora, e saúda” é a renúncia à viagem no vento favorável do nordeste, mas ainda assim um co-ir com o vento, uma despedida que não é o fim, mas talvez um outro início, e o vento mais amado não é detido para que o que ele traz seja retido em sua plenitude essencial.

21. Da primeira para a segunda estrofe. O pensar-voltado-para (Hindenken) saudoso como deixar-ser (Seinlassen) do saudado. O saudado pensa-se em direção ao poeta

O que é devido a cada ente é a essência a partir da qual ele é o que é, e a saudação genuína é um apelo que atribui ao saudado a posição essencial que lhe é devida, reconhecendo-o e deixando-o ser o que é, sendo o saudar um deixar-ser as coisas e os homens.

22. Na unidade do saudado, reunida pela saudação do poeta, surgem o trabalho diário e a morada do homem

O que é pensado em direção ao poeta a partir do saudado se recolhe agora no trabalho diário e na morada do homem, protegidos pela sombra das amplas copas da floresta de olmos sobre o moinho, onde o poeta alemão encontra abrigo, e onde o moinho prepara o grão para o pão, como na elegia “Pão e Vinho”.