1.2

Primeira parte

Segunda seção

Palavras-guia para a meditação sobre o ser

§ 8. O ser é o mais vazio e, ao mesmo tempo, a superabundância

O ser (Sein), inicialmente reconhecido no «é» como aquilo que parece não oferecer qualquer apoio determinado ao pensamento, manifesta ao mesmo tempo uma superabundância (Überfluß) que não pode ser derivada da simples multiplicidade dos entes, de modo que vazio e superabundância não constituem caracterizações alternativamente excludentes, mas indicam uma duplicidade essencial cuja unidade deve ser mantida sem convertê-la prematuramente numa oposição dialética ou numa determinação já decidida da essência do ser.

§ 9. O ser é o mais comum e, ao mesmo tempo, o único

O ser é o mais comum porque se encontra indistintamente em todo ente, seja pedra, árvore, animal, homem, mundo ou deus, mas é simultaneamente o único porque, enquanto cada ente encontra sempre outro ente semelhante a si como ente, o ser não possui em parte alguma equivalente, duplicação ou correspondente, permanecendo incomparavelmente o mesmo (das Selbe) através dos diversos modos de ser sem jamais se dispersar numa multiplicidade de seres.

§ 10. O ser é o mais compreensível e, ao mesmo tempo, o encobrimento

O ser é o mais compreensível porque toda relação cotidiana, científica ou prática com o ente já pressupõe silenciosamente uma compreensão imediata do «é» e do ser, mas justamente essa familiaridade universal converte-se em encobrimento (Verbergung) quando, solicitado a dizer propriamente o que é compreendido por «ser», o pensamento perde todo apoio nos entes, descobre não possuir um conceito adequado e encontra o próprio ser retirando-se de toda explicação fundada no ente, de modo que o ocultar-se não é uma deficiência exterior de nosso conhecimento, mas pertence à própria essência do ser.

§ 11. O ser é o mais gasto e, ao mesmo tempo, a origem

O ser é o mais gasto porque é incessantemente usado em toda relação com os entes, no dizer, compreender, experimentar, questionar, produzir e deixar-ser, tornando-se tão corriqueiro quanto uma moeda desgastada cujo valor de uso jamais chama atenção; contudo, nenhum uso consegue consumi-lo até o desaparecimento, pois até na vontade extrema de que nada mais seja continua-se a invocar o ser, que então se mostra como aquilo de onde todo ente e até sua possível aniquilação procedem, razão pela qual o mais gasto revela-se simultaneamente como origem (Ursprung).

§ 12. O ser é o mais confiável e, ao mesmo tempo, o abismo

O ser é o mais confiável porque toda dúvida acerca de qualquer ente pressupõe previamente uma confiança não questionada no significado de «ser», mas, quando se procura fundar diretamente no próprio ser os projetos, cálculos, utilizações e organizações cotidianas do ente, ele não oferece solo ou fundamento disponível, retirando toda possibilidade de apoio imediato e mostrando-se como Ab-grund, o abismo que recusa ser convertido em base asseguradora.

§ 13. O ser é o mais dito e, ao mesmo tempo, o silenciamento

O ser é o mais dito porque em cada verbo, substantivo, adjetivo, enunciado, ação silenciosa e até na completa ausência de palavras já se diz implicitamente que os entes são, porém justamente aquilo que é incessantemente co-dito permanece não expresso em sua essência, de modo que o ser se revela como silenciamento (Verschweigung) de si mesmo, silêncio essencial do qual toda palavra pode primeiramente surgir e no qual se funda a relação originária entre ser e linguagem.

§ 14. O ser é o mais esquecido e, ao mesmo tempo, a recordação

O ser é o mais esquecido porque toda atenção se dirige aos entes enquanto o próprio ser, embora seja o mais próximo em cada relação com eles, é ultrapassado como algo supostamente evidente e indigno de investigação, chegando-se inclusive a esquecer o próprio esquecimento do ser (Seinsvergessenheit); contudo, nenhum ente poderia tornar-se manifesto como ente nem o homem poderia experimentar a si mesmo como ente se o ser não o reconduzisse previamente ao ente, de modo que o próprio ser é o recordar originário (Er-innerung) que faz entrar os entes no aberto.

§ 15. O ser é o que mais constrange e, ao mesmo tempo, a libertação

O ser é o que mais constrange porque nenhum ente pode subtrair-se à exigência de ser ente, e todo encontro, pressão, elevação, indiferença ou desaparecimento do ente permanece submetido ao constrangimento originário pelo qual o ser deixa cada ente ser; contudo, esse mesmo ser que constrange abre previamente o «aí» (Da) no qual ser e ente podem distinguir-se e, ao transpor o homem para essa abertura, liberta-o para a pertença ao ser e para uma relação livre com os entes, de modo que a própria essência da liberdade consiste nessa libertação operada pelo ser.

§ 16. Meditação conclusiva sobre o ser na sequência das palavras-guia

A sequência das palavras-guia concentra a meditação num conjunto de determinações aparentemente contrapostas — vazio e superabundância, comunidade e unicidade, compreensibilidade e encobrimento, desgaste e origem, confiabilidade e abismo, dizer e silenciamento, esquecimento e recordação, constrangimento e libertação — pelas quais o «é», antes reduzido a simples som verbal, começa a revelar uma plenitude essencial que mantém o homem tanto em sua relação própria com o ser quanto na própria não-essência do esquecimento do ser, sem que essas palavras devam ainda ser tomadas como uma doutrina concluída sobre a essência do ser.

Recapitulação

Palavras-guia sobre o ser

1. O ser é vazio como conceito abstrato e, ao mesmo tempo, superabundância

A interpretação metafísica habitual segundo a qual o ser seria apenas o conceito mais abstrato e universal faz a diferença entre ser e ente pender integralmente para o lado do ente, reduzindo o ser a sombra e apêndice sem consistência própria; contudo, a própria afirmação moderna incondicionada do ente pode ocultar uma decisão sobre o ser, e a meditação conduz à possibilidade de que o ser seja simultaneamente a vacuidade do conceito universalíssimo e a superabundância originária da qual procede toda plenitude e determinação do ente.

2. O ser é o mais comum a tudo e, ao mesmo tempo, a unicidade. A mesmidade de ser e nada

O ser é comum a todo ente porque cada ente, independentemente de sua constituição, «é», mas permanece simultaneamente único e incomparável, ao passo que o nada, igualmente vazio e único, não constitui simplesmente um terceiro contraposto ao ser, de maneira que a possibilidade de ser e nada serem o mesmo deve ser pensada como pertencimento essencial e não confundida nem com a pluralidade dos entes nem com a identificação dialética hegeliana.

3. O sentido das palavras-guia: indicações para a meditação sobre a diferença entre ser e ente

As palavras-guia não constituem proposições doutrinárias, peças de um sistema, uma teoria do ser ou afirmações representativas de determinado «ponto de vista filosófico», mas indicações destinadas a preparar uma disposição mais clara para meditar a diferença entre ser e ente e para ouvir o dizer inicial do pensamento ocidental, exigindo atenção ao que ordinariamente permanece despercebido e resistência à tendência de medir imediatamente cada pensamento pela utilidade e pelo cálculo do efetivamente real.